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Tem criança no samba

Redação Pais&Filhos

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Desfilar no Carnaval não é apenas divertido. Também ajuda na autoestima, socialização e responsabilidade das crianças que participam das escolas de samba mirins

Por David Júnior, pai de Daniel e de Maria Clara

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Encolhido dentro de um surdo, Newton se escondia da polícia em pleno desfile de Carnaval. Naquela época, 70 anos atrás, quando o Carnaval dava seus primeiros passos, o samba era mal visto e os sambistas sofriam repressão. Crianças, então, não podiam passar perto. Newton é o compositor Newton da Portela, de 77 anos, pai de Newton Júnior, Orniléa e Newmar, e avô de seis sambistas, cinco ainda crianças. “Os policiais chegavam aos desfiles e procuravam, sobretudo, a presença da garotada, mas sempre havia um jeito de participar. Lembro que, quando os agentes chegavam, meu pai me escondia dentro de um instrumento semelhante a um surdo.”
Hoje, criança dá o maior samba. Tanto que a primeira pessoa a pisar oficialmente na pista de desfiles do Sambódromo carioca em sua inauguração foi um garoto de 6 anos: Leandro Miguel da Silva, pela escola de samba Império do Marangá, extinta em 1984.

Um pouco antes, em 1983, do seio da tradicional Império Serrano, nasceu a primeira escola de samba mirim, a Império do Futuro. Não demorou muito a aparecerem outras agremiações e, consequentemente, um desfile só para os pequenos. Hoje as crianças têm um dia só delas. E participam de todo o processo de criação de uma apresentação tradicional das escolas de samba adultas. Em 2002, foi fundada a Associação das Escolas de Samba Mirins do Rio de Janeiro.

Atualmente, 17 escolas de samba mirins se apresentam no Sambódromo carioca. Na sexta-feira, antevéspera de Carnaval, o desfile das crianças reúne aproximadamente 40 mil foliões, com idades entre 5 e 17 anos. O presidente da Associação das Escolas Mirins, Édson Marinho, pai de Andressa, conta que o público cresce a cada ano. “O desfile das crianças é um sucesso”. Na plateia, a família toda, claro, mas também turistas. Édson explica que cada escola leva para a avenida entre 1.500 e 3.000 crianças para um desfile com os mesmos detalhes que uma agremiação adulta. “Todas apresentam comissão-de-frente, passistas, mestre-sala e porta-bandeira, divisão por alas, carros alegóricos, cantores mirins, bateria mirim etc. Não há diferença alguma em relação às escolas adultas.”

Embora não haja uma avaliação quesito por quesito, como nas escolas de samba adultas, a Associação das Escolas Mirins promove duas premiações: o Troféu Olhômetro e o Estandarte de Ouro Mirim. “O objetivo do Estandarte é motivar as escolas a apresentar um Carnaval de qualidade sempre superior ao ano anterior”, diz Édson.

A cada ano, despontam novos talentos nas grandes escolas de samba que um dia passaram no desfile das crianças, como os irmãos Dudu Nobre e Lucinha Nobre, uma das mais premiadas portas-bandeiras do Carnaval. Mas o Carnaval das crianças não se resume à sexta-feira pré-folia. Quase todas as escolas de samba apresentam em seus desfiles alas mirins, sempre sob o olhar atento do Juizado da Infância e Adolescência, claro.
 
Muito além do samba
O legal é que as escolas de samba mirins também se preocupam com a formação da criança. A Associação promove oficinas de artes ligadas ao Carnaval, atividades esportivas, culturais e intercâmbios com outros estados brasileiros.

Além disso, as crianças descobrem novos talentos, de acordo com a pedagoga Jandyra Freitas Gomes, mãe de Caroline e diretora da escola de samba Corações Unidos do CIEP. “É um processo de descoberta mesmo. Elas percebem que são capazes de fazer muitas coisas. Além disso, as crianças melhoram a autoestima, a socialização, a pontualidade em seus compromissos… Isto sem falar no conteúdo dos enredos e no aprendizado profissional que todos têm. Entre elas, surgem grandes cantores, aderecistas, músicos. Aprendem com prazer e melhoram suas perspectivas de vida.”

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Pequenos aprendizes
Colega de Jandyra na direção da Corações Unidos, Mônica de Almeida Motta, mãe de Mariana, conta que as escolas de samba fornecem referências pessoais e profissionais para a garotada, que passa a querer ser igual ao mestre de bateria A ou mestre-sala B, por exemplo. Mesmo que nem sejam famosos.

