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Agora e somente agora meu filho está assim

O bebê muda tanto que essa é sua condição de existência, dá para encarar?

 

Agora meu filho come. É, tem que relaxar mesmo com o tempo e com os desvios, se é que assim podem ser chamados os gostos do seu filho. Todo mundo diz tanta coisa a respeito de quando se começa a virar, quando se come, quando se cresce, quando se engatinha, quando se anda, quando são os dentes, quando é o ouvido, quando é cólica… Uma verdadeira enciclopédia infantil com a garantia da verdade. Eu digo que é tudo mentira! E dou risada. É simplesmente um encontro entre uma mãe faminta por conforto com uns profissionais aí cheios de interesse em lhe dar o tal. Bons são aqueles que te dizem para ficar calma e observar com atenção o seu filho. E não fazer nada, enquanto ele está bem, ativo, feliz e desperto – tá tudo certo!

Nossa, como a gente quer resposta. Depois a gente reclama dos tantos empregos, dos tantos materiais, ambos criados para que você encontre a solução para tudo aquilo que seu filho possa precisar. Desde os dezessete tipos de copos de transição, aos nove tipos de chupetas, às quatorze tentativas para um sono garantido, às cinco formas de colocar seu bebê no berço, às dez maneiras de fazê-lo dormir, aos nove tipos de papinhas para ele desejar comer…. E por aí seguem as milhares de necessidades artificiais criadas para pais desesperados e ausentes de si. E caímos nessa, viu? Porque ter um filho é território do não sei, não conheço e não entendo. É um escapei de mim. No início então… vixe! 

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Depois que você vai caindo em si por tamanho cansaço e total noção de que você não vai dar conta de ser a mãe e a mulher ideal, aí sim dá até uma raiva daqueles que você encontrou no caminho e de tantas asneiras que você acumulou de lá para cá. Eita diacho! O que precisa mesmo é viver essa experiência que é só tua, e de um pouco de tranquilidade. E de presença de espírito para viver o seu filho, sentir como ele e ter paciência para conhecê-lo. Quando você acha que agora entendeu ele muda de cor.

Assim mesmo, do roxo vira amarelo. E você que já tinha todo tipo de artefato para lidar com o roxo e estava toda feliz por ter encontrado a solução para tudo! Ô besta! Enquanto isso os deuses, todos eles mesmo, riem alto de você que dá até para ouvir dentro do ouvido. Eu disfarço quando escuto a risada e rio mais alto para manter alguma compostura. Ser mãe é o ato mais humilhante, humilde, solto, desapegado e cru que alguém pode experimentar. Sabe quando você brincava de esconde esconde? Então, agora imagina que não tem nenhum esconderijo possível, tá tudo a céu aberto! E tem sol e chuva quase ao mesmo tempo! Além do que, não dá para esperar nada em troca, não dá para encontrar nenhuma, mas nenhuma mesmo, solução para o conforto. Mas também, e se não fosse assim não seríamos tão tão loucas de engravidar e botar mais gente nesse mundo, é a experiência mais nova, diferente, amorosa, raivosa, entusiasmante, desestruturante… É tudo tanto todo de si que não sei como escrever sobre, fico burra. Eu teria que cochichar em seu ouvido que me lê de forma gritada e bem baixinho numa língua desconhecida, mas você entenderia, tenho certeza! Porque eu falaria com uma musculatura da fala que vem lá do assoalho pélvico, passa pelo tubo da barriga, sobe mesmo por dentro do peito coração pulmão e encontra uma boca para salivar essa história. Meu filho quando grita abre tudo em expressão. É lindo! E a gente o imita sem escolha. Teria que ser assim para dar conta de alguma possibilidade desse amor. Quanta saúde! Que importa saber das coisas?

 

Tatiana Schunck é atriz-dramaturga, mãe de menino, madrasta de moça. Mulher, desesperada e pessoa difícil. Vive na profundidade, gosta de gente estranha, faz lista de irritações e não acha tudo normal.

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