Bebês

Tanto faz?

Meninos e meninas podem ser criados do mesmo jeito, escolhendo o que preferem

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Quando decidimos fotografar um menino vestido de rosa e uma menina vestida de azul para ilustrar esta reportagem, a coisa empacou: o primeiro pai foi informado de que seu garotão vestiria rosa e… não autorizou. Procuramos outras opções, nada de encontrar um pai que concordasse. Depois de várias tentativas, vitória!

Mas ficamos pensando… Em pleno século 21, quando correntes pedagógicas defendem que meninos e meninas sejam criados do mesmo jeito, as fronteiras entre gêneros ainda geram insegurança. Nos anos 70, após a revolução comportamental de 1968, era considerado desejável que as meninas se vestissem de modo mais parecido com os meninos. “Um dos motivos pelos quais as feministas achavam que as meninas eram levadas a desempenhar papéis subalternos era a maneira como se vestiam. Se vestirmos nossas garotas menos como menininhas frágeis e mais como meninos… elas terão mais opções e se sentirão mais livres para ser ativas”, conta a historiadora Jo B. Paoletti, da Universidade de Maryland, autora de Pink and Blue: Telling The Girls from The Boys in America (Rosa e Azul: Distinguindo as Meninas dos Meninos na América).

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Na Suécia, reconhecida como um dos países mais desenvolvidos do mundo, a loja de brinquedos Toys”R”Us apresentou seu catálogo de Natal de 2012 com o chamado gênero neutro, com meninos brincando de passar roupa e meninas com armas de brinquedo. A marca explica que o catálogo é um reflexo de como meninos e meninas brincam na realidade.

Uma escola em Estocolmo estimula que seus alunos abandonem o uso de pronomes masculinos e femininos pelo substituto “hen” – pronome que não determina gênero. Os professores são orientados a tratar meninos e meninas da mesma forma. Na Inglaterra, algumas lojas de roupas misturam roupas infantis para ambos os sexos na mesma arara, deixando que as próprias crianças escolham o que acham mais adequado para elas.

Qual o sexo da criança?

A maioria dos casais espera essa informação para começar a montar o enxoval, decorar o quarto, fazer suas listas de nomes. A partir daí, o filho toma forma na nossa expectativa. E é então que a criança começa a ser inserida no seu gênero, feminino ou masculino, que é construído socialmente.

Há 33 anos já falamos sobre isso. Em 1979, a Pais & Filhos trouxe uma matéria de capa explicando aos pais que os filhos não precisavam seguir os mesmos chavões: que menino chora, sim, e menina não tem que ser educada para ajudar a mãe. Claro que desde então muita água já correu e algumas coisas mudaram, mas ainda assim vivemos situações como a que descrevemos em que pais não concordavam em ver seus filhos vestidos em macacões cor-de-rosa.

Sim, é verdade que estudos atribuem a preferência das meninas pelo rosa ao fato de que nossas ancestrais pré-históricas eram responsáveis pela coleta, e as frutas tendem mais para tons avermelhados. Por outro lado, historiadores citam que o rosa era uma cor vista como masculina até a Primeira Guerra Mundial.

“A regra geralmente aceita é de que rosa é para os meninos e azul para as meninas. A razão é que rosa, por ser uma cor mais decidida e forte, é mais adequada para o menino, enquanto o azul, mais delicado, se adapta às meninas”, dizia um texto de junho de 1918 de uma publicação americana do setor têxtil. Em 1927, a revista Time publicou uma tabela mostrando as cores apropriadas para meninos e meninas, de acordo com as maiores lojas americanas. Em Boston, a Filene dizia aos pais para vestir os meninos de rosa. O mesmo acontecia com a Best & Co. em Nova York, a Halle‘s, em Cleveland e a Marshall Field, em Chicago.

Papai usa saia

Depois dos anos 1940 meninos passaram a se vestir como os pais e meninas como suas mães. Não é à toa que a Barbie, uma boneca que ensina a menina a se vestir e se arrumar como a mãe, surgiu depois dessa época, em 1959 (leia mais na seção 1968, o ano que não terminou).

Hoje, é possível que um pai passe a se vestir como o filho para que ele se sinta à vontade. Foi o que aconteceu com Nils Pickert, um morador de uma pequena cidade religiosa no sul da Alemanha. Seu filho de 5 anos é um menino comum que gosta de usar… vestidos. Para que o filho não sofresse discriminação, o pai passou a usar saias também. “Você não pode esperar que uma criança de idade pré-escolar tenha a mesma capacidade de se afirmar que um adulto sem ter um modelo. Então eu virei esse modelo”, afirmou o pai em depoimento para a revista alemã Emma.

