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Stela Loducca

Falamos com a redatora publicitária que se tornou redatora de histórias infantis

Redação Pais&Filhos

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Redatora publicitária por 18 anos, decidiu parar de trabalhar para ficar mais com o filho, Gabriel, e se tornou redatora de histórias infantis. Não tem nenhum livro impresso, mas dezenas na internet. O objetivo? Democratizar a leitura. A decisão veio depois de trabalhos voluntários numa favela de São Paulo, onde percebeu que as crianças tinham mais acesso à internet do que aos livros. Seu site, O Pequeno Leitor, pretende ser a porta de entrada para esse universo.

Por Mariana Setubal, filha de Paulo e Cidinha

Como foi a sua experiência com a leitura na infância?
Eu sempre vi a minha mãe lendo, desde pequenininha. Estudei numa escola em que se lia muito. Meus avós liam bastante. Minha mãe lia com a gente antes de dormir, é uma coisa que hoje eu faço com o meu filho.

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Tem algum livro que você lembra em especial?
Um do Érico Veríssimo, “As Aventuras do Avião Vermelho”. Foi o que mais me marcou.

Por que você acha que é importante a leitura desde a primeira infância?
Uma das coisas que fortalece o hábito para as crianças é a leitura junto com os pais. Primeiro porque ela vem por meio do vínculo, do exemplo de ver o pai lendo. Porque não adianta jogar o livro na mão da criança e você nunca ter lido nada na sua casa. Ela, com certeza, não vai ser uma leitora. Como a criança aprende a se expressar? Ela vai se apropriando do discurso oral, vai escutando dos pais, das pessoas em volta dela e as histórias são muito importantes.

Assim, ela consegue se apropriar daquela linguagem e começa a expressar bem melhor aquilo que está sentindo, ela vai ter repertório para isso. O Pequeno Leitor tem áudio nas histórias justamente para pegar a criança que ainda não sabe ler. Assim,  ela pode conviver com esse universo. Antes de eu fazer o projeto, me caiu nas mãos uma pesquisa de James Heckman, o economista que ganhou o Nobel – que foi uma das coisas que me motivou a fazer o site. É o seguinte: ele diz que uma criança que começa a ser estimulada cedo (com uns 3 anos), ou seja, uma criança que tem revista, livro em casa, vê os pais, é cercada disso, quando tiver 8 anos, vai ter um vocabulário de 12 mil palavras. Até aí eu não sabia o que são 12 mil palavras, não sei quantas mil palavras eu sei. Aí, vinha embaixo o seguinte: a criança que não for estimulada a partir dessa idade, aos 8 anos vai ter um vocabulário de 4 mil palavras. A diferença é gritante. Isso vai refletir lá na frente. E Heckman questiona: o que uma criança com 4 mil palavras vai conseguir compreender de um texto ou de uma estrutura um pouco mais complexa de qualquer matéria que ela tiver na escola? A língua é a ferramenta para compreender o mundo a sua volta. É fundamental isso.  

Essa criança praticamente não tem repertório em relação à outra. E me chamou mais a atenção porque eu desenvolvi por dois anos um trabalho na favela do Jaguaré que me comprovou na prática essa teoria. As crianças da comunidade que eu dava aula tinham de 5 a 10 anos. O processo básico era assim: vou contar uma história e você vai recontar pra mim.

E tinha criança de quase 10 anos que não conseguia recontar uma história, imagine escrever. Eu via que ela não tinha repertório, ela não tinha desenvoltura pra falar. Não tinham essa capacidade de imaginar, de criar, de fantasiar… Eu tinha aluna que chegava em casa e passava o tempo fazendo envelopes com a mãe.

A leitura chega a ser uma causa como salvar o planeta. Ninguém salva o planeta se não tiver consciência. Se você não entender o que está acontecendo, não vai ser uma pessoa crítica a ponto de falar “eu preciso pegar as rédeas disso aqui”.

E você acha que é um papel mais da escola, mais dos pais ou em igual proporção, esse incentivo?
Eu acho que dos dois juntos, mas o estímulo dos pais começa antes da escola. A oralidade é pré-requisito para a alfabetização. Para a criancinha de 2, 3 anos, as histórias tem um narrador. Eu tenho tido muito feedback das mães, dizendo “como minha filha fica hipnotizada”. Eu também tenho histórias sem áudio para as crianças tentarem ler, e as que não sabem, vão ler junto com a mãe. Mas, em geral, são pais envolvidos e estão lá lendo. É esse jeito de você falar, esse encantamento, que faz com que a criança se envolva com a história e com esse universo. Eu acho que esse trabalho é anterior à escola. E se ela é só estimulada na escola e chegando em casa não é, não adianta. Eu não estou alfabetizando ninguém, não é um site para alfabetizar! Eu coloquei áudio porque eu quero que essas crianças pequenas possam estar dentro do site, com os pais participando e interagindo. Eu acho que você não pode abrir mão: “ah, já está na escola, eles terminam de educar”. Eles não vão terminar de educar, é um trabalho paralelo e conjunto. Na escola tem um pouco aquela coisa da obrigação. Em casa você consegue fazer isso pelo prazer. O ideal é você formar esse hábito e criar esse vínculo quando todos os outros hábitos estão se formando, perto dos 3 anos.

