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Cama compartilhada

Em 1968, dormir de bobes podia acabar com o casamento. Hoje, o casal leva para cama outras coisas que podem esfriar a relação

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Helena arranjou um namorado: Marcelo. O namoro acabou ficando sério e os dois, se casando, um ano depois. Durante esse tempo ela foi uma namorada perfeita. Mas, agora, depois de casados, as coisas mudaram muito. Helena engordou, vive sufocada pelos problemas domésticos e se descuida cada vez mais de sua aparência. Resultado: Marcelo anda atencioso demais com a secretária. E isso porque Helena, como muitas, não compreendeu que a sedução deve continuar mesmo após o casamento. Espera o marido sempre com o cabelo enrolado. Marcelo tem 40 anos. De casado, 15. Os célebres problemas domésticos acabaram por envolvê-la inteiramente. Marcelo apaga o cigarro, e vê que Helena dorme. De rolinhos no cabelo.”

Escrita há 45 anos, a reportagem da Pais & Filhos fala do fim do clima de sedução entre marido e mulher. Na época, já acreditávamos que precisa existir vida além dos filhos. Mas, em 1968, em plena revolução sexual, a família tradicional ainda era a norma. Com 40 anos, Marcelo já estava casado havia 15, desde os 25. Hoje, segundo dados do IBGE, a idade média dos homens ao casar no Brasil é de 28 anos e a ds mulheres, 26. Mas muitos se casam bem mais tarde, e 56,5% dos casais se separam antes de chegar à marca atingida por Marcelo e Helena.

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O desejo de união permanece. O que mudou foram os homens e as mulheres. “A mulher conquistou sua independência, mas o preço emocional foi e continua sendo alto”, constata a psicóloga Eliane Rovigatti Gasparini, do IPGO (Instituto Paulista de Ginecologia, Obstetrícia e Medicina Reprodutiva de São Paulo), filha de Vanderlei e Maria Regina. A situação piorou? Nem tanto. Hoje, as mulheres não precisam se casar para ter uma vida sexual ativa e ganharam espaço no mercado de trabalho – representam 45,4% da mão de obra no Brasil.

Apesar das mudanças, para o blogueiro Renato Kaufmann, do blog Diário de um Grávido e pai de Lucia, os rolinhos são uma ótima metáfora ainda. “É necessário continuar conquistando e não dar o outro por garantido. O verdadeiro rolinho dos dias de hoje é reclamar e estar sempre insatisfeita, um banho de água fria pra relação”, diz.

Para a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, hoje, a falta de desejo no casamento é o maior problema enfrentado pelos casais. “E não tem nada a ver com o fato da mulher usar rolinhos na cabeça. É muito maior o número de mulheres que perdem o desejo pelo marido do que o contrário. Para cada marido que perde o tesão pela esposa, há quatro mulheres que perdem o tesão pelo marido”, diz a autora de A Cama na Varanda. Hoje não poucos encontram válvulas de escape, mergulhando de cabeça no mundo virtual.

Interesses, amizades e até paqueras virtuais podem ou não ir além da fantasia. Mesmo que isso não aconteça, levar o tablet ou o smartphone pra cama não é boa ideia. “Celular e redes sociais podem causar um grande afastamento, porque a mulher acaba criando um mundo de contato e interesse alheio ao marido, e ele se sente excluído da vida dela”, diz Natércia Tiba, psicóloga e psicoterapeuta de casais e de família, mãe de Eduardo e Ricardo.

A empresária Luna Alves, mãe de Anna, confessa que não é incomum que ela e o marido se deitem na cama cada um acompanhado do seu iPhone. “Ficamos checando e-mail, Facebook, continuamos em contato com o mundo lá fora quando deveríamos estar concentrados na nossa relação. Já reencontrei namorados da época de faculdade e deixei o flerte rolar, mesmo não tendo levado nada para o mundo real”, admite.

Dona de opiniões polêmicas, Regina Navarro Lins acredita que o grande vilão da história é a exigência de exclusividade. Se em 1968, muitos defendiam o amor livre, hoje a fidelidade é um valor pouco questionado. A maioria considera uma paquera virtual traição. Segundo pesquisa feita por um site de relacionamento, essa é a opinião de 66% dos entrevistados. “Uma relação estável favorece muito a dependência emocional entre os envolvidos. Se você tem certeza de que o outro, por depender de você, tem medo de te perder, e por isso não tem vida própria, jamais transaria com outra pessoa, você vai se desinteressando sexualmente. Não há sedução, não há conquista, não há o mínimo de insegurança necessária para que o tesão continue após anos de convivência”, diz.

