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Preste atenção no câncer infantil

Redação Pais&Filhos

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O câncer infantil corresponde a 2% de todos os tipos de câncer. Não tem prevenção e aparece meio sem explicação. Os sintomas podem passar despercebidos e o tumor cresce no ritmo da criança, ou seja, rápido. O que você pode fazer? Preste atenção!

Por Mariana Setubal, filha de Cidinha e Paulo

Não fica preocupada, mãe, meu cabelo vai crescer de novo, dizia Julia à mãe, Rosemeire, que chorava ao ver os efeitos da quimioterapia na filha de 4 anos. Hoje, um ano depois, Julinha voltou para Guararapes, sua cidade natal, e vai para a escolinha de chapéu, enquanto o cabelo está crescendo. Do tumor que tinha, a única sequela que carrega é a cicatriz no pescoço.

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Julia teve um Sarcoma de Ewing na nuca (um tipo de tumor ósseo), que descobriu depois de sentir dores intensas na região e formigamento nas mãos, e depois de passar por quatro médicos em três cidades diferentes. O quarto diagnosticou o tumor e a encaminhou para o Graacc, Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer, em São Paulo, já que a família de Julia não tinha recursos para a cirurgia.

Lá, fez os exames, a cirurgia e o tratamento com quimioterapia e radioterapia. Tudo sem pagar nada. A ONG conta com receitas hospitalares do SUS e doações de pessoas e de empresas e ações como o McDia Feliz.

Geralmente, a gente associa o câncer a uma doença de adulto, mas ele acomete mais crianças do que a gente imagina. Cerca de uma em 10.000 crianças no Brasil tem câncer, e a maioria acontece entre os 3 e 5 anos de idade. A boa notícia é que nos pequenos a chance de cura é maior, chegando a 70% dos casos. Mas tudo depende de um diagnóstico precoce. É aí que entra o maior problema: a dificuldade de reconhecer o câncer infantil, já que a maioria dos sintomas é semelhante a problemas normais de crianças, como febre, dor de dente, dor de barriga, dor de cabeça… O jeito é prestar muita atenção e correr ao médico se não melhorar dentro de duas semanas.

Na maioria das vezes, o câncer infantil não tem relação com hereditariedade e aparece depois do nascimento: é um erro que acontece durante a divisão das células no crescimento. Ou seja, por causas genéticas, as células começam a se dividir muito rapidamente e o tumor cresce junto com a criança, num ritmo mais acelerado que o câncer de adulto. Por isso, o tratamento costuma ser mais intensivo do que no adulto.
A criança pode passar por quimioterapia, que é feita com remédios ou por via intravenosa; radioterapia, em que é aplicada a radiação para destruir as células tumorais; e cirurgia, para retirar o tumor. Às vezes, os três tipos de tratamento são necessários, como no caso de Julia. Quando é leucemia, um dos tipos de câncer infantil mais comuns, pode ser necessário o transplante de medula óssea. A medula pode ser da própria pessoa (transplante autólogo), de um parente ou de um doador voluntário compatível, registrado no Redome (Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea).

Durante a quimioterapia, o efeito colateral mais conhecido é a queda de cabelos, mas também acontecem náuseas e vômitos, dores e quedas nas defesas do corpo, aumentando a chance de infecções.
A criança pode ficar internada ou apenas frequentar o hospital durante o dia, dependendo do caso. “Antigamente, câncer significava morte certa.

Depois, tentava-se curar a qualquer preço. Hoje, a gente acha que curar não é o suficiente, precisa curar com qualidade de vida, inserção social, tratamento humanizado. A gente faz muito a desospitalização; o grosso do tratamento é feito no hospital-dia”, explica o Dr Sérgio Petrilli, pai de Renata e Marcelo, fundador do Graacc e chefe do setor de Oncologia do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina. O Graacc tem, inclusive, uma Casa de Apoio que abriga as crianças e familiares que não moram em São Paulo e precisam permanecer na cidade durante o tratamento, que leva de seis meses a dois anos, conforme o tipo de câncer. É a Casa Ronald McDonald, que oferece suítes onde as crianças ficam hospedadas com as mães, além de ter biblioteca, brinquedoteca, computador com internet, palestras, passeios e cursos. E quando as crianças vão para o hospital do Graacc fazer as sessões de quimioterapia, podem levar brinquedos ou aproveitar a infraestrutura oferecida, seja na Quimioteca, onde recebem a medicação e ficam sob supervisão num espaço todo colorido e cheio de brinquedos, seja na brinquedoteca, que frequentam antes de serem atendidas ou nos intervalos entre as medicações, onde podem jogar videogame, ler, assistir a filmes, brincar e pintar, enquanto as mães aprendem a fazer bordado, tricô e patchwork.

