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Quantas estrelas tinha a sua camisa?

Paulo Vinícius Coelho fala sobre Copas que não ganhamos, mas também inesquecíveis por suas emoções

Redação Pais&Filhos

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 A camisa era linda. Amarela com um raminho de café do lado direito do peito, símbolo do Instituto Brasileiro do Café, patrocinador da CBF naquele tempo. Na manga esquerda, o emblema da Topper e na frente o logotipo com a taça Jules Rimet. Era assim a camisa da seleção brasileira para a Copa do Mundo da Espanha, em 1982, vendida com exclusividade nas agências da Caderneta de Poupança Continental.

Comprei e voltei para casa feliz. Quando meu pai chegou, à noite, disse a ele: “Pena que só vai ser oficial até julho. Depois disso, o emblema terá quatro estrelinhas, em referência ao tetracampeonato”.

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Isso aconteceu em 1982, a segunda Copa de minha existência, mas até hoje o Mundial da minha vida. Aquela seleção era mesmo especial e eu a vi nascer. Zico, Sócrates, Cerezo, Falcão, o primeiro convocado para uma Copa vindo de um clube da Europa – jogava na Roma.

No final de 2005, 23 anos daquela compra inesquecível, entrei em uma loja outra vez, agora para comprar a camisa nova da seleção para a Copa de 2006. O logotipo da Nike do lado direito nunca agrada aos adultos, mas o cheiro de camiseta nova e a certeza de ela ser igual à dos craques toca em cheio o coração de qualquer garoto torcedor.

Meu João Pedro não era diferente. Pegou a camisa nas mãos com os olhos brilhando, mirou-me firme e soltou a frase mais certa a dizer naquele momento: ‘Pena, pai, que só vai ser oficial até julho. Depois, a camisa vai ter seis estrelas, por causa do hexa!’

Nem a minha primeira Copa foi a de 1982 nem a do João foi a de 2006. Mas foram as marcantes. O João nasceu em dezembro de 1999 e tinha acabado de completar 2 anos quando o Mundial da Ásia começou, em maio de 2002. Na Olimpíada de Sydney, em 2000, eu acordava cedo para ver os jogos de futebol da seleção e, no final do primeiro tempo, o João chorava para levantar. Parecia adivinhar o horário em que ia se iniciar a segunda etapa. Em 2002, eu acompanhei a Copa aqui do Brasil. Assistia aos jogos de madrugada e em boa parte deles carregava meu pequeno no colo – ele também queria ver…

Eu nasci em agosto de 1969, tinha 10 meses quando o Brasil ganhou o tri, e meu pai conta ter me levado no colo para a rua para festejar a vitória sobre o Uruguai, na semifinal. Quatro anos mais tarde, eu ainda não tinha consciência para ver o fiasco da Copa da Alemanha, mas lembro de tudo da Copa da Argentina, em 1978. Do empate contra a Suécia na estreia e do gol que o juiz ladrão, digo galês, Clive Thomas anulou do Zico no último instante – ele encerrou a partida com a bola no ar depois da cobrança de escanteio do Nelinho. Lembro também do gol do Roberto Dinamite que evitou o vexame da eliminação na primeira fase, contra a Áustria, e da Argentina metendo 6 x 0 no Peru – vergonha internacional que fez o técnico Cláudio Coutinho afirmar que o Brasil era campeão moral.

Em 1982, vi tudo melhor, com compreensão total do time espetacular que lutava pelo tetra, com direito a colecionar álbum de figurinhas e gritar gol em altos brados. A gente faltava na escola, grudava na TV cedinho, via os jogos da Itália que jogava mais cedo, no mesmo dia. Foi assim contra a União Soviética, a Escócia, a Nova Zelândia. Só não foi quando a Itália nos pegou de jeito, no quinto jogo da Copa.

Foi o mesmo número de jogos em 2006, o Mundial que o João Pedro, meu filho, viu com todo o capricho. Ele se lembra bem do Zidane em 2006. “O Henry fez gol, o Roberto Carlos arrumou o meião, o Zidane deu a cabeçada no Materazzi e fez gol de pênalti na final”, lembra meu pequenino… Ele nunca vai esquecer. Nem eu.