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Mães cansadas e (quase) sem culpa

Autora do livro Vida de Equilibrista responde principais dúvidas de pais sobre cansaço e dupla jornada

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Depois de uma longa e exaustiva semana dividida entre trabalho no escritório e trabalho em casa – que às vezes cansa bem mais – você se sente exausta e sem qualquer pique para brincar com os filhos e só te sobra ânimo para ligar o dvd, deixar eles assistindo e….se jogar no sofá. Lá se foram apenas alguns minutinhos de descanso e a culpa dá as caras.

Pois bem diz o ditado que assim que nasce a mãe nasce a culpa. Afinal, mesmo sabendo que você merece sim um descanso, não é capaz de parar de pensar que poderia estar com os filhos no quintal de casa ou em um parque e não na frente da tv. A novidade é que mãe também é gente! E se os homens merecem o futebol aos sábados de tarde, as mulheres merecem um happy hour com as amigas sem culpa e sem crianças. E parece exagero, mas não é. A culpa pelo cansaço aflige muitas mães. Por isso, nesta quarta-feira recebemos a psicóloga Cecília Russo Troiano na redação da Pais & Filhos para conversar com as mães da campanha Culpa, Não e também para tirar dúvidas e aconselhar algumas mães e pais que cortam um dobrado para lidar com essa culpa. Veja quais as maiores angústias desses pais e os conselhos e instruções da autora do livro Vida de Equilibrista.

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Denise Bobadilha: Eu tenho uma pergunta: as crianças percebem nossa culpa (meus filhos têm 5 e 8 anos)? Notam que a gente fica moído de cansaço e mais moído ainda ao dizer ‘agora não, a mamãe precisa descansar um pouco’? Ou isso é meio natural pra eles?

Cecília: Acho que eles podem perceber que existe alguma coisa acontecendo, não necessariamente interpretado por eles como “culpa”. A culpa, na maior parte das vezes, está mais na cabeça das mães que dos filhos. E não há mal nenhum em dizer para os filhos, em algum momento, que estamos cansados.

Flavia Fiorillo: Mãe acha que só ela sabe cuidar do filho do jeitinho que tem que ser e não consegue delegar, para o companheiro, por exemplo, um banho ou uma refeição. Como aprender a pedir ajuda quando necessário para não morrer de cansaço?

Cecília: Flávia, isso é muito verdadeiro! Muitas reclamam que maridos não colaboram, mas, tão pouco, abrem espaço para que eles contribuam do seu jeito. Temos que abrir mão de acharmos que só o nosso jeito é o certo e acreditar que pais também amam os filhos e, mesmo que de outro jeito, farão bem as tarefas e a família toda ganha com isso!

Luciana Coppio: Meu marido não acredita que preciso descansar e ter uma pausa, acha que é desculpa, já adquiri 2 hérnias de disco, e mesmo assim, de licença médica não fui poupada, ao contrário, tive trabalho dobrado com a bebê, que tem 9 meses…ele ainda acha que devo fazer faxina, comida e tudo mais…detalhe, ele atualmente não trabalha alegando que quer cuidar da bebê enquanto não tem mais idade para a escolinha. Estamos brigando direto, penso até em me separar, pois me sinto sufocada, sem reconhecimento e sem ajuda. O que fazer?

Cecília: A chegada do bebê é sempre um momento tenso na vida familiar. Os papéis precisam ser revistos, refletidos e discutidos entre o casal e é importante que o “arranjo” a que cheguem seja satisfatório para a mãe, para o pai e para o bebê.

Maria Marta Picarelli Avancini: Qual a melhor maneira de dizer à criança que a gente não pode dar atenção a ela? Tenho um filho de 7 anos e uma filha de 6. Eu costumo explicar os motivos, mas nem sempre funciona – às vezes parecem não entender (ou não querer ouvir), partem para a contra argumentação ou mesmo para a birra. Também já tentei ser direta, mas aí eles partem para a insistência (quase enlouquecedora, às vezes).

Cecília: Paciência! É normal os filhos quererem a atenção absoluta da mãe e do pai. Nem sempre nossos comentários vão agradar e nem acho que precisamos agradar sempre. Eu diria a você que siga conversando e fazendo o que você acha melhor. E não ceda às birras!

Adriana Engelmeyer Bouzan: Sou professora, mãe, cuido de casa e ainda tenho dois cachorros… Quero sempre dar conta de tudo e ainda invento mil coisas de brincar com meu filho… Quando bate o cansaço eu falo e busco conversar com ele. Theo tem 2 anos e sempre busquei conversar muito para que entende se o que acontece comigo. Mas nem sempre ele aceita e entende. Eu estou agindo bem?

Cecília: Eu acho que sim. Brincar e conversar com os filhos é sempre bom. Com dois anos nem sempre ele vai entender, mas certamente ele vai sentir isso mesmo que não tenha o entendimento de uma criança maior.

