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Depoimento Fernanda Santos

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

31/01/2013

Fernanda Santos, 32, mãe da Clara, 6 meses.

“Contra todas as probabilidades, tive placenta baixa (placenta prévia) durante toda a minha gestação. A cada ultrassom torcíamos para que a placenta subisse um pouquinho, mas não foi isso o que aconteceu. Já havia conversado bastante com meu obstetra sobre as complicações que esta condição poderia me trazer, e uma delas seria que obrigatoriamente meu parto teria que ser cesárea. Nunca fui muito corajosa e meu nível de tolerância à dor é muito baixo, então realizar a cesárea não foi um problema ou algo com que eu tivesse pensado muito ou lido a respeito, e gastei toda minha cota de preocupação com as "outras complicações".

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Tive uma gestação tranquila, com algumas restrições, claro, mas tudo muito bem de forma geral. Acabamos marcando o parto para o dia 03/08. No dia 12/07/12, com 35 semanas e 6 dias de gestação, tive um dia bastante normal. Trabalhei de casa (havia trabalhado de casa todos os dias daquela semana), fiz um ultrassom de rotina no final do dia – tudo certo, a bebê amassada, mas superativa, todos os indicadores normais -, jantei com o maridão, trabalhei mais um pouco no computador e, por volta das 23h, fui me deitar.

Acordei de madrugada para fazer xixi, olhei no relógio, 2h14 da madrugada. O xixi parecia que não ia acabar mais, achei estranho. Quando me levantei, percebi que estava com um sangramento muito intenso, muito mesmo! Gritei pelo meu marido, o sangue continuava, ligamos para o meu médico que me orientou a ir até a maternidade combinada. Foram 20 minutos até chegar ao hospital, que pareceram uma eternidade. Nunca senti tanto medo em toda minha vida. Medo pela vida da minha bebê. Medo pela minha vida. Sabia desde o começo que aquilo poderia acontecer, mas entre imaginar que algo possa acontecer, e algo realmente acontecer, tem uma diferença enorme!

Chegamos ao hospital e fui rapidamente atendida. Estava muito assustada com tudo o que estava ouvindo dos médicos e enfermeiras: minha bolsa havia estourado, já estava com contrações, em trabalho de parto, seria um parto de emergência, minha bebê iria nascer em 20 minutos! Meu médico já havia chegado ao hospital também e chorei muito ao vê-lo no centro cirúrgico. Apesar de todos no hospital terem me apoiado o tempo todo, ao ver o rosto conhecido e sempre carinhoso do meu médico, me fez ficar ainda mais manhosa. E ao mesmo tempo, nervosa! Porque foi neste minuto que eu me toquei que não havia conversado ainda com ele sobre a cesárea! Sobre a anestesia! Sobre o pós parto! Falaríamos disso nas próximas consultas, mas minha bebê resolver adiantar e este papo nunca aconteceu.

Senti dor na aplicação da anestesia, e fiquei muito nervosa achando que a anestesia ainda não tinha feito efeito, fiquei tagarelando sem parar sobre isso. Claro que a anestesia havia tido o efeito esperado e eu não senti nada. O parto foi muito rápido, minha bebê era linda e saudável, que emoção indescritível ao vê-la pela primeira vez: aquele então era o rostinho da minha amiga e companheira de tantos meses! E ela era minha! Nasceu a bebê! Nasceu a mãe!

Mas então, sou "puxada" de volta para a realidade. Levam a bebê de mim, para todos os procedimentos de rotina, e lá fico eu, sozinha, esperando tudo terminar. Fico meio grogue, vou para uma sala de recuperação, apago. Acordo, estou sendo levada para o quarto, já começo a sentir dor. Depois, mais dor. Muita dor. Tomo todos os remédios prescritos pelo meu médico para controlar aquela dor, nada resolve. Durmo todos os dias na poltrona de amamentação, que é reclinável, só para não ter que me levantar da cama. Choro de dor. Dói muito mesmo, e não é frescura e nem manha. Dói demais.

Tivemos alta, voltamos para casa. O marido, que fincou o pé do meu lado o tempo todo, teve mais trabalho, coitado. Uma bebê recém nascida em casa, uma esposa toda chorona, cheia de dor, que não conseguia ajudar muito nos primeiros dias (sobrou para ele dar banho, trocar fraldas, trazer a bebê para ser alimentada). Depois de 15 dias em casa, comecei a ter esperança de que a dor fosse passar. E não é que, enfim, ela passou?!

Todo mundo me diz: "daqui a pouco você nem vai se lembrar da dor e vai ter outro filho." Sinceramente, não vou me esquecer da dor. Esta dor me trouxe o meu amor maior e a razão da minha existência a partir de agora. Mas depois de 6 meses, a dor continua bem viva na minha memória. E não quero senti-la de novo".

 

 

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