Família

Entrevista com Melinda Blau

A jornalista e coautora de A Encantadora de Bebês é uma das queridinhas do mundo materno e virá pela primeira vez ao Brasil para o Seminário de Mães

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

A escritora norte-americana Melinda Blau é coautora da série best seller A Encantadora de Bebês. Ela é jornalista, assina colunas em jornais dos Estados Unidos e estará aqui no Brasil para nosso Primeiro Seminário de Mães em julho, como palestrante. Nesta entrevista, ela nos contou como seu livro pode ajudar as mães de primeira, segunda, terceira viagem a manterem uma vida familiar mais tranquila, sem abrir mão de um tempo só para elas. Seus livros, escritos em conjunto com Tracy Hogg, já foram traduzidos para vinte línguas. A gente foi conversar com a escritora, que tem o dom de encantar os bebês para saber de onde vêm todas essas ideias.

Na Pais&Filhos nós costumamos dizer que as mães não podem parar de pensar em si mesmas quando o bebê chega. No seu livro, você diz que seguindo o EASY – Eat, Activity, Sleep, You (em tradução livre comer, brincar, dormir e você), teremos tempo para nós. Por que esse tempo é tão importante?

Melinda Blau: Quando se viaja com uma criança, as companhias aéreas sempre advertem os pais para pegar a máscara de oxigênio primeiro para si quando houver uma emergência. Isso porque você precisa estar calma, forte e descansada para ajudar seus filhos. Isso é duas vezes verdade para mães de bebês e crianças pequenas. Esse é o motivo pelo qual aconselhamos as mães a dormirem enquanto seus bebês estão dormindo e a tirarem um tempo só para si mesmas. Com crianças de qualquer idade, as mães precisam fazer atividades que as façam felizes, não apenas a suas crianças.

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Rotina é importante para as crianças, mas algumas mães acreditam que a amamentação, por exemplo, deve acontecer sempre que a criança quiser. Você acha que nesses casos os pais podem sair da rotina estabelecida ou isso pode ser prejudicial?

MB: Todo mundo precisa de rotina. Tanto crianças quanto nós, adultos. Quando sabemos o que nos espera e a vida fica previsível em alguns pontos, é mais fácil de lidar com alguns desafios que vão aparecer. Quando falamos de rotina, não estamos falando de alguma coisa tão rígida. Nesse caso, a rotina é uma previsão: o bebê come, brinca ou faz outra atividade, dorme, e quando acorda o ciclo começa novamente. A rotina vai ajudar os bebês a estabelecerem bons hábitos alimentares e bons hábitos de sono. Na primeira infância principalmente, quando as crianças ainda não sabem a diferença entre dia e noite, ter uma rotina ajuda a entender quando é hora de dormir, quando é hora de brincar. A única hora que a amamentação pode acontecer quando o bebê quiser são os primeiros quatro dias, quando o leite da mãe está começando a vir. O bebê que mama no peito manda para o corpo da mãe a mensagem: “produza mais leite”. Depois desse período, dependendo do peso do bebê, alimente-o a cada duas, três horas. Alguns bebês entram nesse ciclo com mais facilidade que outros. É melhor ainda se o bebê é alimentado mais ou menos nos mesmos horários todos os dias. 

Como o dia a dia dos pais interfere na rotina das crianças?

MB: Para alguns adultos, tomar um cafezinho pela manhã faz parte da rotina. O objetivo é fazer com que a rotina do seu bebê se encaixe no resto da casa. No começo, conseguir isso é um desafio, porque os bebês precisam de muitos cuidados. Mas, seguindo as ideias do EASY, vai existir tempo para todo mundo. Claro, algumas vezes coisas inesperadas acontecem! Os pais ou a criança ficam doentes, os horários da escola ou do trabalho mudam, e outros eventos inesperados dentro ou fora de casa podem nos forçar a fazer ajustes. Se a rotina da casa é interrompida, por exemplo, o bebê pode ficar acordado a noite toda, ou vocês saem de viagem, e tudo o que você vai querer é voltar para casa o mais rápido possível. Isso pode levar alguns dias, e tudo bem. A vida com uma criança muitas vezes é imprevisível! 

Nós amamos as suas descrições sobre as personalidades dos bebês. Você pode nos falar um pouquinho mais sobre isso?

MB: Os cinco tipos que descrevemos são: “Anjo” (o temperamento mais fácil), o tipo “Agenda” (que faz a maioria das coisas no tempo certo e como esperado), “Sentido” (sensível e que se chateia com facilidade), “Aborrecido” (quer as coisas do jeito dele), e o “Animado” (muito ativo e curioso). Alguns bebês são a combinação de dois tipos. O temperamento afeta como bebês comem e dormem, e como eles reagem a estímulos (como barulhos, luz e movimentação) e novas situações. Temperamento é inato. Mas também é afetado pelo ambiente. Portanto, é importante aceitar o bebê que você tem e saber que ele vai levar um tempo para ficar confortável em uma nova situação. Se você tem um bebê mais mal-humorado, precisa ter cuidado ao alterar uma atividade. Se você tem uma criança animada, vai querer envolvê-la em atividades que permitem muita movimentação, em vez de forçá-la a ficar sentada.

