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O dia longo

Nossa colunista Tatiana Schunck resume um dia de mãe com sangue, suor e lágrimas

O dia muito bem mais maior grande longo. Trabalhar com um bebê? Sair de casa com um bebê? Trânsito e reunião com um bebê? Tudo dá certo, não tem nada cor de rosa, mas fica tranquila que dá!

O dia foi longo. Com um filho de quatro meses, longo significa bem comprido. Primeiro, fomos ao ensaio, trabalhamos assim: enquanto me aqueci, o bebê ficou deitado num colchonete macio debaixo de um sol gostoso fazendo seus diversos sons. Depois, comecei a passar a peça e o bebê ficou no colo do pai, me olhando e rindo de mim. Boa provocação para a concentração. No ínterim desse trabalho, que ocupou toda nossa manhã, duas fraldas foram trocadas.

Depois ainda, fomos buscar a outra filha, mais adolescente na estação de metrô Consolação. O pai no volante, eu e o bebê atrás. O pai se comunicou com a filha pelo celular: onde você está? Ela respondeu: andando. Ele: sim, mas aonde? Ela: andando. Ele: mas, já saiu do metrô? Ela: é sentido integração, né? Ele: você saiu do lado esquerdo da catraca? Ela desligou, ou o celular morreu um pouco…

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 O bebê já impaciente no banco de trás, ele sofre de calor na sua cadeirinha e sua enquanto chora, uma beleza! Isso tudo porque enquanto pai e filha adolescente discutiam quem estava mais certo e menos errado, dávamos cinco voltas no retorno curto no final da Avenida Paulista com a Rua da Consolação. Eu ria internamente, mas achava bonito o crescimento.

 O pai disse a ela: é a última volta que vou dar e se você não estiver nas Pernambucanas vou ter que continuar sem você. Eu disse a ele: a gente já sabe que é assim, por que não marcou de outro jeito com ela? O pai: porque não, porque eu tenho de educá-la. Eu: o problema é que eu não quero deixar de almoçar para você educá-la. Tudo isso porque íamos almoçar antes de uma reunião de trabalho e por conta desse desencontro de pai e filha, estávamos atrasados.

 Pronto, chegamos lá e não almoçamos, havia passado da hora. Ok, comemos um lanche. Entramos na reunião, o bebê ficou com a irmã, no colo dormiu durante toda a reunião, lindo. Assim deu para resolver tudo. Depois da reunião pegamos um bom trânsito de São Paulo e eu fui ficando nervosa, o bebê chorava no banco de trás, estava quente e eu comecei a imaginar como seria trabalhar à noite levando ou não levando o bebê conosco. Fomos tratar desse trabalho na tal reunião, e tudo foi fechado como queríamos. Somente uma coisa me assustava: o filho? Fica em casa com a avó, ou vem conosco para o teatro? No teatro, o camarim era ao lado do palco. Pronto! Ferrou, pensei. E se ele chorar? Vai atrapalhar? E se ele sofrer? E se ele ficar em casa com a avó e chorar longe de mim? O que seria pior? Deu-me dor de cabeça.

 Íamos ao Poupa Tempo direto. Pensei: to louca! É incrível como as mães sentem quando o tempo já deu para os nossos filhos no corpo e na alma, fica escancarado. Decidimos então parar numa praça e tomar uma água de coco, nada de resolver documentos por hoje. Por hoje, já havíamos cumprido com as nossas possibilidades, a mãe e o filho. Sentamos, nós quatro num banco redondo e largo, bem juntos porque eu tive que levantar todo o meu vestido para dar de mamar ao filho, o que vestia era impossível decotar para dar o peito. A família ficou bem próxima para eu não ficar pelada em público, o peito já basta, peito de mãe é patrimônio público, mas bunda não. E confesso que ali senti a felicidade, sabe esses instantes curtos e pequenos, mas tão singelos em alegria? Vivi um desses hoje.

Olhei para a filha adolescente, para o pai homem e para o bebê e senti a completude. Como resolver a questão do trabalho e a dormida e bem estar do filho, ficou mais leve, mais tranquilo. Ficou pra daqui a pouco. Tudo vai certo. Sorrimos e conversamos sobre a grande torre de antenas que transmite sinal para a televisão funcionar nas casas, nos perguntamos como isso é possível. Rimos e dissemos que mais fácil era explicar alguém ressuscitar. Rimos.

A mamada acabou, fomos para casa. Banho no bebê, cansaço total. Colocá-lo para dormir. Eu aqui escrevendo, o pai trabalhando no seu computador. Eu penso em chorar um pouco, sabia que ia chorar, mas escrever me liberta da sensação. Sorrio com a sorte de ser quem sou, de ter os meus e de poder chorar um pouco antes de dormir no peito do meu marido que é doce, caso seja bom para mim. Ufa!

 

Tatiana Schunck, é atriz-dramaturga, mãe de menino, madrasta de moça. Mulher, desesperada e pessoa difícil. Vive na profundidade, gosta de gente estranha, faz lista de irritações e não acha tudo normal.

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