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Mainha me ensinou

Junto com as inseguranças de uma segunda gestação e de um mundo completamente novo, veio também a gratidão e plenitude

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Aí, numa noite de primavera de 2012, eu lembrei que tinha esquecido de checar meu aplicativo sensacional e discreto que calcula o ciclo menstrual. Tínhamos decidido tentar engravidar no mês anterior. Apesar da afirmação científica e profissional do meu ginecologista, que dizia que eu engravidaria sem quaisquer problemas, duvidei do meu corpo de 35 anos, que fora bombardeado por hormônios sintéticos por quase 10 anos: achava que levaria um tempo pro meu organismo se ajustar à sua talvez esquecida natureza, já que não mais precisaria obedecer a um robô que mandava e desmandava como um tirano na ovulação (em 5, 4, 3…); na menstruação (são tantos dias e não se discute mais esse assunto); na procriação (nananinaninanão).

O aplicativo gritava que já era pra ter rolado. Mas não tinha rolado. E então, antes do que eu pensava, estava lá, acenando pra mim, todo serelepe, o neném.  Abraços, gargalhadas do nada, planos de como e quando contar e pra quem e quando e como… aquela plenitude confusa, sab’cumé?

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Então ouço aquela ficha rolar (porque “cair a ficha” não define): e se for menina? Foram oito anos sendo mãe solteira de um menino. Que já era quase um cara. Todas as vezes que saía para comprar roupa pra ele, agradecia, meio culpada, por não ter tido menina, porque teria morrido com tanto cor-de-rosa pastel e princesas e unhas-de-quatro-anos-de-idade-pintadas… e boneeeeeeecas e casiiiiiiiiiiinhas e – ai! E banheiro público? E glitter? Chaaaaaaato. E agora lá estava eu:  50% de chance.

E só porque eu temia, adivinha? Menina.  Assustei.  De verdade.  Já saí dizendo pra marido: filha minha não vai… – e veio aquela lista imensa. Daí veio o medo de não conseguir amá-la como amei meu menino, medo de não saber ser mãe de menina. Veio o peso da responsabilidade de criar uma mulher num mundo machista. Uma mulher forte. Grande. Capaz. Amorosa.  Doce. Guerreira. Sonhadora. Feliz. Leve. Eu sabia que ser mãe de menina era mais difícil – porque o mundo é mais difícil pra mulher. E o espelho sou eu.  Mas ela é, também, um espelho.

Quando chegou, Alice me deu uma noção real da minha feminilidade no dia a dia. Não só por eu ter me aproximado das flores e das borboletas e do bordado e até do glitter (ainda acho chaaato, mas é bonito!).  Mas porque eu me vejo nela. Eu a vejo me imitando sendo mulher. E ela mexe as mãos de um jeito, e ela põe um colar meu de um jeito, e ela sabe que aquele lance ali é um anel da mamãe, e ela acha lindo uma roupa e pede para eu tirar para que ela a use, e ela dança igual a mim e ela está sempre coladinha… Nela, me vi uma mulher que nem sabia que era, não sabia que existia. Porque vaidade é muito diferente de feminilidade. E ela me deu o espelho da minha feminilidade.

Somos – e seremos, enfim – o espelho uma da outra… E a isso sou eternamente grata.

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