Você fala sobre oito regras básicas para crianças brincarem. Parece ser exatamente assim, mas os pais podem interferir na brincadeira ou é melhor esperar outro momento para ter essa conversa?

MB: Crianças pequenas normalmente parecem difíceis, porque estão descobrindo o que é ser independente. Também, quando uma criança quer algo, na mente dela, ela é a única no mundo. Seu filho ainda não aprendeu a compartilhar, então é tudo dele. Você não precisa esperar até que ele se acalme ou se sinta disposto a compartilhar. Comece o quanto antes, aos 6 meses de idade a ajudá-lo a lidar com suas emoções, a esperar a vez dele e a saber que os sentimentos de outras pessoas importam. Nós usamos a sigla FIT (Feeling, Intervening and Telling – em tradução livre Sentimentos, Intervenção e Contação) como uma forma de lembrar os pais que eles devem guiar gentilmente as crianças durante a infância:> Sentimentos: Reconhecendo suas emoções;> Intervenção: Impedindo comportamentos indesejados, como mordidas, empurrões ou pegar o brinquedo de outra criança;> Contação: O que você espera e o que seu filho pode fazer em determinado lugar.

Os livros são mesmo manuais de instrução sobre como ser uma boa mãe? Como as mulheres podem equilibrar o instinto materno e seus apontamentos no livro?

MB: Nossos livros têm muita compaixão com mães e bebês. Não acreditamos em um modelo único de cuidar de crianças ou de maternidade. Não há fórmula para ser uma boa mãe. Isso depende da própria mãe e da criança que ela tem. As mulheres de hoje estão sob muita pressão para serem perfeitas e terem filhos perfeitos. Isso não existe. Uma “boa” mãe é quem conhece seu filho, seus pontos fortes e vulnerabilidades, que é calma e carinhosa e que “ensina” por suas próprias ações. Portanto, nossos livros estimulam mães (e pais) a conhecer seus bebês e ajudá-los a aprender como observar e realmente estar em sintonia com eles. Também acreditamos que muitos livros e artigos sobre como pais devem ser têm deixado mães menos confiantes sobre suas próprias habilidades. Ser uma boa mãe é sinônimo de resolução de problemas: ver o que está a sua frente e usar o melhor julgamento naquele momento. Os livros da série a A Encantadora de Bebês auxiliam as mães a aprender a coletar informações que podem ajudá-las a fazer boas escolhas. Elas sabem o que é melhor para seus filhos, e nós queremos que elas confiem em si mesmas.

E esse tipo de conselho que você dá parece ser universal, eles são úteis em diversos países… 

MB: Nossos livros foram traduzidos em mais de 20 línguas e são populares pelo mundo todo. Certamente, diferentes culturas têm diferentes ideias sobre as crianças: quando elas devem ser amamentadas com leite materno ou fórmulas, quanto de liberdade elas podem ter e em que idade, como eles devem se comportar perto de adultos e de outras crianças. No entanto, todos os pais querem o melhor para seus filhos e isso acontece quando conhecem seus próprios filhos. Nossos livros não dão uma receita pronta para educar crianças. Eles só ajudam a entender melhor a criança que você tem. 

Mas quando falamos sobre vida familiar: você acha que é melhor reprogramá-la de acordo com a demanda dessa criança ou o ideal é tentar manter a rotina do mesmo jeito que era antes de a criança chegar?

MB: Uma vez que você tem um filho, a vida muda para sempre! Antes, vocês formavam um casal, agora são uma família. Vocês precisam levar em conta as necessidades da criança, mas também precisam honrar as necessidades dos adultos. Precisa haver uma balança, um equilíbrio. Se a família gira em torno apenas das necessidades da criança, as necessidades dos adultos – tanto as individuais quanto as do casal – não serão atendidas e a relação da mãe e do pai vai sofrer. Uma família forte precisa que todos os membros sejam fortes, não só as crianças. E claro que o inverso também é verdadeiro: não é bom ignorar as necessidades da criança. Em uma família bem estruturada, existe um equilíbrio entre as necessidades individuais de cada um e o cuidado com o “nós”, a família como um todo.

Nos seus livros, dá para notar que mães e pais devem manter o foco nos seus filhos. Mas como eles podem continuar trabalhando, saindo, namorando, enfim, fazendo as coisas que já faziam antes sem descuidar das crianças?

MB: Desde o primeiro livro da série A Encantadora de Bebês, nós falamos da abordagem para toda a família. É claro que é importante que os pais tomem conta e protejam seus filhos sempre. Mas eles também precisam tomar conta de si mesmos e do relacionamento enquanto casal. Isso nos leva de volta para a lógica do “pegue a máscara de oxigênio primeiro para você”. Uma família bem estruturada tem pais fortes que sabem que, para cuidar bem de seus filhos, eles precisam cuidar bem de si mesmos. E uma das razões pela qual Tracy e eu sentimos que era importante escrever um livro sobre a família é que ser pai ou mãe nos dias de hoje é algo muito focado nos filhos. E isso não é bom nem para a criança nem para os pais. 

Para a Pais&Filhos, família é tudo. E para você? 

MB: Família é um laboratório para a vida. É onde experimentamos pela primeira vez o que significa estar em um relacionamento, colaborar, planejar e resolver problemas. E existe lugar melhor para aprender, do que em casa, com adultos e crianças que se amam?