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De quem é a culpa, afinal?

Se os filhos crescem dentro da “normalidade”, os pais são perfeitos. Mas, e quando isso não acontece?!

eat food

(Foto: Shutterstock)

Pegar o peito para mamar logo depois do parto, falar o mais cedo possível, andar depois de engatinhar, emprestar os brinquedos, dormir sem chorar…

Sempre achei que a lista que definia o fato dos meus filhos serem ou não “normais” se esgotava nos itens da primeira infância. Mas hoje, mãe de adolescentes, vejo que ela prossegue crescendo de forma exponencial. Parece que nunca vai ter fim…

Gostar de esportes, ler muito, tirar boas notas, ser sociável, passar de ano, comer de tudo, passar no vestibular, ser inteligente, viajado…

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Ufa, não aguento mais tanta cobrança. Nem meus filhos. Confesso que eles nunca foram “normais”, nunca responderam exatamente do modo que se espera que as crianças respondam. E não é isso que define “ser normal”? Se os filhos respondem positivamente ao que se espera deles, são crianças naturalmente normais. E nós pais, naturalmente perfeitos.

Filhos normais = pais perfeitos.

Mas acontece que uma não gostava de brincar na areia e puxava o cabelo dos amigos. Não tinha nem um ano. Aos dois, parou de comer. Nunca gostou muito, mas resolveu dar um tempo da comida. O outro sorria o dia todo, mas chorava a noite inteira. Queria mamar sem parar, não dormia direito. Fizeram de tudo: se jogaram no chão fazendo birra, se esconderam entre as pernas da mãe para não cumprimentar os outros, comeram meleca de nariz (era terrível!)… Agora, uma termina a escola e não quer nem saber da faculdade. Não sabe quem é. O outro não larga do videogame, não quer arriscar a ser quem é…

Tudo isso causa angústia, é claro. Vez ou outra meu marido e eu refletimos: onde será que erramos?!

Pior do que a angústia são as críticas. Depois de certo tempo, nós paramos de nos importar com os comentários das avós e das tias. Você vai ver, isso acaba mesmo acontecendo. A gente para de ligar também para os receituários. Eles estão em todos os lados: na boca dos médicos, nas revistas do cabelereiro, no programa matinal da TV. É incrível, todos eles parecem saber exatamente como educar meus filhos! Santa ignorância minha!

Outro dia tive que ouvir de uma amiga: sua filha está muito magra, tem algum problema! Fiquei chateada. Até mesmo ela?! Por que ao invés de criticar e achar algo de errado, ela não elogiou?! Minha filha está linda. O corpo de mulher florescendo em sua totalidade. Tem o biotipo da sogra. É alta, magra e loira. A pele está lisinha, sem espinhas. Tem saúde, nunca fica nem gripada. Estuda, vai bem na escola, tem namorado. Fala inglês e espanhol; toca violão e piano. Adora ler, curte um bom filme. Quer mais do que isso?!

Tive que engolir mais essa. Minha filha não é normal, é magra. Recusei o convite da tal amiga para jantar e mais outro para irmos juntas ao shopping. Dei um tempo. Resolvi ler. Na pilha de livros esperando por mim tinha um sobre alimentação infantil. Comprei em uma feira de livros. Conheci a autora que estava por lá autografando.

Comecei a ler de forma distraída, não tinha certeza se o assunto ainda me interessava. Minha filha é magra, mas come. Não comia, mas hoje come.

O livro porém começou a me fisgar…

“Normal para a sociedade é a mãe idealizada com filhos perfeitos (…) com seu olhar preconceituoso, ela (sociedade) julga e condena quando algo foge do normal”.

Que pratico, não é? Mais fácil mesmo culpar a mãe, pois o fracasso da educação dos filhos ainda recai mais sobre nós, mulheres. Nesse jogo de culpas, todos parecem estar envolvidos: a escola, os médicos, os avós, os pais e até mesmo minha melhor amiga! Como escapar?!

