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Mãe também é amiga

A amizade entre mulheres mexe com os hormônios, desestressa, emagrece e prolonga a vida

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Sabe aqueles dias em que tudo sai errado, você se sente no fundo do poço e dá vontade de gritar? Quando acontecer de novo não precisa se trancar no quarto, nem correr para farmácia ou para o analista. Procure uma amiga. Sim, é complicado encontrar as amigas depois que a gente tem filho, mas é importante. E, de preferência, sem os filhos. Para poder falar do seu lado mãe, mas também do seu lado mulher. “Acho muito importante a gente ter esse momento entre amigas. Assim, nós podemos falar mal dos homens… Falar do trabalho, falar bobeira!”, conta Ana Paula Borges Soares Lessa, mãe de Júlia e Bruna, que sai toda quarta-feira com as amigas.

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E faz muito bem. Sem saber, ela está se cuidando. Poucos remédios são tão eficientes para acabar com o estresse e depressão como a companhia de outra mulher que nos conhece bem e com quem podemos desabafar, dizer qualquer besteira que passar pela cabeça, sem medo de sermos julgadas ou mal interpretadas. E não se trata simplesmente de efeito psicológico. Amigas fazem mesmo bem à saúde. É uma questão de química, de hormônios.

O poder da amizade feminina é descoberta recente, feita por pesquisadores da Universidade de Los Angeles depois de 50 anos de investigações. Mas no íntimo todas nós sempre soubemos disso – apenas não sabíamos que sabíamos. É um conhecimento atávico, parte do instinto de sobrevivência. Quando às vezes você diz “não sei o que seria de mim sem minhas amigas”, não está exagerando; nossas ancestrais do tempo das cavernas não diziam porque não sabiam falar, porém sentiam exatamente a mesma coisa.

O que aconteceu desde o inicio dos tempos no caso das amizades salvadoras é o seguinte: ao nos sentirmos ameaçadas, acuadas ou de mal com a vida, o organismo libera um hormônio calmante chamado oxitocina, que, sob a influência do estrogênio, cria a necessidade de aconchego, de união com outras mulheres. Ao fazermos isso, mais oxitocina é liberada e o estresse vai embora.

Hormônio do amor

A oxitocina é hormônio que se relaciona ao instinto humano mais primordial: a reprodução. Ela é liberada pelo orgasmo, que contrai o útero, e faz com que o esperma chegue até o óvulo, aumentando as chances de gravidez. Conhecida como hormônio do amor, a oxitocina é responsável pelo afeto que a fêmea desenvolve pelo macho e o amor incondicional que ela tem pelos filhos.

Apesar de agir em outros mamíferos, o hormônio é mais potente nos humanos, fazendo com que os machos sejam carinhosos. Apenas em 3% das outras espécies de mamíferos os machos também cuidam dos filhotes. Embora nos homens, a testosterona iniba a produção da oxitocina, durante a gestação da mulher, a ação desse hormômio masculino fica mais baixa, para que ele se ligue ao bebê.

A gravidez e os filhos podem afastar quem era muito amiga antes quando uma está no pique das baladas e namoros e a outra, às voltas com enxoval ou noites mal dormidas. “Fui uma das primeiras da turma a engravidar. Minhas melhores amigas tiveram filho mais tarde ou simplesmente não tiveram. Durante um tempo me senti um pouco sozinha, quando as meninas cresceram mais, voltamos a sair juntas. Claro que elas me visitavam e são ‘tias’ bacanas, mas não era a mesma coisa”, conta Larissa Purvinni, mãe de Carol, Duda e Babi.

Grávida em turma

Outras mulheres têm a sorte de ficar grávidas ao mesmo tempo que as amigas. Foi o caso da designer Iza Cabette, grávida de João Teodoro. “Estar grávida e ter quatro amigas passando pela mesma situação é incrível e muito maluco. Como se não bastasse, é o primeiro bebê de todas. Parece que é tudo meio multiplicado entre nós, ainda mais porque sabemos que todos vão nascer em datas bem próximas. Compartilhamos uma alegria imensa, que vem junto com descobertas, dúvidas (muitas!) e emoções”.

Amigas de playground

Quantas vezes, na correria do trabalho, você já se pegou  pensando: “Nossa! Há quanto tempo não falo com a Carol. Vou ligar para ela hoje sem falta”? Aí, aparece alguma coisa e acaba não ligando. Como os filhos pequenos muitas vezes não nos deixam falar nem no telefone (ou porque estão chorando ou porque, mais tarde, não largam nosso smartphone), fica complicado mesmo. A maioria das mães acaba vendo amigas em programas infantis.

“O mais comum é juntar amigas e filhos: enquanto eles brincam, a gente põe o papo em dia, conta a apresentadora Silvia Faro, mãe de Lis, nossa colunista. O fato de o único jeito de encontrar as amigas ser junto com as crianças não significa que as mães ficam satisfeitas. “Honestamente, não consigo encontrar as amigas sem os filhos. Eventualmente, algum compromisso de trabalho acaba virando esse tempinho ‘a sós’ com uma amiga, um café entre uma reunião e outra ou um almoço, mas é algo raro”, conta a jornalista Denise Bobadilha, mãe de Arthur e Marina. “Confesso que gostaria de ter uma hora com as amigas, acho importante”.

Detox amigo

Verdade que muitas mulheres se juntam só para destilar veneno. Mas quando a reunião é de boas amigas, o resultado é uma desintoxicação, um “desenvenenamento” como diz a psicóloga e palestrante catarinense Onete Ramos Santiago. Para ela, o estrogênio “contém em si mesmo a delicadeza, a paciência, o entendimento, o calor humano”

Pesquisadores da Califórnia fizeram outra descoberta incrível: quem cultiva amigos pode chegara viver até nove anos mais do que os que tem pouco relacionamentos. Isso vale para todo mundo. Imagine então para nós que transformamos a amizade numa fonte de força e saúde.

E ajuda a emagrecer!

Boas amigas podem ainda nos ajudar a emagrecer (ou pelo menos não engordar) e evitar vícios como o cigarro e o sedentarismo. Não apenas por nos arrastar para a academia e ficar pegando no nosso pé, mas porque é altamente estimulante saber que uma pessoa que conhece tão bem nossos defeitos e limitações acredita que somos capazes de dar a volta por cima. Nem mesmo o homem que a gente ama de paixão tem tal poder, pelo simples fato de ser homem – portanto, incapaz de entender como nos sentimos. É por isso que a Dra. Onete Santiago costuma dizer que “a sociedade é por natureza um pouco homossexual”: um sexo só compreende o próprio sexo.

Relações entre mulheres também são “laboratórios de conflitos”, tão poderosos que não se encaixam em nenhum molde preconcebido. Quem diz isso é a terapeuta americana e especialista no assunto Ruthellen Josselson, que explica: “Ao longo da vida, toda vez que uma mulher ou uma menina sai em busca daquilo que é mais autêntico e genuíno em si mesma, é no espelho do olhar de uma amiga que vai encontrar as respostas”. Não é que os homens não se espelhem nos amigos. A diferença está no que eles procuram; geralmente, nada mais profundo do que modelos de comportamento. Assim, a amizade feminina é única e realmente especial porque fortalece nossa identidade e nos ajuda a projetar quem seremos no futuro.