E essa história do site, com foto, com vídeo, você acha que estimula mais a criança? Não é como um livro estático…
Eu acho que os dois têm o seu encantamento. Hoje, se você vê um iPad, as crianças com um ano e pouquinho estão lá com o dedinho mexendo. Acho que encanta. Agora, a ideia é que ela crie o vínculo através do prazer, é uma grande brincadeira. Ela está envolvida naquilo e tomou gosto. E que ela saia do site e que sinta o maior prazer do mundo em entrar em uma livraria, de ter um livro na mão e folhear. Você vê que criança ama livrinho com pop-up. Ou aqueles que tem som. A palavra tem um poder de encantar absurdo, aquilo já é mágico para ela, a história em si. Agora, na hora que você vai enriquecendo com outras coisas… Acho que em cada momento você vai preferir uma coisa. Eu prefiro ler um livro do que ficar lendo na internet, mas essa nova geração está na internet. Então O Pequeno Leitor não é um formato de livro tradicional. Ele é mais interativo. Isso explica porque eu fiz para a internet. Eu queria muito usar a minha experiência como redatora publicitária a favor da leitura, de uma forma que não fosse indo na favela só uma vez por semana porque eu atingiria uma parcela pequena de crianças. E o que eu percebia lá dentro? Eles não tinham livros, não tinham nada. Eles enlouqueciam quando eu levava um livro. Eu nunca sabia se o livro ia voltar inteiro. Era aquela coisa de querer pegar, ver. Mas eles não iam em livrarias. Eles não têm acesso, não vão gastar dinheiro com isso. As escolas quase não têm livros, mas sabe o que tem muito em favela? Lan house.

Tem a lan house e não tem a biblioteca…
Olha que loucura! Querendo ou não, é o mundo que essa geração vive. Eu vi pelas pesquisas que as crianças gastam de 3 a 4 horas por dia no computador. Elas entravam muito pra jogar. Mas o que é que você está aprendendo com isso? Meu filho passava bastante tempo em sites infantis, eu achava legal ver ele brincando, interagir ali. Mas chegava uma hora que ele só queria ganhar ponto pra comprar. E aí eu fiquei pensando: eu quero fazer algo no mundo deles, para que eles aprendam alguma coisa. O Pequeno Leitor nasceu como se um cliente tivesse me pedido para criar uma grande campanha de incentivo à leitura. E essa campanha
eu criei na internet:
O Pequeno Leitor.

Você tem patrocínio?
Não tenho. Eu estou procurando muito, para o site não morrer, porque é um site caro. Eu optei por uma qualidade enorme, cada história custa muito, porque tem animação, trilha, locução, o ilustrador, o pessoal de TI da agência… Eu preciso de um patrocinador que tenha a ver com o site no sentido que olhe para ele como uma causa. Eu prefiro que O Pequeno Leitor acabe do que, de repente, eu faça dele um produto de marketing. É um site que as escolas estão usando. Como é que eu tenho um site desses e vou começar a vender produtos lá dentro? Todo mundo que quer estar no site, eu falo que sua marca vai aparecer como alguém que apoia a leitura. Eu não vou vender produtos específicos X, Y ou Z, eu vou vender uma causa. O vínculo que a marca criará com a mãe é muito maior assim do que você bombardear a criança. Falo isso como mãe e publicitária. Tem que entrar de um jeito onde a marca construa junto comigo, aquilo que eu já venho construindo.

E, por enquanto, quem banca é você?
Por enquanto, sim.

E em relação à segurança, em que idade você acha que a criança pode começar a usar a internet?
Por ser mãe, eu tenho uma preocupação enorme de qual é o ambiente que o Gabriel vive, que ele frequenta, com quem ele anda. Passa por tudo isso: por que ele entra na internet, o que ele faz na internet?  O que eu acho legal do que ele faz, o que eu não acho legal do que ele faz… Eu sei que eu não vou ter como evitar, mas pelo menos até uma faixa de idade eu acho isso fundamental. Eu acho que não consigo te responder exatamente qual a idade, pra mim vai ser 10 anos em diante, mas eu sei que não é, elas entram antes. Vejo crianças de 8 ou 9 anos no Facebook. Eu converso muito com o Gabriel nesse sentido. Você tem que informar bastante dentro de casa para a criança ter uma noção. Por enquanto evito redes sociais na idade dele.

