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Lembrete útil: filho é filho e mãe é mãe

Ao observar o filho, Tatiana Schunck se dá conta de como, desde pequeno, ele já é alguém por completo. E veja onde ela vai neste pensamento...

Meu marido diz que nosso filho já nasceu pronto. Isso era quase um segredo nosso, mas não tem nada demais eu contar aqui não. Nem é nada tão grandioso assim. Não significa muita coisa. É que o menino tem o seu tempo próprio, decide quando cresce, quando faz ou não faz, quando olha para determinado lado, quando fala contigo, quando silencia, quando está ou não está a fim de qualquer coisa… Conto isso porque é valioso observar estas atuações, que nos fazem perceber quem são os filhos que temos. Que nos fazem ver aquilo que é essência nessa pessoa tão pequena, mas já tão pronta de si.

Não quer dizer nada além disso esse nosso segredo. O segredo conta muito mais de quem são os pais, nós, do que quem é o menino. Volto a dizer que essa observação nos posiciona em um lugar uma distância irrevogável do nosso filho. Ele é uma pessoa, uma pessoa inteira. Ele não é nosso não. E ele não é nós.

Não sei mesmo como é ver este ser crescer e nem como será sua presença nessa casa, em nossas vidas, em nossos tempos… Como será ter um filho maior que isso que ele é agora? O que será que ele me contará? Como serão seus pensamentos? Por onde andarão seus desejos mais íntimos? E tudo isso não terá nada a ver comigo, assim espero.

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Espero alguma distância que nos permita nos enxergarmos. Às vezes, quando o observo com mais calma, é como se eu pudesse realmente ver os que  foram antes de mim: os avós dos pais dos filhos, até esse tanto de gente chegar até mim, e passar por mim. Vejo minha mãe, sua mãe, sua avó, seu tio Mundinho, sua tia Rene. Meu pai, sua mãe, sua avó brava, seu pai, pai do pai e do pai do avô, o Henrique, o Liberato, a Francisca, o Silvio, a Inês… Essa acumulação de gentes em tempos distantes, não tão próximos, não tão longe…

Quem é meu filho nessa linha? Quem é o filho do filho do filho? Quem ensinou quem te ensina? Disse-nos um grande mestre desses tempos do agora. Disse-nos assim também: você já é um ser vitorioso, porque arrancou à frente de milhões de espermatozóides e sobreviveu até virar corpo. Quanta luta para estar aqui! E aqui estamos em tempos de efemeridades, em tempos de incertezas, de revoluções e em tempos tão diferentes e também tão próximos daquilo que sempre foi. Quando nascemos o mundo para nós é o outro, é essa a nossa primeira experimentação de mundo. O outro. Sempre foi assim e assim continuará a ser. A não ser que passemos a nascer de outro jeito magnífico e que, para crescermos com alguma saúde psicofísica, criem afetos que andem…

 Lembro que quem vos fala é a mãe que, com um filho ainda pequeno, certamente eu sou esse filho e ele me é.  Portanto, essa ideia de o outro é quase um romance a ser escrito… Por agora, me permito lampejos de tempos inteiros só de mim. Ou só de desfrute deste outro que cresce à minha frente. Quanto privilégio!

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