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Mãe sem roteiro

Minhas filhas têm a mim e eu a elas

Redação Pais&Filhos

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Quando nasce um bebê nasce também uma mãe. Verdade seja dita, por favor! Vamos tirar o band-aid! Não é isso que acontece!Por Natália Piassentini, mãe de Giulia e MariaPosso afirmar com total certeza de duas experiências distintas com a maternidade de que uma mãe vai se construindo aos poucos, se moldando, se transformando após a materialização do novo membro da família em seus braços. Aqui falarei da minha segunda gestação. Oito anos após a primeira gravidez, que não foi planejada e nada do que estava por vir foi planejado, deixo para um outro dia.

Um arrepio fino me sobe pelo ventre, eu sabia que estava grávida. Eu queria estar grávida.Planejei e vivi aquele momento em pleno estado de graça. Completamente submissa à maternidade em todos os sentidos, como se tudo fizesse sentido agora com esse tão esperado “positivo”. Alguns meses depois saímos da maternidade com as malas, o bebê e o bebê-conforto. A mala foi direto para o banco da frente do carro, e eu sabia que a partir daquele momento meu lugar não era mais ali. E assim o fiz, ajeitando a pequena no bebê-conforto e sentando ao seu lado no banco de trás. Surpreendente e surreal, e eu me sentia cheia de orgulho. Finalmente vamos para casa. E, então, quase chegando ao nosso destino pude sentir algo diferente irrompendo dentro de mim, como quando você sente a chuva cair no rosto após um ensurdecedor barulho de trovão, eu sabia que a insegurança e o medo que estavam fazendo meu coração acelerar. Engulo em seco e meu orgulho diminuto, me sentindo muito pequena: “E agora?”. Não sabia o que fazer. Por onde começar.

Tento invocar algo parecido com um primitivo instinto materno e suspiro fundo olhando para ela.“Não sei o que quero exatamente dizer, só sei que quero você na minha vida” – digo baixinho a ela tentando salvar o que sobrou da minha imagem de mulher forte e corajosa e me pergunto se não era apenas uma imagem.Havia uma sintonia entre nós, mas ao mesmo tempo uma ansiedade, uma expectativa tão profunda e, por mais que tivesse sonhado com este momento por tanto tempo, ele parecia tão distante, tão irreal que estava mais para uma necessidade do que realmente um desejo.A semente foi plantada. A culpa. E este sentimento apenas se intensificou com o passar do tempo. Foi então que eu percebi que não importa a ocasião, a época, o momento da sua vida em que as coisas acontecem, ela simplesmente existe naturalmente. Eu quis, pedi pro meu marido, disse que queria cuidar dela sozinha, apenas eu e ele, e não importa por que fiz isso, ou quais era as minhas intenções, apenas tenho total certeza do que queria: criar laços com ela. E parecia a coisa certa a se fazer e a mais natural. A tal resposta biológica, ou podemos dizer também, o instinto materno, vai chegando devagarinho, crescendo e se fortalecendo. Não queria um manual de instruções, não aguardava por um, mas, neste ponto, já sabia que não era apenas a nostalgia e a culpa que me mexiam por dentro. Estava com medo do fantasma da frustração de ter que voltar atrás na minha escolha. Nervos à flor da pele, mas uma emoção transbordante. Respirei fundo e mergulhei dando o melhor de mim. Uma batalha constante para estar no controle, chegar um nível acima, assegurar que a vida se mantenha em sintonia e cuidadosamente alinhada. E não importa o quanto você se esforce, sempre terá alguém que vai te criticar. E, no final das contas, é você com você mesma.Tudo aquilo que realmente vale a pena é difícil.Respiro fundo e faço a “pergunta de 1 milhão de dólares”: “Sou uma boa mãe?”Percebo uma estranha e coletiva onda. Quem nunca errou que atire a primeira pedra – Sr. Clichê!Sim! Eu confiei em mim mesma e então pincelei com alguns toques especiais os erros, as imperfeições. Eu nasci para ser mãe, com manual de instruções ou não, planejando ou não, com culpa ou não, certa ou errada. Elas têm a mim e eu a elas. E então tenho uma sensação engraçada no peito e então percebo o que é. É a sensação de saber onde mora o meu coração.E está é quem eu sou. É pegar ou largar.

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Natália Piassentini, mãe da Giulia e da Maria Clara, é autora dos blogs www.minhapequenamaria.comwww.roteirobabycampinas.com.br

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