Colunistas

O dia dele

A colunista Nanna Pretto venceu o cansaço dos dois meses pós-parto, e tirou um dia inteiro para fazer programas de filho mais velho

Eu sempre cedi muito do meu tempo para Gabriel. Tanto que, do meu livro (101 Coisas Que Você Precisa Fazer Com Seus Filhos Antes que Eles Cresçam), já completamos boa parte do check list. Me orgulho em ter o sábado dedicado a ele, de criarmos, do nada, brincadeiras sensacionais e de sermos cúmplices em muitas atividades do nosso dia. Mas, há 60 dias, as coisas não estão sendo bem assim. A demanda do recém-nascido Rafael pela mãe (totalmente normal) me afastou do meu mais velho. Ele foi me deixando de canto (“prefiro o papai”, “eu vou com o papai”) e eu, de certa forma, agradecendo por isso. No último fim de semana a coisa mudou – ou parece ter começado a entrar nos eixos, salvo os devidos ajustes. Eu venci o cansaço, planejei um dia só com eles e passei 12 horas fora de casa, dedicadas exclusivamente ao meu garotão.

Para estar numa pré-estreia em São Paulo às 10 da manhã o meu dia começou às 6h. Alimentar o mais novo, trocar fralda, por para arrotar, limpar cocô, trocar fralda de novo, dar um banho, colocar uma roupinha. Deixar no berço um pouquinho. Acordar o mais velho, dar o leite, colocar no banho, escolher a roupa. Convencê-lo a comer algo antes de sair de casa. Colocá-lo para ver um desenho. Entrar no banho, tomar uma chuveirada rápida. Escolher uma das poucas roupas que me servem, engolir um café. Checar as roupas e bolsas preparadas na noite anterior (ahaáá, ponto pra mim!).

Pegar o mais novo no berço e dar mais um leitinho, só pra garantir. E, enfim, sair de casa. Foram mais de duas horas nesse processo. Ufa!

Anúncio

FECHAR

No cinema o mais novo se comportou absolutamente bem, dormindo no canguru lindinho demais. Enquanto o mais velho via a quinta temporada do Detetive do Prédio Azul, série que ele ama de paixão. Com direito a pipoca e guloseimas, num cinema reservado para poucas crianças.

Teve ainda pausa para fotos, voltinha para vermos artigos de futebol no shopping (ele agora é goleiro), banheiro pra um, fraldário pra outro. Passava do meio-dia quando saímos do nosso primeiro programa!

E lá fomos nós rumo a Alphaville, onde a titia mora, e atrás da Exploração do Doki, que meu mais velho pede há dias para conhecer. Eu sei, dois shoppings em pleno sabadão, com um recém-nascido à tiracolo, é demais. Também acho. Mas na semana tem escola, tem trânsito surreal, e não tem visita à casa da minha irmã, que eu já estava roxa de saudades! Então preferi arriscar!

Uma parada na casa da tia, mais leite pra um, uma comidinha pro outro, um xixi pra mãe, alguns presentes pros meninos e simbora pra mais um shopping. Roda pra achar vaga, espera pra conseguir espaço no elevador, articula mesa no restaurante de forma que o carrinho de bebê caiba. E sentamos, a pedido do meu mais velho, no restaurante japonês para comermos minhoquinhas (shimeji) com guioza.

Após mais de duas horas de espera conseguimos entrar no universo do Doki. Volta ao mundo com personagens, carro da Peppa Pig, quebra-cabeça do Meu Amigãozão. Os olhos do meu filho brilhavam. Ele venceu a vergonha que há quase seis anos o acompanha e tirou uma foto com o seu personagem favorito (ele tem pânico, mesmo sabendo que é um humano dentro da fantasia).

Passava das oito da noite quando arrumei os dois no carro e, enfim, começamos a volta para casa. “Mamãe, meu dia hoje foi sensacional! Obrigada!” Eu chorei. Me emocionei como agora, ao lembrar dele todo homenzinho me falando isso, sentadinho no banco do carro. “Pena que o papai não veio, né filho?”, eu tentei encerrar o assunto ou falar algo pra esconder meu choro. “Eu estou saindo muito com ele, mamãe, porque agora você precisa cuidar do meu irmão. Mas eu gosto muito dos nossos programas. Só a gente.”

Essa frase foi contemplativa, sem cobrança, enquanto saíamos do estacionamento do shopping, meio que lembrando de algo que há tempos não acontecia. Realmente, passaram-se oito finais de semana que eu fiquei praticamente trancafiada em casa, dedicando a minha atenção ao irmão mais novo de Gabriel. E ele sentiu, sim, saudade dos nossos momentos a sós, mas nunca me cobrou nada. Hoje, ao me falar essa frase, o tom não foi de cobrança, e sim de saudade. Saudade de um tempo que éramos três e que meus finais de semana eram dedicados a ele. Talvez agora, para meu menino grande, tenha caído a ficha de que não estamos mais a sós. 

O papel desse delicioso sábado foi justamente mostrar pra Gabriel que a chegada do irmão não mudará a nossa relação. Continuarei dedicando a minha vida a eles. Talvez algumas prioridades mudem, mas eu nunca, nunca vou fazer mais por um do que por outro.

Rafael se comportou lindamente, como se entendesse que aqueles momentos eram meu e de Gabriel. Passou o dia no carrinho, entre um chorinho e outro, uma mamada e outra e muitos afagos do irmão mais velho. Como se soubesse que, após monopolizar o colo da mãe por dois meses, estava na hora de dividir. Porque é assim que vai ser para o resto da vida: irmãos que compartilham tudo, mas que juntos cabem perfeitamente no colo e no coração dessa mãe!

Pais&Filhos TV