Colunistas

Sobre preconceito, respeito, cidadania e educação

Aproveitar acontecimentos do dia a dia, na política ou no futebol, é bom para mostrar a realidade para nossas crianças. Gabriel, filho da colunista Nanna Pretto, entendeu tudo sobre o que aconteceu nas últimas eleições

Eu sou baiana e meu marido nasceu aqui, mas é baiano de pai e mãe. Nossa família fala “oxente”, “massa”, “hoje a oito” e come feijão com farinha. Eu tenho “gastura” (e não aflição), “poco a bola” (e não estouro a bexiga) e dou “gagau” (e não tetê) para os meus filhos que, aliás, chupam “bubu” (e não pepê). Vim pra São Paulo há alguns anos para fazer faculdade e trabalhar na área com que sonhava e, assim como eu, muitos nordestinos fazem isso. Na minha época, as faculdades eram melhores, o campo de trabalho mais aberto. E eu sabia que, para trabalhar nesse mundo digital, eu tinha de soltar as minhas amarras soteropolitanas.

Antes disso, porém, eu morei no Rio, quando tinha 8 anos. Nessa época, a Bahia não era famosa. Não existia Praia do Forte, Trancoso, Prado, Ivete Sangalo, e Gil e Caetano só tocavam na casa dos amigos cool do meu pai. Quando eu falava que era baiana, em geral as pessoas me associavam à Daniela Mercury. E eu tinha vergonha (vejam só!) do meu sotaque e daquele personagem do Paulo Betti que falava, em Tieta, que vinha para “Sumpaulo!”

Não é fácil ser nordestino no sul-sudeste. As pessoas te amam, acham demais você ser de uma cidade de praia. Mas te associam à preguiça, à vagabundagem, à burrice! Quem nunca escutou um “isso é coisa de baiano!” após algum ato falho cometido na rua ou no trânsito!? Ou um “tu é paraíba”, se você faz alguma bobagem em terras cariocas?

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Independentemente do resultado das eleições do último domingo, o que vimos foi um desabafo feio, sujo e preconceituoso de metade dos eleitores brasileiros. Em casa de baianos, foi inevitável não comentarmos, desacreditarmos e falarmos sobre isso. A primeira reação do Gabriel foi: “Mas não é igual ao futebol? A gente tem que saber perder.” É, filho. Ou deveria ser.

Depois ele perguntou o que é cidadania, preconceito e respeito.

(…)

Aos poucos, fomos falando sobre o direito que cada pessoa tem de fazer as suas escolhas e o nosso dever de respeitar. “Mamãe, quando meu irmão chora e me acorda, ele não está me respeitando, né?” “De certa forma, sim. Mas, nesse caso, ele é um bebê, e a forma de ele chamar a mamãe é chorando. Mas a gente já conversa com ele que não pode ser assim”, expliquei. (E conversamos mesmo!)

“E o Juca torce pro Corinthians e eu pro São Paulo. E somos melhores amigos. Eu não tento fazer ele gostar do meu time, nem ele me obriga a torcer pelo dele. Não deveria ser de novo que nem no futebol, mamãe?” Sim, deveria!

A urna está para o campo assim como os candidatos estão para os times. E, infelizmente, alguns eleitores estão para alguns torcedores como aqueles que mataram um palmeirense, quase na rua de casa, na semana passada! Tsc, tsc.

Não dá pra falar de política com crianças. Não no sentido literal da coisa. Mas não dá pra subestimar a inteligência delas e o entendimento por associação, o que é bem típico dessa idade.

O que dá é para ensinar princípios e valores. Dá para formar caráter, dá para explicar que independentemente de qualquer coisa, é preciso ter respeito pelo próximo. E amor.

E nessa escola da vida (ou das urnas ou do campo), as crianças estão dando um baile em nós, adultos!

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