Luis Ferrari: Quando o papai nota que a mamãe está para perder a paciência com a filhota manhosa, qual das duas ele deve tentar acalmar primeiro? Melhor mostrar pra esposa que está junto para dar um suporte ou pegar logo a nenê e tentar distrair para dar um tempo de descanso pra mami?

Cecília: Boa pergunta, Luis. Acho que pegar o bebê e dar um tempo para a mami é uma boa saída porque no fundo você acaba ajudando ambas e ainda por cima reforçando seu papel nessa relação familiar.

Carmen Novo: Sou brasileira, mãe de dois meninos (5 e 7 anos) e moro na França. Tenho observado algumas diferenças importantes na educação das crianças brasileiras e francesas. Tenho a impressão de que os pais estão se deixando dominar pelos filhos aí, enquanto os franceses são muito rigorosos na disciplina. Como a senhora observa esse “relaxamento” de valores ou “inversão de papéis” (entre pais e filhos)? Essa nova cultura permissiva estaria ligada a algum tipo de culpa? Aproveito para deixar uma sugestão de leitura. Trata-se de “S’occuper de soi et de ses enfants dans le calme” – Boudhisme pour les mères (Ocupar-se de si e dos filhos tranquilamente – Budismo para as mães), de uma mãe australiana chamada Sarah Napthali. É uma bela discussão sobre culpas, temores e novos caminhos para educar filhos sem violência.

Cecília: Obrigada pela dica, Carmen. Acho que o seu ponto é bastante verdadeiro, no Brasil e em outros países latinos creio que nos espelhamos mais na cultura americana de se relacionar com as crianças do que na europeia. Isso obviamente conduz a uma relação com os filhos mais livre, mais aberta, mas nem sempre mais adequada para o desenvolvimento da personalidade de nossos filhos. Acho que é um tema importante para se discutido dentro da família e para toda a sociedade. Acredito que limite vai muito além da família.

Camilla Scavone: Os bebês também sentem/percebem este cansaço? Tenho um baby de 1 mês e fico sozinha cuidando dele, as vezes fico muito cansada e só quero faze-lo dormir pra descansar um pouquinho, mas logo a culpa bate… Mesmo por só ter pensado nesta hipótese!

Cecília: Acho que bebê sente se ele está sendo cuidado ou não. O fato de a mãe estar cansada não quer dizer que ela não esteja cuidando. E descansar vai torna-la uma mãe melhor para cuidar desse bebê, por isso é importante descansar.

Rodolfo Francisco Ribeiro Marga: Doutora Cecilia Russo, no que um pai poderia ajudar quando se depara com essa situação de culpa que a mãe sente em relação ao sentir cansaço ao cuidar dos filhos?

Cecília: Rodolfo, legal sua preocupação. Só de conversar com a mãe, sua mulher, sobre isso certamente já é uma grande ajuda. E pelo jeito, vejo que você é um pai que divide as tarefas. Acho que esse é o melhor jeito par aliviar a sobrecarga em cima da mulher. Ou seja, conversar e dividir tarefas é a melhor receita.

Claudia Silva Flausino: Dra. Cecília, bom dia!!! Eu trabalho em dois empregos, e chego muito cansada em casa, tenha uma pequena de 1 ano e dois meses; tento ao máximo dar atenção, mas o cansaço é bem maior. O que faço para melhorar essa relação?

Cecília: Ufa! Entendo seu cansaço e não sei se no seu caso você tem a ajuda de alguém, como o pai. Se sim, dividir as tarefas é fundamental. Se não, outra coisa é não se sentir culpada caso o cansaço bata e você tenha que abrir mão de ficar com a bebê. Só de você estar perto dela, ambas saem ganhando.

Miriam Gimenes: Às vezes deixo meu filho (seis meses) com minha mãe para conseguir dormir uma noite toda, porque ele acorda duas vezes na noite e eu trabalho. Esta pausa para descanso é notada pelo bebê?

Cecília: Quando nosso filho está com outra pessoa que também o trata com carinho e afeto, como deve ser o caso da sua mãe, fique tranquila. Aproveite a noite de sono e agradeça por ter sua mãe para te ajudar, sem culpas!

Tatiana Azevedo: Oi bom dia! Sou mãe de dois filhotinhos e me sinto muito culpada de passar pouco tempo com o mais novo, Samuel, pois o mais velho Pedro tem paralisia cerebral e requer muitos cuidados. Samuel tem 5 anos mas agora sente muito ciúme do irmão. Trabalho fora e passo muito tempo longe deles minha mãe é quem cuida. Estou divorciada ha dois anos e sinto que estou no meu limite. Por favor, me ajude! O que eu faço?

Cecília: Ciúmes faz parte da vivência dos filhos, independente das condições da família. Não se culpe pelo ciúme do Samuel. Tendo sua mãe como seu braço direito, pode ser uma boa estratégia para alternarem entre os cuidados com o Pedro e a atenção para o Samuel. E, claro, dentro do que for possível, busque nem que seja alguns minutos para você.

