Colunistas

De quando a mãe tentou escrever sobre a vida

Precisamos de mais poesia para respirar

Quando estou com meu filho há um conflito. Além de haver sensações incríveis na relação com a criança que é tão viva e tão potente, sinto-me em atrito com a realidade concreta. Porque o filho aciona em mim uma espécie de sensação do subterrâneo, algo que desconheço e que se revela vivo dentro de mim como parte fundante. É como se uma parte em mim fosse despertada do fundo da alma, revelando-me alguém que sou ou que fui e me esqueci. Ter um filho gera em mim essa sensação de vida que corre independente do limite de tempo/espaço que a cerca. É uma vida que mora entre mim e ele. Não é a minha vida, nem é a vida dele. É como se uma vida, uma vida entre, passasse a existir num elo entre nós. Esse elo modifica minha estrutura e a dele, certamente.

Em mim, sinto os turbilhões de sentimentos diante de quase tudo aquilo que já é e já está. Provoca em mim sensação de mudança que me escapa só de tocar no assunto. É confuso, eu sei. E a tentativa de tentar explicar já me é um desastre. Mas, por que falo disso então? Posso tentar tocar essa instância falando de um sopro de ar trocado de boca a boca, de umbigo a umbigo, de pele a pele. É um sopro mesmo, por isso não dá para falar mais racionalmente.

Lembro-me de quando meu avô esteve internado no hospital, não lembro o que o levou para lá, mas lembro da visita que fiz a ele. Quando eu cheguei bem perto do seu rosto envelhecido e suave, ele abriu os olhos, sorriu, e soprou no meu rosto o seu ar.  Eu senti e engoli. Um sopro de vida. Um sopro que desenhou, naquele momento, uma continuação de vidas. Eu senti que eu e ele éramos nós. Separados, mas nós, num elo de ar. De uma forma abstrata e escapável, eu vi quase tudo que veio antes do meu avô, o que veio entre ele e mim, e vislumbrei a nossa continuação.

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Como se todas as vidas dessa constelação familiar pudessem ser vistas num instante rápido de ar, e que depois, nesse mesmo ar, se diluíssem, e ficassem somente as vidas que ali estavam: o vô e a neta. Com o filho, essa sensação estranha se repete mais vezes no tempo ordinário, uma invasão do imponderável, se você estiver atenta à recepção dessa matéria. É puro afeto e mesma carne. 

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