No Brasil, o estudante de moda da USP Vitor Pereira decidiu ir de saia para a faculdade e foi hostilizado. Ele não se calou, decidiu criar uma página no Facebook para mostrar outras culturas e países em que homens usam saia, a Homens de Saia, que tem quase 800 fãs.

Brinquedo neutro

Se em algumas escolas os próprios alunos abrem o caminho para a indiferenciação de gêneros, outras já adotam a neutralidade como princípio. No colégio Sidarta, em Cotia, São Paulo, um dos brinquedos mais concorridos é um toco de madeira: não importa se a criança vai embrulhar o objeto num tecido e niná-lo ou imaginar rodinhas na parte de baixo e fazê-lo seu carrinho de corrida, quem escolhe o rumo da brincadeira é a criança. E erra quem pensa que o professor ou o coordenador vão advertir o menino que trocar o pedaço de madeira por uma boneca ou a menina que quiser jogar futebol. Na escola, o gênero não é uma barreira para que os alunos deixem de fazer ou agir de acordo com suas vontades.

Para a diretora do colégio, Claudia Siqueira, mãe de Naná, quando apresentamos essa ausência de um padrão rígido de gêneros para as crianças, isso não representa uma discussão sobre orientação sexual ou uma inversão de gêneros, mas, sim, novas opções e formas de a criança conhecer e explorar o mundo. “Os pais também não sabem como funciona esse novo modelo, estão aprendendo, por isso é bom que a escola tome a frente do processo”.

A psicóloga e terapeuta familiar Fernanda Maria Donato Gomes, mãe de Pedro e Juliana, explica que o que há alguns anos era impensável, hoje é natural para algumas pessoas e sociedades. E, no meio dessas mudanças, as instituições também tentam se encontrar e procurar novas formas de lidar com as mudanças de comportamento. Para alguns pais, é normal que as meninas usem cabelo curto e não furem necessariamente a orelha já na maternidade. Mas isso só vai funcionar para a família e para a criança se for algo em que os pais realmente acreditem e que os deixem confortáveis.

Entre o pink e o azul existem bem mais que 50 tons. Para além da identificação com certos padrões, tem sempre um espaço para outras experimentações, tudo em busca da construção de uma identidade que é única.

Meninos x Meninas

Meninos

– Exploram as coisas mais fisicamente, costumam ficar cercados de amigos e têm uma maneira desenfreada de expressar sua energia desde pequenos.

– Geralmente dominam movimentos mais complexos, como construir uma torre de blocos, mais cedo que as meninas. Isso acontece provavelmente porque a área do cérebro masculino dedicada à relação visual-espacial é maior.

– Pesam em média 3,4 kg ao nascer, enquanto as meninas pesam 3,3 kg. Isso porque as grávidas de meninos consomem mais calorias do que as grávidas de meninas.

Meninas

– Tendem a produzir mais oxitocina, o hormônio do vínculo, e serotonina, da felicidade. Está aí o motivo delas geralmente serem mais inclinadas a cuidar de bonecas e bichos de pelúcia. Afinal, abraçar e alimentar são atividades ligadas ao vínculo.

– Sentem dor e desconforto com mais intensidade, por isso podem chorar mais quando têm frio, por exemplo. Mas elas se aconchegam e se acalmam com mais facilidade.

– Têm mais facilidade na fala, com um vocabulário de cerca de 90 palavras aos 18 meses. Na mesma idade, os meninos têm cerca de 40 palavras no vocabulário.

A identidade sexual de uma pessoa é composta pelo

Gênero – Desde a infância, as pessoas são ensinadas sobre uma série de valores e hábitos de acordo com seu sexo biológico. Gênero compreende papéis e condutas sociais que são comumente associadas ao masculino e ao feminino.

Sexo – É o aspecto biológico da identidade sexual e é determinado pelas características físicas que diferenciam homens e mulheres, desde os órgãos do sistema reprodutor até as características sexuais secundárias, como barba e seios.

Orientação sexual – Diz respeito à atração sexual e afetiva em relação a outras pessoas. Ela é definida tendo como base o sexo pelo qual o indivíduo sente desejo. A pessoa não escolhe por quem sente atração (por isso não se usa mais o termo opção sexual). Ela tem uma orientação íntima que direciona a preferência sexual.

Consultoria: Claudia Siqueira, mãe de Naiara (Naná), diretora do colégio Sidarta, sidarta.org.br; Fernanda Maria Donato Gomes, mãe de Pedro e Juliana, psicóloga, terapeuta familiar, especialista em saúde mental, tel.: (11) 4191-6380; Marielle Kellermann Barbosa psicanalista, filha de Iaci e Maurício, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. (19) 3032-2433.