Colunistas

Adaptando…

Quando quem mais precisa da adaptação – ou de um doce – sou eu!

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Com Antonio foi menos turbulento. Decidi colocá-lo na escola no meio do ano. Mais por ele do que por mim. Filho único, mãe viajando um tanto… Achei que uma rotina para ele seria construtiva. Outras crianças, sociabilização. Criança pede essas coisas. Chegamos no meio do semestre, todos os outros alunos já tinham se adaptado. Baixei ordem de que durante uma semana esquecessem que eu existia – porque, né, tudo é muito mais importante do que é importante pros outros. (Lembrem que oito anos atrás não existia essa praga de iPhone. Tive O MEU espaço*.)

O processo foi muito bacana: eu ficava na mesinha das crianças do lado de fora, lendo meu livro. Firme e forte e pilastra que sou para meus pequenos. Ele sorria satisfeito. Dali alguns dias, Antonio ficou maior de grande e eu fui liberada pela coordenadora a ficar – OLHA QUE INCRÍVEL! – na secretaria. Ele provou para todos que era menino maduro e capaz de lidar com aquilo tudo. Dois dias depois, a realidade me estapeou com força: a coordenadora disse que eu podia ir embora. “Então, querida: eu não tenho nada pra fazer! Fico aqui! Ninguém vai nem me ver!” E ela me mandou comer um doce ali perto. “Mas eu não posso comer doce por causa da voz, nem gosto mesmo, eu fico aqui!” Ela disse: “Hora de fazer a adaptação da mãe”. Fui pro meu carro, estacionado na escola, e segui lendo meu livro até dar a hora de retirá-lo daquela selva de insensibilidade. Supermadura.

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Já com Alice, estou comendo o pão amassado de anteontem. Aquele bem duro, sabe? Não sei qual é o lance. Se é porque é minha menina, se é porque sou uma senhora de 37 anos (com Antonio, tinha 27). E eu sento fora da sala e sento dentro – tudo o que me mandam fazer para ajudá-la, eu faço. E quando ela pede colo, meu coração aperta e eu quero correr com ela dali, e quando ela fica bem na sala sozinha eu choro de emoção e de orgulho e de medo de estar perdendo minha menina (gente, imagina no casamento! Cadê a jaula dela?) e quando tiram a massinha dela eu quero chamar a professora… Tá fácil, não. E tem as outras crianças, que choram solidariamente quando uma chora, e a minha menina não entende aquela gente gritando e eu só quero pegar todo mundo no meu colo e acalmá-los todos! Sabe cumé: mãe de um, mãe de todos. Eu volto da escola, dou almoço pra ela, boto pra dormir, e desmorono na cama, exausta. Emocionalmente. Moída. Quero colo.

E semana retrasada eu tive que ir a São Paulo de última hora para uma gravação e não pude levá-la. Foi com a babá, para não perder o ritmo. Logo depois do horário da saída, a coordenadora me ligou e soltou a maior das grosserias: “Você não vem mais, tá? Ela fica ótima – até melhor – sem você”. Perdeu o lugar no céu, essa moça. De novo: orgulho, emoção, medo. Totalmente chocada. Não voltei mais! Obediente que sou! Mas morro. Tô aqui, escrevendo pra vocês pra ver se alguém me entende!

Olha. Honestamente. Não sei o que vai ser de mim. Talvez precise comer um doce.

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