Foi o que aconteceu com o jovem William dos Santos Alves, filho de Wilson e de Núrcia Cristina. Aos 17 anos, ele hoje comanda a bateria da Corações Unidos.  “Um dia serei mestre de bateria em uma grande escola, assim como Mestre Ciça (comandante dos ritmistas da Acadêmicos do Grande Rio), meu ídolo”, conta. Aos 12 anos, Alex do Vale Sousa, filho de Luiz e Maria do Socorro, diz que sonha ser um sambista grande, mas que também seja bom na escola. “Sambo e tenho boas notas, especialmente em matemática.” Já Gabriel Rodrigues da Silva, de 14 anos, filho de Carlos Alberto e Rosélia, ficou encantado pelo som que ouvia dentro de casa. “Cresceu a vontade de participar. Meus pais me incentivaram.”

Projetos sociais
As principais escolas de samba de São Paulo e do Rio mantêm muitos projetos sociais, em especial para as crianças. São oficinas e cursos profissionalizantes para os jovens, aulas de dança e de esportes, escolinhas de atividades voltadas para o Carnaval e até creches e escolas de formação regular. Alguns projetos sociais das grandes escolas de samba do Rio de Janeiro ganharam repercussão internacional, como a Vila Olímpica da Mangueira, que revelou atletas para as equipes brasileiras e recebeu a visita do ex-presidente americano Bill Clinton, em 1997.

A Acadêmicos do Grande Rio, com sua escola mirim, Pimpolhos da Grande Rio, beneficia 3.000 famílias em Duque de Caxias. Já a Beija-Flor de Nilópolis, desde a inauguração de sua creche e do seu educandário, beneficiou mais de 18 mil crianças. Cada vez mais, quem não gosta de samba, bom sujeito não é.

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Em 2011, antigos e remodelados sambas-enredo

Este ano a Associação das Escolas de Samba Mirins sugeriu que as agremiações reeditassem enredos e sambas-enredos que marcaram a história do Carnaval carioca. A iniciativa, além de aumentar o canto das arquibancadas, ajudaria a garotada a conhecer melhor a história dos desfiles. Apenas a Pimpolhos da Grande Rio preferiu levar para o Sambódromo um tema novo. Veja o que as escolas apresentarão na avenida.

1. Filhos da Águia – Contos de areias, de 1984.
2. Miúda da Cabuçu – O Mundo Mágico dos Trapalhões, Unidos do Cabuçu, 1988.
3. Pimpolhos da Grande Rio – Nossos Contos.
4. Ainda Existem Crianças na Vila Kennedy – Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite, Portela, 1981.
5. Corações Unidos do CIEP – Domingo, União da Ilha, 1977.
6. Império do Futuro – Alô, alô, taí Carmem Miranda, Império Serrano, 1972.
7. Inocentes da Caprichosos – Xuxa e seu Reino Encantado no Carnaval da imaginação, Caprichosos de Pilares, 2004.
8. Tijuquinha do Borel – Entrou por um lado, saiu pelo outro… Quem quiser que invente outro, Unidos da Tijuca, 2005.
9. Herdeiros da Vila – Muito prazer! Isabel de Bragança e Drummond Rosa da Silva, mas pode me chamar de Vila, Vila Isabel, 1994.
10. Infantes do Lins – Chico Mendes, o arauto da natureza, Lins Imperial, 1991.
11. Mel do Futuro – Mas vale um jegue que me carregue, que um camelo que me derrube lá no Ceará, Imperatriz, 1995.
12. Nova Geração do Estácio de Sá – "Paulicéia Desvairada, 70 anos de Modernismo no Brasil", Estácio de Sá 1992.
13. Petizes da Penha – O direito de ir e vir. Da aldeia do Andira – Y, da cadeirinha ao Metrô, eu também vou, Flor da Mina do Andaraí, 2006.
14. Aprendizes do Salgueiro – Bahia de todos os deuses, Salgueiro, 1969.
15. Mangueira do Amanhã – Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu, Mangueira, 1994.
16. Golfinhos da Guanabara – Os Sertões, Em Cima da Hora, 1976.
17. Estrelinha da Mocidade – O Grande Circo Místico", Mocidade Independente, 2002.

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