Colunistas

Ideia iluminada

A colunista Ligia Pacheco reflete sobre como muitas crianças, de tanto terem tudo, não apreciam nada

Conheci Valéria Tavares através de Juliana Caetano, com quem participei de um projeto europeu que reuniu blogueiros que tratavam da relação entre pais e filhos, culminando no livro (Ins)Pirações Familiares.

Mas venho falar da ideia iluminada de Valéria, com a qual concordo e creio poder ser útil a várias famílias. Comecemos do começo.

Valéria morava em Londres, onde nasceu a pequena Bel. Conta como a vida era mais fácil, fez uma boa rede de relações com mães que trocavam dicas, conselhos, roupas e brinquedos. Quase tudo que comprava era usado, pois os objetos que não tinham mais utilidade eram rapidamente passados adiante para vizinhos, amigos ou lojas vinculadas a ONGs. Ou seja, viviam uma vida mais em comunidade, onde a pequena Bel ia aprendendo a compartilhar o que tinha, além de tantos outros valores.

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Em férias no Brasil, Valeria descobriu que tinha um câncer. E, sem planejamento de mudança, a família resolveu ficar por aqui para fazer o tratamento. Relatou-me que ficaram bem assustados com a sociedade competitiva, com os preços surreais das roupas e brinquedos infantis e ainda assim notaram um consumismo exacerbado. “Crianças que de tanto terem tudo não apreciavam nada. Uma cultura do “é meu” que não dava espaço para uma visão coletiva. Pensamos: não é assim que queremos criar nossa filha”, desabafou. 

Tal reflexão coincidiu com o aniversário de Bel. Haviam trazido da Inglaterra dois brinquedos para esse momento, e acreditaram que eles fariam o maior sucesso. Mas Bel não se sentiu atraída por nenhum deles, achando muito mais graça nas embalagens dos mesmos.

Os brinquedos viraram decoração e a reflexão de Valéria diante do ocorrido fez com que a lâmpada acendesse. Nasceu assim o Baú Verde, cuja proposta é alugar brinquedos para crianças na faixa etária de 0 a 4 anos. Brinquedos do dia-a-dia, que são importantes ao seu desenvolvimento, mas que são muito caros, nem sempre valorizados ou logo são ignorados. Tal proposta tem como meta oferecer uma alternativa ao consumo desenfreado, além de ensinar às crianças que o mais importante não é ter o brinquedo, mas sim ter a brincadeira que ele proporciona. Além disso, não ser o dono do brinquedo favorece às crianças aprendizagens importantíssimas como o cuidar, o saber usar, o compartilhar e o desapego.

Segundo Valéria, “o Baú Verde é nossa contribuição para aqueles pais que, como nós, querem dar diferentes estímulos para os filhos de uma forma mais consciente e sustentável. Acreditamos que o consumo compartilhado é muito mais do que um novo modelo de serviço. É uma nova atitude. Brincar com a gente é uma maneira eficiente de utilizar os recursos da família e do planeta.”

Acesse o site dessa ideia iluminada, veja mais detalhes e como funciona. (www.bauverde.com.br)

Parabéns, Valéria!

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