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O que esperar (dele) quando você está esperando

O pai muda tanto quanto a mãe durante a gestação. E não só psicologicamente

Redação Pais&Filhos

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por Larissa Purvinni, mãe de Carol, Duda e Babi

Bem-vinda ao lado masculino da gravidez.  Ou melhor, bem-vindos. Estamos falando com os dois. Sim, porque 19% dos nossos leitores são homens, porcentagem que cresceu ainda mais depois que estreamos no iPad (os garotos ainda são um tanto mais ligados em gadgets). O fato é que, depois de muitos anos contentando-se em desempenhar um papel secundário, os pais hoje reivindicam o Oscar de ator principal (a atriz é a mãe, claro).

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Além de um imenso impacto psicológico, a ciência comprova que a gravidez provoca várias mudanças físicas no homem. No livro The Male Brain: A Breakthrough Understanding of How Men and Boys Think (O Cérebro Masculino: Uma Impressionante Compreensão de Como Homens e Meninos Pensam), a neuropsiquiatra Louann Brizendine afirma que o homem passa por muito mais mudanças durante a gravidez do que é possível perceber a olho nu. Tudo isso, somado às imensas transformações sociais das últimas décadas, trouxe os homens para o centro do palco.
A metamorfose de homem em pai envolve transformações físicas, emocionais e hormonais. Num primeiro momento, os hormônios o instruem a entrar em pânico. Ou, no mínimo, a ficar atento. Os níveis do cortisol (hormônio do estresse) atinge seu pico por volta de quatro a seis semanas depois que o futuro pai recebe o resultado positivo do exame de gravidez. Conforme a gestação progride, as coisas se acalmam. Três semanas depois que o bebê nasce, os níveis de testosterona, associado à competitividade, agressividade e desejo sexual, caem drasticamente.

Alguns futuros pais ficam bem barrigudos, pois acompanham a fome de leão da mulher. Os maiores níveis de certos hormônios, entre eles a prolactina, ligada à amamentação na mulher, são os responsáveis pelos sintomas do tipo, conhecidos como síndrome de couvade (gravidez por empatia). Por causa deles, a audição do pai fica mais apurada. Os hormônios também estimulam mais conexões em certas áreas do cérebro, contendo a libido e tornando o homem mais paternal.

