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Primeira viagem em tempo intengral

Michelle Mariotto, mãe do João, sabe das suas dificuldades e não se arrepende da decisão que foi tomada

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Preciso começar esse texto dizendo que eu seria louca se me sentisse culpada por não trabalhar. Sendo bem realista, tenho total consciência de que a minha situação é um privilégio. Afinal, quantas mães podem deixar o emprego para se dedicar exclusivamente ao seu bebê sem passar por um completo caos financeiro?

Mas confesso que nem sempre pensei assim. Contei no meu primeiro texto para o “Culpa, Não!” que numa conversa com meu marido, muitos anos atrás, ele sugeriu que eu parasse de trabalhar quando tivéssemos um filho para cuidar da educação do bebê. Na época achei a ideia um absurdo.

Sempre fui muito ativa, agitada e tenho um espírito independente. Para se ter uma ideia, aos oito, nove anos, fazia colarzinhos de miçangas e vendia para as amiguinhas na escola só para não ter que pedir aos meus pais o dinheiro para o lanche. Como é que, de uma hora para outra, depois de conquistar minha tão sonhada independência financeira, eu iria passar a viver com os recursos de outra pessoa?

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Mas a maternidade bateu à porta e, aos cinco meses de gestação, deixei o emprego para me dedicar aos últimos preparativos para a chegada do bebê e aos cuidados com ele em seus primeiros meses de vida.

O que me levou a essa decisão? Foram fatores distintos – muitos, na verdade. Entre eles o fato de me ver, grávida, almoçando as três da tarde depois de ter entrado no trabalho antes das sete da manhã para cumprir prazos insanos que alguém assumiu em meu nome sem me consultar – como seria quando eu tivesse um bebê me esperando na escola com horário certo para saída? Meu marido ter um emprego extremamente estável, com um salário que daria conta do recado nos primeiros meses, e nós termos um relacionamento muito seguro e de muito diálogo, inclusive no aspecto financeiro, também contou pontos a favor da decisão. Outro argumento forte foi o de ter planos e projetos para um empreendimento profissional próprio, que me permitiria trabalhar em casa e acompanhar de perto o crescimento e desenvolvimento do meu filhote.

Então meu filho chegou, as novidades foram muitas e eu fui me habituando com a rotina de mãe de primeira viagem em tempo integral.

Incomodada por estar em casa, cheia de ideias e louca para dividi-las com outras mamães, quando o João completou três meses nasceu o blog “Eu e meu Bebê”. Era um sonho antigo ter meu próprio blog e foi uma delícia vê-lo realizado justamente para dividir as experiências de cuidar, educar e conviver com um serzinho que depende de mim para tudo! E que eu já amava insanamente antes mesmo de conhecer.

Os meses foram se passando e eu achando que tudo sairia como o planejado. Até que caiu a ficha de que tão cedo eu seria incapaz de assumir um novo projeto profissional se quisesse me dedicar a passar tempo com meu filho, estimulando seu desenvolvimento e acompanhando suas conquistas, sem entregá-lo aos cuidados de uma babá ou de uma escolinha.

O que mais pesou nesse momento, por incrível que pareça, não foi a minha dependência financeira, mas o ócio intelectual que essa realidade provoca.

Como uma pessoa normal amamenta, prepara papinha, alimenta, troca, limpa, dá banho, acalenta, brinca, lê, ensina, leva o bebê à pracinha, ao pediatra, ao banho de sol – ignorando os cuidados pessoais, que às vezes até ficam de lado, e a rotina doméstica – sem dormir uma noite toda e ainda tem alguma sanidade mental para mergulhar num novo empreendimento? Por aqui isso foi impossível. Nem o blog, que é um hobby que pretendo profissionalizar, eu tenho conseguido manter atualizado.

Mas e a culpa, onde fica? Ah, ela vem avassaladora logo depois que a frustração por não colocar em prática os meus milhões de ideias domina a cena. É quando surgem os pensamentos mais obscuros, a sensação de impotência impera e eu acabo transparecendo todos esses sentimentos negativos para o meu bebê. Aí a danada da culpa – a sombra materna – surge das entranhas e eu fico me sentindo a última das mortais.

Nessa hora, dá-lhe a santa da Galinha Pintadinha para segurar um pouquinho a onda do bebê enquanto a mamãe respira fundo e lembra que foi ela, sozinha, quem tomou essa decisão – e, apesar das dificuldades, em momento algum se arrepende disso – recupera seu equilíbrio e volta para o pequeno com muitos beijos, abraços e carinho para tentar aplacar um pouquinho desse sentimento tão humano e, acima de tudo, tão materno!