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Vacinar: um ato de amor comprovado

Para a médica infectologista Ivelise Giarolla defende a imunização das crianças contra doenças. Entenda os motivos

A Campanha de vacinação contra a gripe se inicia no Brasil no mês de maio. Como sabem, sou médica infectologista, mãe da Lorena que tem Síndrome de Down. Quando ela nasceu, por ela ter a síndrome, fui me informar se poderia fazer todas as vacinas do calendário. Após estudar e conversar com outros médicos constatei que o medo da vacina era em vão, ou seja, ela somente iria se beneficiar.

O CDC (Center for Disease Control and Prevention), órgão máximo da saúde pública dos Estados Unidos, publicou uma lista das dez maiores conquistas do país no campo da saúde pública entre 1900 e 1999. Em primeiro lugar estavam as imunizações. E, no entanto, infelizmente, ainda há grupos de pessoas que enchem a mídia, em particular a eletrônica, de informações negativas sobre as vacinas e levantam a bandeira contra seu uso.

Qual é a origem dessas informações dos grupos anti-vacinas?

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  • Recusa de vacinas devidas informações equivocadas e erros científicos que a mesma pode causar autismo e esclerose múltipla;
  • Questões religiosas e filosóficas;
  • Pelo simples desconhecimento dos dados abundantemente fornecidos por fontes científicas sérias.

Histórico:

Um ex-médico inglês Andrew Wakefield foi uma figura central nessa narrativa anti-vacina. Em 1998, ele publicou um estudo que comprovaria a ligação da vacina tríplice (que protege contra caxumba, sarampo e rubéola) com o autismo. Após investigar 12 crianças com autismo, chegou à conclusão de que em oito desses casos os sintomas do autismo começaram a aparecer pelo menos duas semanas depois da vacinação. De acordo com o médico, o sistema imunológico de algumas crianças não estaria preparado para lidar com as três vacinas ao mesmo tempo, o que inflamaria seu intestino e levaria toxinas até o cérebro, causando o autismo. O estudo ganhou repercussão na mídia e chamou atenção dos cientistas.

Nos anos seguintes, pelo menos 12 grupos independentes de pesquisadores tentaram repetir o teste, mas não encontraram o mesmo resultado. Analisando o histórico médico das crianças, chegou-se à conclusão de que cinco delas já tinham autismo antes da vacina e três nem mesmo eram autistas. Wakefield sabia disso e falsificou os dados ao dizer que, em todos os casos, a regressão se deu após a vacinação. Uma investigação mostrou que Wakefield tinha recebido quase US$ 700 mil de advogados, das famílias das crianças estudadas, que pretendiam processar a indústria farmacêutica por “danos causados pela vacina”. Em 2010, o jornal científico “The Lancet”, que publicou o estudo originalmente, se retratou e o retirou de seu site. Um estudo publicado no British Medical Journal concluiu que o trabalho de Wakefield era uma fraude elaborada e que a intenção do médico era lucrar com novos testes e tratamentos para o autismo.

Depois de 12 anos, a pesquisa de Wakefield foi completamente desacreditada, mas o estrago já estava feito. As conclusões do estudo do ex médico acabaram chegando ao ouvido de pais e mães os quais, assustados, passaram a desconfiar de qualquer vacina.

Atualmente, nos Estados Unidos, pelo menos 1% das crianças não recebem nenhum tipo de vacina, e 40% não seguem o cronograma correto de vacinação por causa do receio em torno desta questão. Em 2010, pelo menos 5,5 mil pessoas contraíram coqueluche na Califórnia, no maior surto da doença desde 1950.

Desde o ano 2000 o sarampo é considerado uma doença erradicada nos Estados Unidos. O país registra cerca de 60 casos por ano, normalmente vinculados a viagens ao exterior. Em 2014 essa cifra cresceu muito, o ano com mais casos registrados no país: 644 em 27 Estados, segundo dados provisórios do CDC, o que representa o surto mais grave da doença em 15 anos. O Departamento de Saúde Pública da Califórnia relatou 120 casos confirmados de sarampo entre os residentes no Estado desde o final de dezembro, a maioria ligada a uma exposição inicial na Disneylândia ou no adjacente Disney California Adventure Park.