Chega às telas brasileiras, no início de agosto, a comédia romântica “O Que Esperar Quando Você Está Esperando”. Baseado no livro cuja franquia já vendeu mais de 34 milhões de exemplares, o filme retrata casais às voltas com a primeira gravidez. Alex, vivido por Rodrigo Santoro, fica apavorado conforme se concretiza o plano de adotar uma criança em conjunto com a mulher Holly (Jennifer Lopez). Santoro afirmou que adoraria ter filhos. Se acontecer, quer estar na sala de parto para ver tudo, de todos os ângulos: “Acho que estou mais pronto para ser pai do que o Alex”, comentou. Candidatas?
Para acalmar Alex, Holly sugere que o marido passe a frequentar um grupo de pais: são homens que empurram carrinho e andam de sling. Segundo um dos membros do clube, “você não sabe o que é o amor até limpar a bunda de alguém”. No site do livro, existe um blog de Holly sobre o processo de adoção. Desde que as redes sociais explodiram, nenhuma mulher fica aflita sem entrar num grupo de mães no Facebook, postar no blog e twittar. O resultado é que assuntos que antes eram divididos com o pai são compartilhados agora com outras mulheres. “Vejo comentários feitos de madrugada, dúvidas que seriam facilmente resolvidas com o parceiro. A relação perde, porque o pai fica de fora de questões das quais precisa participar para se integrar na família que está formando”, afirma a psicoterapeuta Natércia Tiba, mãe de Eduardo e Ricardo, que atende casais grávidos e famílias. É verdade que os homens também vêm ocupando seu espaço virtual, e os blogs paternos se multiplicam.
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Ajudinha ao pai
O best-seller O Que Esperar… foi escrito em 1984, pouco tempo depois que a autora, Heide Murkoff, teve sua primeira filha. Ela quis escrever um livro capaz de ajudar outras grávidas a tirar todas as dúvidas que ela mesma teve. O livro virou site (www.whattoexpect.com), aplicativo, blog, perfil no Twitter, Fan Page no Facebook e é lido por 93% das grávidas americanas. Em Ligeiramente Grávidos, uma comédia escrachada de 2007, uma apresentadora de TV engravida no primeiro encontro. A moça compra uma pilha de livros de gravidez, inclusive O Que Esperar…, e entrega para o futuro pai, que guarda a biblioteca no armário quase até o fim da gestação, quando, finalmente, resolve ler. Tudo.
É, cientistas e psicólogos concordam: a gestação demora mais tempo a se tornar concreta para o homem. E a futura mãe pode ajudar: “cabe à gestante incluí-lo nas consultas, pedir sua participação, trazê-lo para as decisões, conversar sobre o que ambos sentem, incentivá-lo a falar com o bebê na barriga. Se o homem não tiver essa iniciativa, não significa necessariamente desinteresse, mas, sim, desconhecimento e estranhamento da situação. A postura da futura mãe pode ser determinante neste momento”, explica Natércia.
Em casos de gravidez de risco, pode acontecer de o pai se calar para evitar ainda mais estresse para a mulher. “Os homens também se angustiam, têm medos e preocupações que precisam ser acolhidos. Ele não deveria ser coadjuvante em termos emocionais. É preciso cuidar do homem, para que ele possa se sentir realmente importante em todo o processo”, resume a psicóloga Eliane Rovigatti Gasparini, do IPGO – Instituto Paulista de Ginecologia, Obstetrícia e Medicina Reprodutiva de São Paulo. E isso vale para toda e qualquer gravidez.
10 coisas que mudam no homem durante a gravidez
1. Ele fica mal humorado
O auge dos sentimentos de estresse e ansiedade no homem costuma se dar por volta da 6ª até a 8ª semana de gestação, quando os hormônios dele começam a mudar. É comum que cada membro do casal vivencie a situação de maneira diferente. A assessora de eventos Karen Feldman Idelman, grávida de cinco meses, diz ter percebido que o marido, o fisioterapeuta Allon, ficou diferente: “Às vezes, ele fica muito carinhoso e meigo; outras, muito mal humorado. Ele ainda não se sente grávido… E nem sei se isso vai acontecer”, acredita. Já o futuro pai vê as coisas de outro modo: “Eu me senti grávido desde o início. Essa criança era muito desejada. A preocupação aumentou na questão de poder melhorar o padrão de vida para receber melhor a criança”, conta. Por mais que o casal divida as despesas, o homem ainda se sente provedor, talvez porque seu modelo de pai seja esse. “Meu marido trocou o carro por outro mais seguro e começou a guardar dinheiro para a educação do bebê”, conta a arquiteta Lilian Rizo, mãe de Raphael.
