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Maioria das mulheres desiste do parto vaginal durante o pré-natal

Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz aponta que cenário dos nascimentos no Brasil é preocupante

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Mesmo com uma queda nas taxas de mortalidade materna de 43% nos últimos 23 anos, a pesquisa Nascer no Brasil, do Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), aponta que o cenário dos nascimentos no Brasil ainda preocupa. “Nossos indicadores mostram que não para de crescer o número de cesarianas no País”, afirma Marcos Dias, obstetra do Instituto Fernandes Figueiras, um dos coordenadores da pesquisa e pai de Marina e Isabela.

Para se ter uma ideia, considerando toda a rede, 52% de nascimentos no Brasil são por parto cesárea, mas na rede privada do País esse índice chega a quase 90%. “Existe uma questão cultural. Primeiro, muitas mulheres acreditam que cesáreas não trazem riscos. Depois, há uma questão de conforto médico, que fica claro ao se observar que há menos nascimentos fora do horário comercial”, diz Dias. A Organização Mundial da Saúde recomenda, no máximo, 15% de cesáreas.

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Segundo o estudo, 70% das mulheres começam o pré-natal com preferência pelo parto vaginal.  “Mas, observou-se que, ao longo da gravidez, houve uma mudança da decisão pelo tipo de parto, que não pode ser explicado pelo surgimento de problemas e complicações. Isso sugere que a orientação no pré-natal pode estar induzindo a maior aceitação da cesariana”, diz o estudo. 

Segundo o obstetra, além de faltar informação tanto a médicos quanto a pacientes, o modelo de atendimento ao parto no Brasil ainda favorece as cesáreas. Tendo em vista que a regra geral é que um único médico fique vinculado ao parto, é bastante comum que a paciente seja induzida a escolher a cirurgia – um procedimento mais conveniente ao médico. É comum, além disso, que os convênios paguem ao médico por um parto sem diferenciar cesáreas e partos vaginais, o que faz com que médicos neles credenciados frequentemente fujam dos últimos – já que são mais horas trabalhadas, muitas vezes, sem nenhum adicional na remuneração.

Para Dias, o ideal seria montar um modelo que criasse um revezamento entre plantonistas, em que a assistência ao parto não ficasse vinculada a uma só pessoa que fica disponível por tempo indeterminado, mas a uma equipe, que pode incluir médicos, obstetrizes e enfermeiras obstétricas. Segundo o médico, essa estratégia já foi posta em prática e teve resultados bastante positivos: “Temos casos de planos de saúde em que isso é feito, e neles foi possível reduzir pela metade a proporção de cesáreas”, diz. O estudo afirma que, segundo estimativas, cerca de um milhão de cesáreas desnecessárias são realizadas por ano no Brasil. 

Pré-natal tardio
O cenário relacionado a cesáreas não é o único alarmante: o estudo da FIOCRUZ aponta que 60% das mulheres iniciam o pré-natal tardiamente, após a 12ª semana de gestação, e 25% delas não chega a receber o mínimo de 6 consultas, determinado pelo Ministério da Saúde. Quase 20% das mulheres foram obrigadas a peregrinar por mais de um hospital durante o trabalho de parto e 41% delas não foram orientadas ou familiarizadas a respeito de sua maternidade, um direito garantido pela lei federal 11.634, de dezembro de 2007.

Apenas 20% das mulheres tiveram um acompanhante ao longo de todo o trabalho de parto, sendo esse, em geral, um privilégio das mulheres brancas, com maior escolarização, detentoras de maior renda e que tiveram seus filhos por parto cesárea. No entanto, um resultado animador foi o de que 75% de todas as mulheres tiveram um acompanhante durante o trabalho de parto. O estudo relaciona este dado com a lei 11.108, de 2005, que garante à parturiente o direito a um acompanhante de sua escolha durante sua permanência no hospital.

Quanto à minoria das mulheres que passou por um parto vaginal, o padrão encontrado foi de partos altamente medicalizados, em que muitas vezes a gestante não caminha ou se alimenta durante o processo. “O cenário ideal é aquele em que a mulher tenha vivacidade, conforto, acompanhamento médico, suporte emocional, possibilidade de se movimentar e de se alimentar”, pondera Dias.