Colunistas

A culpa é de quem?

A sociedade insiste em achar que a criança com Síndrome de Down precisa viver em uma bolha

Uma época difícil para uma mãe é o término da licença maternidade. Para umas seis para outras quatro meses, não importa, o corte desse cordão umbilical é dolorido demais. Conquistamos com o decorrer dos anos muitas coisas que nossas avós não tinham e com essa bagagem veio o direito de trabalhar de igual para igual com o homem da casa, antigamente o único provedor da renda familiar. Porém, nosso direito de trabalhar não nos isentou de cuidar da casa e da família, ou seja, agregamos ainda mais trabalho. E pela prática adquirida ao longo dos séculos não adianta: os filhos sempre clamam pela mãe. E voltar a trabalhar é um sacrifício mental e físico.

Eu sou médica infectologista e trabalho em três hospitais. Tenho uma rotina corrida entre lidar com a profissão e cuidar das crianças dentro de casa e nos “leva e traz” da vida. Quando soube que minha pequena Lorena teria Síndrome de Down, no quarto mês de gestação, entrei em pânico, pois sabia que ela me demandaria mais tempo e atenção, tempo esse que não teria tão facilmente. Mas, como diz o ditado “Deus dá o cobertor conforme o frio” tentei conter minha ansiedade e deixar a vida me dar as respostas no tempo certo. Confesso que já chorei algumas vezes por ter que trabalhar e deixar a pequena com outras pessoas. Confesso que por vezes me sinto culpada quando vejo uma alguma mãe de filho com Down abdicando de sua vida profissional para ficar com o filho em tempo integral e eu não. Por que eu não? Porque não posso. As terapias são caras, a escola é cara, tudo é caro. Então por que a culpa? Porque a sociedade insiste em achar que a criança com Síndrome de Down precisa viver em uma bolha, dentro de casa e sobre o olhar dos pais em tempo integral.

Com o tempo e após ler muito, conclui que minha filha deve ser tratada como uma criança comum e é assim que tenho vivido meus dias. Ela faz fisioterapia e fonoaudiologia e eu tenho me desdobrado em duas para trabalhar e levá-la nas terapias. Apesar da correria maluca me dedico ao máximo às meninas no meu tempo livre, ou seja, fora do trabalho sou mãe em tempo integral.

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Já conversei com várias mães de crianças com deficiências que trabalham fora e não se sentem culpadas por isso e tento me espelhar nelas. Sei que faço meu melhor pelas minhas filhas e Lorena terá um ótimo desenvolvimento, como já tem demonstrado dia a dia. 

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