2. Ele entra na montanha-russa hormonal
Você achou que era exclusividade feminina.
“Esperava ter alterações de humor constantes, o que não aconteceu até o oitavo mês. Quem mais teve essas alterações foi ele”, conta uma mãe recente que preferiu não se identificar. As mudanças hormonais pelas quais a grávida passa fazem com que a mulher exale certos feromônios. Ao captá-los, o homem começa sua transformação em pai: seu nível de prolactina sobe, estimulando o lado paternal. Pesquisas mostram que pais recentes têm níveis mais baixos de testosterona e mais altos de prolactina e oxitocina, este último conhecido como hormônio do amor por facilitar a ligação com o bebê. Quanto mais tempo o pai passa com o filho, mais altos os níveis hormonais, pois acredita-se que o contato com o bebê tenha relação com as mudanças.
3. Ele tem alterações de peso
Isso acontece porque mudanças hormonais fazem com que ele se solidarize com você, sentindo-se grávido, mas também por aspectos emocionais. Alguns homens ficam ansiosos e comem mais. Outros resolvem adotar hábitos mais saudáveis, para acompanhar a mãe, mas também porque querem estar bem para receber o bebê e cuidar do filho. Foi o que aconteceu com o músico Guga Stroeter, pai de Dora: “Passei a me cuidar ainda melhor, com yoga e ginástica, seguindo as palavras de Duke Ellington: ‘É preciso ter saúde para podermos cuidar de quem gostamos mais do que de nós mesmos'”.
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4. Ele pode ficar enjoado
Em certos casos, a empatia em relação à companheira é tão intensa que ele pode sentir náuseas e até vomitar. “É uma tentativa de se aproximar fisicamente da experiência da gravidez, como se isso pudesse facilitar sua compreensão das intensas mudanças que estão por vir em sua vida, um modo de trazer a experiência para o plano físico e se sentir participando ainda mais. Em geral, na prática clínica, procuro escutar desses futuros pais o que seu corpo está tentando falar, quais são suas preocupações, porque está se expressando fisicamente, e não verbalmente, suas emoções”, conta a psicóloga Eliane Gasparini.
5. Ele fica com o bicho-carpinteiro
É provável que ele não se empolgue em montar o enxoval, mas talvez seja atacado pelo desejo de fazer o ninho para receber o rebento. E isso às vezes é bem literal. Pode pegar ferramentas e construir móveis, se tiver a habilidade. Ou ficar mais atento aos classificados de imóveis mais amplos e confortáveis, se o orçamento permitir. Enquanto as mulheres focam nas roupinhas que envolverão o filho, os homens se ligam em construção e equipamentos de todos os tipos, seja um novo carro para a família ou um carrinho de bebê off road. Quando “engravidou” de Pedro, o professor Maurício Teixeira estava construindo a casa. “O projeto mudou muito, o que era uma casa despojada, um galpão num terreno sem muros, virou uma casa mais tradicional”, conta.
6. Ele pode rever a carreira
Você esperava que ele chegasse mais cedo, mas o futuro pai passou até a fazer hora extra. Pode acontecer. Sob o peso das novas responsabilidades, querem mostrar serviço, galgar posições, ganhar mais. Agora, com o ingresso da mulher no mercado e o novo equilíbrio financeiro das famílias, outros resolvem rever as longas jornadas. “Sinto que nos últimos anos, o homem tem descoberto ganhos em ser não apenas o provedor financeiro, mas em se vincular realmente à família”, diz Natércia Tiba. Enquanto escrevia esta reportagem, encontrei um amigo que levava seu bebê num sling, bem tranquilo, durante um passeio. Ele me contou que emendou a licença-paternidade com as férias e não pensava em voltar ao trabalho. O plano era abrir uma loja de produtos ecologicamente corretos. E ficar mais com o filho.
7. O desejo sexual pode mudar
