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Combinado não sai caro

Em vez de impor regras e deveres, a gente faz combinados. Em geral dá certo. Olha só como funciona na casa da colunista Nanna Pretto

“Quantas partidas de FIFA você jogou ontem?”

“Cinco.”

“E quantas nós tínhamos combinado?”

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“Três.”

“É por isso que hoje você não liga o videogame.”

“Tá bom…”

Ele poderia espernear, falar desaforos, gritar e chorar. Até me vencer pelo cansaço. Mas saiu do quarto e pegou um Lego para montar. Esses são os nossos combinados, que geralmente funcionam muito bem, tanto de um lado como do outro. A hora de dormir, o limite do videogame, dos desenhos, dos chocolates. Meu tempo de trabalho em que ele espera (sim, porque vale para os dois lados), comer primeiro, fazer a lição para depois brincarmos. Tudo funciona à base de combinados.

Essa foi a forma que encontramos para Gabriel, de 6 anos, se comprometer com as coisas, respeitar as nossas regras e também fazer os seus pedidos e expor as suas vontades. Num dia em que eu estou louca de trabalho em casa, por exemplo, ele não vem ao escritório berrando por companhia. Já sugere: “Mamãe, vamos fazer um combinado? Você trabalha mais uma hora e depois a gente pode assistir a um filme juntos?”. Me desmonta, né? Como vou dizer que não? Refaço minha listinha de prioridades, corro nesses 60 minutos, e, no horário, ele vem, e nós ligamos a TV para ficar agarradinhos, certamente revendo algum dos nossos filmes preferidos.

O mesmo acontece do meu lado. Quando ele chega exausto da escola e tem banho, jantar e lição, eu disparo: “Que tal tomarmos um banho juntos, depois jantarmos e só aí pegarmos a lição para fazer? Depois você pode jogar ou brincar um pouco.” A aceitação é de quase 100%.

A tradicional frase “porque eu estou mandando” quase não tem vez por aqui. Em situações extremas de birra, sim. E há um tempo, quando ele beirava seus três, quatro anos, também. Mas, há uns dois anos, Gabriel já entende que o combinado é bom para os dois lados. Ganha ele, ganho eu, e não damos espaços para as brigas, que normalmente acabam em choro – dos dois lados.

Na escola, a professora já me disse que as regras funcionam em forma de combinado também. Só pode uma coisa depois de outra e, quase sempre, prevalece a regra: primeiro a obrigação, depois a diversão. Falando a mesma linguagem, a gente mantém o mesmo padrão de diálogo com a criança e fica claro para ela entender como as coisas funcionam. Tanto em casa como na vida.

O único combinado que não dá certo é o do sono. “Podemos combinar assim? Eu pego no sono na sua cama, e, quando você for dormir, você me coloca na minha?” Nessa hora, em geral, eu morro de vontade de dormir grudadinha com a cria e aí não cumpro a minha parte. Deixo ele no meio da gente para dormirmos de conchinha, todos aninhadinhos.

E ele não reclama! 🙂

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