Colunistas

A gravidez que ninguém te conta

Espinhas, azias, noites mal dormidas, indisposição e muito cansaço. O outro lado da gravidez não tem o glamour das capas de revistas

Confesso que fico lendo aqui a coluna Fotografilhos, do meu amigo Ike Levy, e escutando os devaneios paternos do marido e penso que, às vezes, eu queria estar no outro lado da moeda. Como a gravidez pra eles é linda, né? A mulher ali, bela, sorrindo para fotos com a mãozinha na barriga. Aquela tranquilidade, soninho à tarde, à espera do bebezinho. Ups, ele mexeu! Ahhh que lindo. Será que eles realmente pensam que a vida da grávida é linda assim? 

Ontem cheguei em casa, após um dia normal de trabalho, e minhas pernas ardiam mais que fim de maratona. A sensação era de pelo menos uns dez quilos de peso em cada uma. Estava desejando comer um tomate recheado, receita da minha mãe, sempre sucesso em casa. Fiz com carinho e amor (mesmo com as pernas bombando de dor). Tirei do forno e pensei na azia que chegaria após a primeira mordida. Deixei de lado. 

O filho mais velho dormiu na minha cama. No ritual diário, tentei carregá-lo para levá-lo ao xixi da noite. Pééé! Soou o alarme da coluna. Nem pensar. Acorda o menino e leva ele choramingando pela casa. 

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Ufa, deitei pra dormir. 23h, lindo, pensei, pois nunca consigo dormir antes da meia-noite. E eis que ela chega. Mesmo sem o tomate, a minha companheira azia vem ao meu encontro e se instala por umas três horas, fazendo eu deitar com quatro travesseiros nas costas, praticamente sentada. E a coluna gritando novamente. “Meu amor, vai dormir assim?”, escutei. Pensei num “vai à m&%$#”, seguido de mil respostas azedas, assim como o sabor que estava na minha boca. “É o jeito”, falei apertando o controle da tevê e esperando o relógio entrar na madrugada. 

Sim, a gravidez é plena e mágica. Um momento único e exclusivamente da mulher. Mas, como tudo na vida, não é nada fácil. Pelo menos não no dia a dia de uma mãe que acorda cedo pra arrumar o filho para a escola, encara uma sessão de malhação, organiza o dia na casa, pega o carro, pega o metrô, trabalha o dia inteiro, volta para casa esmagada no trem das 6, pega o carro, pega o filho, chega em casa, faz a janta e coloca os pés para cima para enfim, esperar o sono chegar –muitas vezes acompanhado pelos desconfortos noturno. Aqui em casa, o único glamour é o kit maquiagem que me dei de presente para esconder as olheiras e espinhas que cismam em aparecer, quase que diariamente. 

Mas eu acho graça de tudo isso, sério. Já não perco sono ou derramo lágrimas pela falsa ilusão da gravidez perfeita. Sei que isso acontece em filmes e nas revistas, mas não na vida real. Já me estressei na primeira, agora curto na segunda. Curto até o cansaço. E a cara do moço do metrô quando me vê desabar no assento preferencial. Sim, estou grávida e cansada. Aliás, cansado está você. Estou EXAUSTA, penso, com um risinho no canto da boca. 

Delícia de cansaço. Delícia de azia que me faz lembrar todos os dias que meu bebê está aqui dentro – pelo menos enquanto não sinto os chutes e pontapés.  Tem seu lado belo, tem seu lado pleno e faz parte do processo de ser mãe. Vi um filme bobinho esses dias, e ri muito com a situação da grávida comicamente desesperada à espera do seu primogênito.

E que bom que mesmo com tudo isso, papais babões não enxergam a “mulherbagaço” que ficamos durante esse período. Disfarçamos bem, não?! Ainda assim, eles vibram com a nossa coragem em gerar um filho, em encarar a dor do parto e de passar pelas 40 semanas com o sorriso no rosto e as lágrimas nos olhos. E no fim das contas, tem a amnésia do amor maior: esse filhotinho sai de dentro da gente e tudo isso fica pequeno, perto da felicidade que é colocar um filho no mundo.

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