Para a psicóloga Alina Purvinis, mãe de Larissa, Liana e Letícia, a falta de cuidados com a aparência já não é mais o que afasta os cônjuges. “Hoje há uma preocupação grande com a forma, mas muito mais para se sentir contente com a própria imagem, para mostrá-la nas redes sociais do que para seduzir o companheiro”, diz.

O fato de investir na carreira interfere por causa da exaustão depois de um dia de trabalho que costuma continuar em casa, atendendo o chefe no celular e resolvendo tarefas por e-mail. “A sexualidade e o relacionamento ficam em segundo plano”, diz Alina. A pequena empresária Daniela Costa, mãe de Álvaro e Regina, se reconhece nesse cenário: “O cansaço vence. Não sinto desejo. Acho que a gente não precisa estar presente apenas fisicamente, mas também estar ali de verdade. E isso me deixa muito culpada”, conta.

Já Maristela Silva, mãe de Alissa e Francisco, encontrou um jeito de resolver a questão: “Transferimos nosso ‘ninho de amor’ para o chuveiro. Podemos namorar durante o banho sem medo que as crianças nos escutem ou vejam – é preciso apenas tomar o cuidado de trancar a porta”, conta.

Além do cansaço, a autoexigência em relação aos cuidados com os filhos pesa. Alina conta a história de um casal em que o marido queria fazer um programa a dois. A mulher disse que não iria porque não queria deixar os filhos com outras pessoas. Se reconheceu na cena? Pois é.

“Esse marido dizia que a mulher só se preocupava com os filhos”, explica. O homem pode acabar desistindo de cobrar o seu espaço. E quem ganha com isso? Não você. Nem os filhos, que precisam entender que a mãe também é mulher, que se apaixonou pelo homem que depois se tornou pai deles. E que esse casal tem um espaço que não pode ser invadido pelas crianças.

Quando não são os smartphones, podem ser os filhos. “É comum que crianças já grandes venham dormir na cama do casal”, relata Alina. Com o filho no meio, a vida sexual fica pra escanteio, a criança ocupa um lugar que não é dela. A culpa é da mãe? Não só. Os dois contribuem para que isso aconteça. “Muitas vezes a mulher quer controlar tudo, não dando espaço para o homem exercer o seu papel de pai e de marido, mas o homem também se acomoda e abre mão. Fica faltando a função paterna. A criança precisa sentir que tem aquele limite, que não pode dormir eternamente na cama dos pais, que tem o quarto dela e que os pais têm a privacidade deles”, afirma.

Pior ainda quando o marido, além de não assumir a função de pai, ainda quer disputar o lugar que cabe aos filhos. “Quando isso acontece, perde o encanto, a vida sexual esfria, o homem deixa de ser aquele que a mulher admira e por quem gosta de se sentir protegida quando está fragilizada. Pode parecer paradoxal querer um homem forte quando a bandeira da autonomia está sendo hasteada, mas é esse mesmo o desafio”, diz Natércia Tiba.

Filhos no meio

 A psicóloga Eliane diz observar na prática clínica que essa redefinição de papéis provocou um conflito que pode atrapalhar a relação com os filhos e o marido. “Da mulher espera-se que seja boa dona de casa, mãe dedicada, disponível e atraente ao marido e bem-humorada, de preferência”, resume. Fácil, não? Na teoria, sabemos ser impossível, mas, na prática, nos achamos na obrigação de tentar. E quando não dá, vem a frustração.

Se até pouco tempo esse sentimento era “privilégio” das mulheres, as mudanças que levaram o homem a se envolver nos cuidados com os filhos começam a ter impacto sobre eles. Hoje os   pais são dedicados, porém muitos se angustiam sem saber como dividir seu tempo entre trabalho e casa. Como nós. O resultado é que levamos essas preocupações para a cama, e a sedução perde terreno. “Para se sentir atraente é preciso sentir-se bem consigo mesmo. E com esse padrão de exigências tudo fica muito mais difícil”, conclui Eliane. As mães não conseguem dizer abertamente que se sentem cansadas, sugadas e até decepcionadas com algum aspecto da maternidade. Se, em 1968, os jovens gritavam que era proibido proibir, hoje é proibido sentir tais emoções. Falar sobre esses sentimentos parece tão impossível, que Eliane diz precisar “sussurrar” no consultório sobre eles. “Percebo como essas mulheres ficam aliviadas quando ouvem que é normal ter cansaço e ter saudades dos tempos de solteira e de namoro.”