Samantha Melo: Quando não rola vontade nenhuma de brincar com as crianças depois do trabalho, qual é a melhor atitude nessas horas? É imprescindível brincar, ou nesse caso, basta realizar o ritual de colocá-las na cama, etc?

Cecília: Nada que fazemos sem estar com pique funciona. Eles, certamente, percebem nosso desinteresse. Nesse caso, é melhor pensar em alguma alternativa que agrade a ambos. Ler na cama com os filhos é uma boa saída, relaxante e prazerosa.

Daniela Calabraro: Dra. bom dia, trabalho fora e muito mais dentro de casa estou esgotada, as vezes brigo com meu pequeno de 3 anos por culpa desse stress do dia a dia , ele sempre m pedindo pra brincar com ele mais como tenho a casa toda, roupa, comida e todas as tarefas a fazer fico cansada e acabo descontando no pequeno!

Cecília: Entendo que é cansativo mesmo, Daniela. Crianças de três anos têm uma energia intensa, mas diria que não precisa se sentir culpada. O fato de você já estar presente para ele já é um ganho. Tente envolve-lo em alguma brincadeira até mesmo te ajudando em algumas tarefas da casa.

Cristina Diniz Tângari: Bom dia! Tenho duas filhas, uma de 4 anos e meio e outra de 6 meses. A mais nova tem me exigido uma atenção especial, devido a menor idade, mas a Nina de 4 anos, todo dia me cobra uma pouco mais a atenção, dizendo que também quer brincar, quer carinho, quer tomar banho e por aí vai…eu venho tentando me disciplinar mais com horários, dividindo o tempo entre ambas, mas confesso que no final da noite, eu fico acabada…não só pela menor, mas pelos afazeres de casa. Bom, minha pergunta é: a criança está preparada ou já entende quando precisamos de um tempo pra esse “descanso”? Ela consegue também entender que não a estamos deixando “de lado” e sim precisando daquele descanso? Devo me sentir culpada por isso?

Cecília: Em primeiro lugar: culpada, não! As crianças querem sempre nossa atenção e não necessariamente entendem que mãe também cansa. Isso não quer dizer que você precisa estar o tempo inteiro disponível. Reclamação dos filhos faz parte e temos que conviver com ela para que, descansadas, possamos continuar com pique e energia para curtir os filhos.

Roteiro Baby BH: Sou mãe solo e ainda moro longe de parentes e amigos; então, dá para imaginar como fico cansada ao cuidar do Mateus (3 anos), né?  Amo-o mais que tudo e o melhor que poderia ter me acontecido na vida, com certeza, foi tornar-me mãe.
Os pilares que me ajudam a dar conta de tudo (para não dizer que garantem nossa sobrevivência…rsrsrs) são organização, logística e flexibilidade da agenda. Assim, priorizo o q é mais importante, vou ligando uma tarefa a outra de acordo com horários e local em que deve ser executada e, se algo fica para traz, paciência, faço quando – e se – der. Culpa pelo cansaço não é bem o q sinto, mas culpa quando ele me pede mais atenção e nem sempre posso parar tudo e ficar com ele.
Então, como lidar com isso quando não se tem a quem (todo mundo de confiança longe, somado à ausência do pai) nem como (questões financeiras me impedem de contratar alguém e cada vez consigo pagar menos horas na escolinha) delegar as obrigações? Sei que diálogo ajuda, mas a carinha de desapontamento dele me corta o coração…

Cecília: Sem dúvida não ter apoio por perto traz uma sobrecarga, mas pelo o que você me fala, você é muito disponível e presente. Não se culpe se sua disponibilidade não for absoluta. Aliás, para nossos filhos crescerem, eles vão ter que viver com muitos desapontamentos; e o que você me relata é um deles, e não há mal nenhum.

Danielle Cristine: Parei de trabalhar para cuidar dos meus filhos (menino de 7 anos e menina de 1,5 anos) mas fico mais exausta estando em casa com eles do que quando trabalhava no escritório, achei que daria mais atenção para eles, mas na hora de fato de brincar acabo estando exausta e minha paciência parece se esgotar junto com minha energia…. E me sinto muito culpada e triste por isso….. Até tomo energético às vezes, mas tem momentos que não aguento de cansaço e claro eles percebem e parecem que ficam mais agitados…. Principalmente o menino, que percebo que fica ansioso aguardando o momento de poder brincar comigo….. E muitas vezes prometo que vou brincar depois e não consigo….. Acabo frustrada e frustrando ele também…. Qual a melhor forma de explicar para eles que “mamãe não é de ferro”?

Cecília: Muitas mães que se dedicam integralmente aos filhos, sem um trabalho fora de casa, acham que têm a obrigação de estar 100% disponível para eles. Mas, é mais do que normal, diante de tantas demandas da casa, que essa mãe fique cansada, mesmo não trabalhando fora. Mostrar, falar como você se sente e fazê-los esperar um pouco é benéfico para eles por mostrar que nem tudo está à mão sempre e, claro, pra você que volta energizada.