A culpa e “o futuro atemorizam as mães que, com suas mentes atormentadas, sem foco, perdem o maior presente que é a conexão com seus filhos” aqui e agora.

“Aqui e agora” fui eu quem acrescentou, pois o livro trata de educação alimentar. A autora fala da conexão com os filhos no momento de alimentá-los. Mas eu interpretei e fui além: em todos os momentos que nutrimos seus corpos e suas almas, ajudando-os a se desenvolver e a crescer.

Como o livro está bem escrito! O texto é elegante, não sai gritando ordens. Li e não me senti culpada. Pelo contrário. Fiquei espantada com alguns dados que a autora fornece: as dificuldades alimentares podem estar associadas a pelo menos 200 tipos de diagnósticos, que vão dos problemas gastroesofágicos a dificuldades sensoriais. Quê, 200 tipos? É muito! E ela também comenta que muitas das pesquisas que relacionam esses diagnósticos ao sintoma “dificuldades para comer” estão longe dos consultórios pediátricos…

Talvez por isso tenha sido difícil convencer o pediatra da minha filha, há mais de quinze anos, que a recusa dela para experimentar novos alimentos e se restringir a meia dúzia deles era um problema. Ela não só crescia sem parar como nunca ficava doente. Para ele, não tinha problema algum…

Em casa, porém, choviam críticas e tínhamos sempre que ficar com aquele sorrisinho amarelo nos lábios: “filha, se você não quer provar o brigadeiro, não precisa sair correndo, é só dizer “não, obrigada´”. Mas ela sabia que o “não obrigada” não seria suficiente para convencer os outros que não tinha nada de errado com ela. E assim fomos indo, com uma filha “anormal” sendo criada por pais imperfeitos que não conseguiam nem ensinar ela a comer direito…

Mas voltemos ao livro. Durante a leitura, fiquei surpreendida com as informações que a autora traz sobre os distúrbios sensoriais. Nunca tinha ouvido falar. Tem todo um capítulo para explicar o que é isso e como já existem registros sobre as reações das crianças: a areia da praia que incomoda, a aflição das mãos sujas, a perturbação na passagem da vigília para o sono e, é claro, o mal estar que o sabor dos alimentos pode provocar.

Quis saber mais e foi aí que me dei conta de que fazia algum tempo que não lia um livro sobre o desenvolvimento infantil tão generoso. Não há preocupação por parte da autora de dizer o que deve ser feito, apenas em compartilhar as pesquisas mais recentes para que possamos buscar a ajuda correta. Ou pelo menos a melhor ajuda. E como está bem escrito!

É tarde agora para fazer diagnósticos sobre o aprendizado alimentar dos meus filhos. Mas é sempre reconfortante para uma mãe saber que as teorias que tentam explicar os nossos filhos estão constantemente mudando e que nem sempre os profissionais da área de saúde e de educação estão devidamente inteirados. Quer dizer, o problema pode ser outro que não exatamente aquele que parece que ninguém consegue resolver… E de quem é a culpa?

No capítulo 11, a autora fala sobre quebrar tabus e dividir responsabilidades. Fala da mãe (ou dos pais) estar no controle – ou pretender estar – e as dificuldades que surgem no relacionamento em razão desse protagonismo. Sugere que façamos uma divisão das responsabilidades e que deleguemos aos filhos a sua parte. Está falando da alimentação, mas estendo para o resto da vida deles…
Obrigada Patricia Junqueira por compartilhar neste livro uma reflexão tão positiva sobre a arte de criar filhos.

Fica aqui a dica; “Por que meu filho não quer comer?”, de Patricia Junqueira, publicado pela Idea Editora.

P.S. No mundo perfeito, blogueiras não escrevem muito. Mas sou imperfeita e se você leu este post até o final também deve ser. Não dá para falar do impacto que um livro pode provocar na gente sem, pelo menos, explicar um pouquinho mais.

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