Grávidas podem não parecer os seres mais sexies do mundo. Ou podem. Tudo depende. Por um lado, o aumento de alguns hormônios pode baixar a libido e aumentar o desejo de estar próximo sem necessariamente transar. Por outro, os seios maiores e o fato de algumas mulheres passarem a ter orgasmos com mais facilidade, devido ao aumento de fluxo sanguíneo para os órgãos sexuais, podem acender o parceiro. Interferem também fatores psicológicos e culturais. “É comum que o homem se distancie por medo de prejudicar o bebê. Neste caso, é muito importante uma orientação do obstetra. Há questões emocionais relacionadas ao papel de mulher e papel de mãe. Há um peso sócio-cultural como se ‘ser mãe fosse algo sagrado’ e que, portanto, sexualizar esse momento seria um ‘pecado'”, diz Natércia. A empresária Lara Lins, mãe de Anna, ficou positivamente surpresa com o aumento de desejo do marido: “Felizmente, aconteceu comigo também. Imagino que o mais complicado seja quando um fica mais aceso e o outro perde a libido.”
8. Ele passa a ouvir melhor 
Talvez você ainda ache que ele não presta a atenção devida a quanto é fundamental que os culotes (o quê?) combinem com os bodies, mas a audição dele está ficando mais apurada. Como o bebê requer cuidado e atenção 24 horas, ele não pode dormir no ponto. Assim como você, ele vai estar preparado para ouvir quando o bebê chorar à noite. A audição da mãe ainda é mais apurada, mas a dele não estará muito atrás. Em tempos imemoriais, ouvir um predador que se aproximava era condição fundamental para sobrevivência da espécie. Nesse ponto, não mudamos muito. “Dispensei a babá eletrônica, pois era perfeitamente capaz de ouvir minha filha reclamando no quarto dela, quando acordava”, conta Dante, marido de Lara.
9. Ele entra em sintonia com o bebê
A gente sabe que mãe e bebê conectam-se tanto que são capazes de seguir no mesmo ritmo. O mesmo acontece com os homens a partir da combinação de hormônios, novos circuitos cerebrais e contato físico. “Para garantir que isso seja possível, as mães precisam dar espaço ao pai”, diz a Dra. Brizendine. Baixe a guarda e deixo-o a sós com o bebê. Os pais se comportam de maneira diferente (e de maneiras que são mais benéficas para a criança) quando a mãe não está por perto. Por isso, aproveite para descansar. Talvez seu marido resolva dar banho na criança no chuveiro em vez de usar a banheira anticólica comprada em Miami. Relaxe. Pode não parecer, mas ele sabe o que está fazendo.
10. Ele pode entrar em pânico
Pode. Veja o caso de Alex, personagem de Santoro no filme O que esperar Quando Você Está Esperando. O peso da responsabilidade, todas as mudanças, inclusive no casamento… Ser pai ou mãe requer preparo, maturidade, segurança, coisas que a gente um dia achou que teria 100%, sem espaço para dúvidas. Tenho três filhas e vou te contar um segredo: ter medo, dúvidas e insegurança faz parte de sermos humanos. E é isso que faz de nós os melhores pais e mães que podemos ser. Confie. Vai dar tudo certo.
O livro que deu origem ao filme
O que esperar quando você está esperando, de Arlene Eisenberg, Heidi Murkoff e Sandee Hathaway
Ed. Record (record.com.br) R$74,90
Entenda tudo o que acontece com você e o seu bebê a cada semana de gravidez, e enquanto isso, saiba o que é importante levar em conta ao escolher o obstetra e o tipo de parto, quais são os melhores exercícios para manter a forma e os melhores alimentos para cada mês. Se você estiver grávida de gêmeos, vai encontrar dicas aqui, assim como os futuros pais desesperados também podem contar uma ajudinha. O que esperar quando você está esperando não é o livro de gravidez mais vendido no mundo por acaso: ele é um verdadeiro guia prático e instrutivo sobre tudo o que acontecerá nos noves meses que vem por aí.
Blogs Paternos
A aventura de ser pai em um mundo
nerd. Tecnologia, cinema, televisão, cultura pop, culinária e todo o mundo nerd você encontra aqui.
Blog de Rafael Noris, pai solteiro de Miguel, blogueiro, analista de mídias sociais, poeta, vegetariano e faixa-branca de jiu-jítsu.
Do autor do livro de mesmo nome, Flavio Salles, que propõe uma reflexão sobre a figura paterna, a partir da vivência do autor como filho de um pai distante até a hora em que enfrenta, na própria pele, o desafio da paternidade.
Consultoria: Eliane V. Rovigatti Gasparini, psicóloga clínica, doutora e Mestre em Psicologia Clínica, Psicóloga do IPGO – Instituto Paulista de Ginecologia, Obstetrícia e Medicina Reprodutiva de São Paulo e da Clínica Dra. Daniella Castellotti, tel.: (11) 3051-8442 / (11) 3884-4273 e Natércia Tiba, psicóloga e psicoterapeuta de casais e de família. mãe de Eduardo e Ricardo, www.naterciatiba.com.br.