Na matéria de 1968, a culpa pelo afastamento é colocada no excesso de intimidade. Natércia discorda da tese. Para ela, a construção da intimidade inclui essa perda de cerimônia, que pode, sim, tirar o encanto em alguns momentos, mas o vínculo se apoia em pontos muito mais relevantes. “Podemos evitar os rolinhos, mas não o envelhecimento, e, se a relação estiver apoiada na aparência, envelhecer juntos pode ser um desafio. Há gestos que demonstram muito mais o amor do que a preocupação em estar sempre bonita”.

Mandamos para o blogueiro Renato Kaufmann a reportagem “Helena Dorme de Rolinhos no Cabelo” e perguntamos o que ele achou mais descabido. “O comercial que diz que dar um ferro de passar pra sua esposa é uma prova de amor.” Ainda bem que isso mudou.

Para tirar os rolinhos do cabelo 

A psicóloga e terapeuta de casais Alina Purvinis recomenda cultivar o desejo

  • Tire um dia por semana para um programa sem as crianças: pode ser jantar fora, ir ao cinema, passear naquela praia que vocês frequentavam quando namorados…
  • Se você não tem babá, apele para os avós, uma tia, uma amiga ou mesmo uma baby sitter de confiança. Uma semana tem 168 horas, não serão essas 2 ou 3 horas longe de você que prejudicarão as crianças. Ou os avós.
  • Durante esse dia, pense na roupa que vai usar, na comida diferente, na noite a dois que vai acontecer. E no sexo, sim. O desejo precisa ser alimentado e fantasiar é fundamental.
  • Namore seu marido sem culpa. Para as crianças é fundamental saber que sua mãe também é mulher.

 

Consultoria:
Alina Purvinis, psicóloga, coordenadora do Núcleo Gestalt de Terapia Integrada, tel.: (19) 32511200, www.nucleogestalt.com.br; Eliane Rovigatti, psicóloga do IPGO – Instituto Paulista de Ginecologia, Obstetrícia e Medicina Reprodutiva de São Paulo; Natércia Tiba, psicóloga e psicoterapeuta de casais e de família, autora de Mulher Sem Script, www.naterciatiba.com.br;  Regina Navarro Lins, psicanalista e escritora, autora de 11 livros, entre eles A Cama na Varanda O Livro do Amor.

 

Livros que podem  ajudar

  

Como Reinventar o Casamento Quando os Filhos Nascem, de Gary Chapman

Ainda que o casamento já esteja razoavelmente consolidado, quando o primeiro filho chega, parece que o casal precisa começar do zero, novamente. Novos papéis e novas prioridades são um duro teste para a solidez do relacionamento.

Ed. Mundo Cristão (mundocristao.com.br), R$ 16,90

 

Mulher sem Script, de Natércia Tiba

Neste livro de crônicas, Natércia fala sobre as transformações que o papel da mulher sofreu nas últimas décadas. A obra não traz soluções nem receitas, mas compartilha reflexões não apenas da psicóloga, mas também da mulher, mãe, esposa, filha e irmã.

Ed. Integrare (integrareeditora.com.br), R$ 35

 

A Cama na Varanda, de Regina Navarro Lins

O que mudou na vida sexual e amorosa do brasileiro em uma década? Regina acrescentou um capítulo ao livro sobre as novas formas de amar e afirma que o fim do amor romântico está levando junto a exclusividade nas relações.

Ed. Best Seller (record.com.br), R$ 44,90

 

Love in the Time of Colic – The New Parents’ Guide to Getting It On Again, de Ian Kerner e Heidi Raykeil

Você é parte do grupo sem sono e sem sexo desde que seu filho nasceu? Se tem mais vontade de ir pra cama para dormir do que com seu parceiro, com certeza.

Ed. William Morrow, US$ 16,99  na amazon.com

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A Pais & Filhos número 4 foi publicada em dezembro de 1968. Você tem alguma edição anterior a 2003? Fale com a gente no e-mail revista@revistapaisefilhos.com.br

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