Família

Tudo família

Ariane é filha única, no sentido biológico, mas tem duas irmãs de coração

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

“Ela nunca foi postiça. O termo ‘irmã postiça’ faz com que essa relação pareça algo falso que pode ser desfeito a qualquer momento. Não pode. No documento, somos tia-sobrinha, mas isso nunca aconteceu. Com pouco mais de 2 anos de diferença entre nós, sempre moramos na mesma casa. Dividimos, durante 19 anos, o mesmo quarto, às vezes a mesma cama.

Dividimos também as brigas, que eram muitas! Mais uma garantia de que de tia e sobrinha não tínhamos nada, mas de irmãs, tudo. Com ela, aprendi a ouvir música boa, a dar resposta pras pessoas que gostavam de pentelhar na escola, aprendi a passar a tarde deitada no sofá assistindo a um programa qualquer na TV, comendo salgadinho barato e brincando de um jogo que chamávamos de pé contra pé. Aprendi a dividir, a ser irmã mais nova mesmo quando era filha única.

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Passávamos as tardes depois da escola em casa, brincando e brigando. Quando uma ia tomar banho, a outra corria atrás pra aproveitar e contar coisas engraçadas daquele dia. Saíamos do banheiro rindo e assim ficávamos até a minha vó e sua mãe chegar e brigar porque a ‘risadaiada’- palavra que ela usava aos montes – estava alta demais. Nossa relação de irmãs nunca foi escrita, não está nem estará no papel, e só era questionada por nós quando alguém vinha com sede de dicionarizar nossas vidas. ‘Vocês são o quê?’, nos perguntavam. A confusão era tão grande que a resposta nunca era a mesma: ‘tia, sobrinha, amiga, irmã, prima, família’.

Depois de anos entre ‘briga e faz as pazes’, mudei de casa. Foi tão estranho não ter com quem confidenciar coisas à toa. E, então, eu, que não havia me acostumado com o cargo de filha única, ganhei uma nova irmã, também postiça. Minha mãe se casou com meu padrasto e, junto com esse relacionamento, veio uma nova configuração familiar. Eu, minha mãe, meu padrasto e sua filha, Bi, passamos a dividir o mesmo teto. Eu e a Bi não tivemos as batalhas de pé contra pé, mas aprendi outras coisas mais. Passamos juntas pelas crises pré-faculdade, fizemos a matrícula e tomamos trote juntas. As roupas passaram a ser compartilhadas, assim como as histórias que cada uma trazia nessa nova vida em que uma conhecia a outra. Com ela, aprendi a conviver todo dia com o diferente, aprendi que família não tem nada a ver com sobrenomes iguais, mas tem tudo a ver com a origem da palavra, familiaridade, intimidade.  Foi então que tive de me despedir também dela. Lembro-me do dia em que acordamos cedo, acho que nenhuma de nós dormiu bem naquela noite, nos abraçamos e choramos de saudades antecipadas pelo próximo ano em que ficaríamos distantes, ela estava indo morar em outro país.

Hoje, a irmã mais velha tem um filho que também de primo não tem nada – é o orgulho da tia babona aqui. E apesar de não morarmos mais juntas, sempre que dá, passo por lá pra matar as saudades dos dois. Já a Bi voltou de viagem, está se formando na faculdade e voltou a morar em casa. E se tive algo de ruim em agregar e ser agregada ao cargo de irmã acho que foram esses períodos em que me distanciei das duas. Quanto mais você gosta e é gostado, mais falta fazem as coisas boas. De resto, até as pentelhações tiveram seus fins positivos – outras nem fim tiveram, vez ou outra nos metemos em algumas brigas que acabam naquela longa risadaiada.”