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O dia do “eu não gosto mais de você”

Com ciúmes do irmão, o mais velho da colunista Nanna Pretto dispara frases de efeito moral. Mesmo sabendo que é da boca pra fora, coração de mãe sofre

Ele quer algo e quer agora. O videogame travou no exato momento em que eu colocava o bebê para dormir. Ele até entra no quarto devagar, mas como eu não vou atendê-lo naquele EXATO minuto, ele dispara: “Tá vendo? É por isso que eu não quero mais ele em casa. E eu não gosto mais de você, porque tudo que você faz é para o Rafael. Eu não te amo mais e quero que ele vá embora!”.

Minha reação:

A)    falar que não é bem assim, que no meu coração cabem os dois.

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B)    dizer que, ok, faremos a mala do irmão bebê e entregaremos para outra família.

C)   pedir por favor que ele pare e pense no que está falando, porque isso é uma grande bobagem. E por conta de repetir esse drama mais uma vez ele estará sem videogame nos próximos dias.

Eu não sei vocês, mas ao ver que ele acordou o irmão, que esse drama estava acontecendo e que eu tinha realmente me magoado, eu soltei as três frases juntas. Deveria relevar, eu sei. Mas coração de mãe também sofre!

As noites não têm sido fáceis. Rafael reluta para tirar as sonecas durante o dia e fica enjoado pacas. Gabriel testemunha tudo e parece esperar o momento que o menino enfim fecha os olhos para vir me pedir alguma coisa. Claro que o nosso diálogo desperta o bebê. Que, por sua vez, chora. E o choro irrita a mãe. Que, por sua vez, está tendo que lidar com o choro e o dramalhão do mais velho.  E se irrita. E perde o controle e a razão juntos. E chora. Quem nunca?

Sei que é ÓBVIO que ele me ama. Que ele AMA o irmão, que ele não quer que nada nessa família mude. Mas escutar isso machuca, dói, irrita e estressa (não necessariamente nessa ordem e na mesma intensidade). Pô, vivo pra esses meninos, me desdobro em dez, encaro sessões intermináveis de futebol, brincadeiras, filmes de criança. Faço comida, arrumo mala, dou banho, coloco pra dormir, dou muito amor (muito mais pra eles do que pra mim mesma). E vem ele me dizer que eu não gosto dele e que, por isso, ele também não me ama mais?

Desfoquei da posição de mãe e filho e briguei. E o resultado? Eu magoada e chorona de um lado, ele de castigo do outro, e o bebê sem dormir a soneca da manhã. Tudo errado. O dia não começou bem.

Há dias que realmente não começam bem. Há dias em que a vontade é mesmo voltar para cama e dormir. Vocês me entendem?

(E, aliás, quero pedir desculpas a minha mãe por todos “eu não te amo mais!” Só sendo mãe para perceber a intensidade dessa frase e a dilaceração que ela faz no coração.)

(Além disso, quero dizer que a prova de que dia que começa ruim deveria ter tecla fast forward é a tipoia que terei de usar por romper um ligamento do ombro, num mau jeito que dei ao tentar levar Deus e o mundo nos braços, nessa manhã).

(Próxima semana, por favor!)

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