Autismo versus timerosal

Uma das teses utilizadas pelo movimento anti-vacina é que há uma correlação levantada entre vacina e autismo e o uso de timerosal (composto de mercúrio) utilizado para conservação das vacinas. Estudos realizados nos Estados Unidos a pedido do Food and Drug Administration (FDA) verificaram que o composto mercurial que, em altas doses, pode ser neurotóxico é o metilmercúrio, ao passo que o timerosal contém etilmercúrio, para o qual não existem evidências de dano cerebral. Estudos com grandes casuísticas mostraram risco semelhante de autismo entre crianças que receberam vacinas com ou sem timerosal. Em 2004, uma ampla revisão do “Instituto de Medicina dos Estados Unidos” concluiu a não existência de qualquer possível vínculo causal entre essas vacinas e autismo.

Alumínio versus neurotoxicidade

Outra polêmica levantada pelos ativistas anti-vacinas, é a utilização do alumínio, um adjuvante usado para potencializar o efeito imunológico, o qual é correlacionado erroneamente por causar neurotoxicidade e poder ser um fator que contribui para o aumento de ASD (desordens do espectro autista).

Sabe-se que a segurança em usar o alumínio já vem sendo provada há anos, em milhões de pessoas, e raríssimos efeitos colaterais.

Além disso, as crianças não têm contato com alumínio só nas vacinas. Ele é abundante no ambiente (no ar, na comida, na água). Por exemplo, o leite materno contém, em média, 0,38 miligramas de alumínio por litro. As fórmulas infantis contêm, em média, 0,225 miligramas de alumínio por litro. Enquanto os bebês recebem em torno de 4.4 miligramas de alumínio, nos primeiros seis meses de vida, através das vacinas, eles ingerem mais do que isso na dieta, pois bebês que mamam no peito recebem, em média, 7 miligramas, e bebês que tomam fórmula ingerem 38 miligramas. Finalizando as contas: mamar no peito ou fórmula tem mais alumínio que a quantidade do alumínio contido nas vacinas no mesmo período.

 

Tomar mais de uma vacina ao mesmo tempo sobrecarrega o sistema imunológico?

De acordo com pediatra Paul Offit, professor da Universidade da Filadélfia, o sistema imunológico da criança consegue lidar com a quantia de organismos injetados durante o calendário de vacinação. “Quando uma vacina é incluída no calendário de vacinação, uma série de estudos é feita para garantir que ela não trará prejuízos à saúde da criança.” Segundo o especialista, há centenas de estudos que atestam que as vacinas podem ser dadas juntas e de maneira segura.

 

A vacina pode ser substituída por bons hábitos de vida?

Não. Segundo Dr José Cassio de Moraes, professor da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e membro do Comitê Técnico Assessor de Imunização do Ministério da Saúde, uma criança saudável está mais segura contra agentes externos e tem mais chances de se recuperar ou de não desenvolver a doença. Mas isso não significa que ela está protegida para determinada doença se não estiver vacinada para tal.

Debates calorosos a parte, cabe aos médicos informação correta dos eventos adversos da vacinação. Sabe-se que qualquer medicação, até mesmo uma dipirona, pode ocasionar um efeito colateral grave e matar. Todavia, a segurança das vacinas já é estudada e comprovada, bem como não há relação das vacinas e o surgimento de autismo. Há dezenas de trabalhos publicados na literatura científica comprovando essa não correlação.

“Os riscos de a criança desenvolver uma complicação séria em função da vacina são muito menores do que os de ela contrair a doença. Não há nem comparação. E isso não é algo que eu acho ou acredito, é um fato comprovado cientificamente”, diz o pediatra americano Paul Offit, um dos maiores especialistas no assunto. Além de professor da Universidade da Filadélfia, é ex-membro CDC e autor dos livros Deadly Choices: How the Anti-Vaccine Movement Threatens Us All (Escolhas mortais: como o movimento anti-vacina ameaça a todos nós, sem edição em português) e Autism’s False Prophets: Bad Science, Risky Medicine, and the Search for a Cure(Falsos profetas do autismo: ciência ruim, medicina de risco e a procura pela cura, também sem edição em português).

 Vacinar seu filho é um ato de amor. Movimentos anti-vacinas são considerados pelos pesquisadores sérios como um desserviço para a humanidade. Eu, como médica infectologista, não desejo ninguém a perda de um filho ou seqüelas graves por uma doença prevenível pela vacina, como já presenciei por diversas vezes em 15 anos de trabalho.

Confira o calendário vacinal brasileiro:

Para saber mais, segue link do livro “Recusa das vacinas: causas e consequências” , Dr Guido Levi

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