E como o seu filho participou da história do site, ele deu algum palpite, hoje em dia ele ainda dá…?
Hoje em dia menos, porque o interesse dele é futebol. Das minhas histórias, 90% são experiências que o Gabriel viveu. Aqui em casa a gente sempre recebe muita criança, e eu começo a ficar ligada no que eles conversam, no que eles brincam etc. Isso pra mim é um ambiente riquíssimo, em que eu construí as minhas histórias.

“Dudu e a Caixa”, por exemplo, é uma história todinha dele.
A cadeira do meu trabalho veio numa caixa. Eu cheguei em casa e a babá estava rodando na cadeira igual uma criança, e o Gabriel estava no meio da sala, dentro da caixa. E a caixa ficou um mês e meio na sala. Dentro tinha tudo: chocolate, revistinha, brinquedo, cobertor, uma garrafinha com água. O dia que essa caixa foi pro brejo, ele chorou muito. Muito! Então, a historinha foi isso. A criança pega uma caixinha, qualquer coisa, e brinca e constrói. Ela usa a imaginação que a gente, infelizmente, perdeu.

Quem ilustra suas histórias?
Hoje, chama Renato Moricone. Eu o conheci no curso de literatura infantil, que era para ilustrador. Na verdade, fui tentar entender o processo da ilustração. Ele é um cara que concorreu ao Prêmio Jabuti neste ano e ilustra alguns livros. Ele diversifica pra caramba. Já pegou o jeito e eu realmente gosto, tem uma poética super bacana. Se você reparar nas histórias que as crianças criam, eu não dou a narrativa para ele, “ah eu quero que a primeira cena seja assim, assim, assado”. Meu negócio são as palavras, eu não tenho capacidade pra criar uma narrativa visual com os elementos que ele vai pensar, que vai transformar. O que eu falo para ele é o tema. Acho que nunca aconteceu de eu falar assim: “ai Renato, não gostei da sua narrativa”.

E você pensa em escrever livros, a partir das histórias?
Duas editoras já entraram em contato comigo, a gente ainda está conversando de fazer uma coleção do Pequeno Leitor. Se eu tenho interesse em publicar? Tenho. Não precisa ser necessariamente as historinhas do site. Hoje minha preocupação principal é ir atrás das coisas do site. Pro projeto ficar mais forte seria interessante que esses livrinhos também estivessem na livraria e até pra uma coisa levar à outra. Se a pessoa não conhece o site, está na livraria e vê o livro… Mas eu tenho um monte de livros publicados na internet. Eu não estou querendo tirar o foco das crianças do livro. Muito pelo contrário, eu estou querendo que elas leiam cada vez mais. Eu ainda não tenho repertório pra uma criança passar muito tempo lendo no site. Eu tenho repertório pra ela brincar, entrar de vez em quando, ler. Isso é justamente pra que essa criança vá na livraria e compre 10 livros pra ler. As minhas histórias vão se esgotar mais rápido do que livros em livrarias. Eu estou usando uma ferramenta diferente, e que eu acho que é importante porque desenvolve outras coisas da rede cognitiva da criança, para o mesmo objetivo, que é ler! Pra mim, se ela vai ler no computador, se vai ser uma criança que não vai ter livro em casa, mas vai ler no Kindle e vai baixar livro pelo iPad, não importa, ela está lendo, pra mim tanto faz se é papel ou se não é. Eu acho que uma coisa leva à outra. Eu acho que vai demorar pra não existir livros, as pessoas gostam, a criança quer ter na mão também, quer folhear…
É legal. Eu acho que tem as duas coisas, são formas diferentes, mas o objetivo
é o mesmo.

11 livros indicados por Stela Loducca

O Dariz, de Olivier Douzou.
Ed. Cosac Naify (editora.cosacnaify.com.br), R$37

É um Livro, de Lane Smith.
Ed. Cia das Letrinhas (ciadasletrinhas.com.br), R$29,50

O Pote Vazio, de Demi.
Ed. Martins Fontes (martinsmartinsfontes.com.br), R$34,50

Sábado na Livraria, de Olivier Tallec.
Ed. Cosac Naify, R$45

Contos de Enganar a Morte, de Ricardo Azevedo.
Ed. Ática (atica.com.br), R$35,50

O Rei Distraído, de Jean-Claude R. Alphen.
Ed. Cia das Letrinhas, R$37

Adivinha Quanto eu te Amo, de Sam Mcbratney.
Ed. WMF Martins Fontes (wmfmartinsfontes.com.br), R$45

Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque.
Ed. José Olympio (record.com.br), R$22

A Maior Flor do Mundo, de José Saramago.
Ed. Cia das Letrinhas, R$33,50

Branca de Neve e as Sete Versões, de Marcus Aurelios Pimenta e José Roberto Torero.
Ed. Alfaguara (objetiva.com.br/alfaguara), R$34,90

Quem soltou o Pum, de Blandina Franco.
Ed. Cia das Letrinhas, R$25

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