Como algumas crianças chegam a ficar dois anos em tratamento e, portanto, sem ir à escola, existe um projeto chamado Escola Móvel, em que um grupo de professores e voluntários monta um plano de estudos para cada criança do hospital, dando aulas individuais diariamente e seguindo o currículo da escola da criança, pra que ela não fique pra trás em relação aos outros alunos.

Mesmo após o fim do tratamento, existe um período de acompanhamento que leva em torno de cinco anos. Entre as sequelas, estão a possível esterilidade masculina, prejuízo no crescimento das áreas afetadas pela radioterapia e 6% de chance de aparecer um novo tipo de câncer na vida adulta.

A mãe de Julia sempre contou para a menina o que estava acontecendo, e a pequena tirou de letra. Não achava feio ficar careca e toda vez que via alguma criança no hospital chorando, consolava: “não dói nada”. Hoje, os médicos procuram desmistificar a doença, e as crianças são especialistas nisso, é só deixar com elas. “Ela acabava dando ânimo pra gente. É uma lição de vida”, diz a mãe, emocionada.

Como reconhecer o câncer infantil

Leucemias
Febre inexplicável, palidez, manchas roxas sem explicação, dores ósseas e articulares, nódulos no pescoço de tamanho crescente

Tumores de sistema nervoso central
Dores de cabeça intensas, vômitos inexplicáveis e matutinos, aumento da cabeça, olhar permanentemente desviado em uma direção, convulsões.

Tumores abdominais
Massa sólida palpável no abdome,
urina com sangue, emagrecimento exagerado, dores pelo corpo.

Linfomas
Grandes tumores abdominais, inchaço do pescoço acompanhado de falta de ar, aumento de nódulos principalmente cervicais e de grande tamanho.

Tumores ósseos
Aumento de volume do membro, dor intensa

Outros sinais
Alterações de órgãos genitais com puberdade precoce ou virilização, estrabismo, globo ocular inflado, aumento de volume de qualquer parte do corpo.

Como ajudar?

– Doar sangue: você precisa ter entre 18 e 65 anos, pesar mais de 50kg e estar em boas condições de saúde. Há vários postos de coleta de sangue no Brasil. Procure o hemocentro da sua cidade ou, se estiver em São Paulo, procure a Associação Beneficente de Coleta de Sangue. www.colsan.org.br
– Doar medula óssea: você precisa ter entre 18 e 55 anos e estar em boas condições de saúde. Primeiro, será retirada uma pequena quantidade de sangue e será feito um cadastro com seus dados. Se aparecer um paciente compatível, você será consultado para doar
a medula. No site do INCA, há uma lista
com os locais de doação: www.inca.gov.br
– Ser voluntário: há várias áreas de voluntariado no Graacc, basta entrar no site e se cadastrar. www.graacc.org.br
– Doar dinheiro: a sua doação pode ser feita uma vez só, no valor que desejar, ou mensalmente com o mesmo valor. Tudo por meio do site do Graacc.

Sou fã de criança

Criada em 2010, a marca Sou Fã de Criança procura divulgar o combate ao câncer infantil e a importância do diagnóstico precoce. Além da visibilidade que a marca criou para a causa, vestindo várias celebridades com a camisa, a campanha realizou parcerias com várias empresas, que fazem produtos com a marca e destinam parte da renda ao Graacc. Em junho, a Pais & Filhos participou da Casa Cor Kids, evento de decoração em São Paulo, e levou uma máquina de fotos instantâneas com a marca Sou Fã de Criança para o público fotografar e montar uma capa da revista. Então, se você também é fã, procure esta mãozinha na hora de fazer suas compras.

Consultoria: Célia Beatriz Cantoneli, mãe de Ricardo e Osvaldo, é oncologista pediátrica do Hospital Santa Catarina  Paulo Maluf, pai de henrique e felipe, é oncologista pediátrico do Hospital Sírio-Libanês  Sergio Petrilli, pai de Renata e Marcelo, é diretor técnico do Instituto de Oncologia e professor livre-docente da Escola Paulista de Medicina.

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