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Pais precisam se engajar na luta por uma escola de qualidade, diz Gustavo Ioschpe

Para o economista e especialista em educação, a pressão dos pais é o combustível para mudanças na educação

A REDAÇÃO PAIS&FILHOS

gustavo Ioschpe fala em evento sobre educação em São Paulo (Divulgação/Unibes Cultural)

Gustavo Ioschpe fala em evento sobre educação em São Paulo (Divulgação/Unibes Cultural)

Pai de Gabriel e David, Gustavo Ioschpe é formado em Ciência Política e Administração Estratégica pela Universidade da Pensilvânia e fez mestrado em Economia Internacional e em Desenvolvimento Econômico pela Universidade de Yale, ambas nos EUA.

No Brasil, dedicou-se a pesquisar a situação da educação no país eescreveu o livro “A ignorância custa um mundo – o valor da educação no desenvolvimento do Brasil”. Defensor ferrenho de índices e metas para avaliar a qualidade do o ensino, foi um dos idealizadores do Ideb (Índice do Desenvolvimento da Educação Básica) e é defensor ferrenho de que a nota seja exibida em uma placa na frente de todas as escolas do país.

Na entrevista abaixo, logo após uma palestra na Unibes Cultural, em São Paulo, Gustavo fala sobre a importância dos pais estarem engajados na luta por uma escola de qualidade.

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Pais&Filhos: Em sua palestra, você disse que a sociedade não valoriza a educação de qualidade.
Gustavo Ioschpe: Na escola, todo mundo entende a importância da qualidade. O que a sociedade não entende é que esse entendimento por parte da escola é necessário, mas não é o suficiente.

P&F: Mas quando você fala em valorização, para uma mudança geral acontecer ela pode ser individual ou precisa ser uma defesa ampla, para todas as escolas?
GI: Esse seria o ideal. Se todas as pessoas valorizassem a educação de qualidade para os seus filhos, seria o bastante. Mas acho que se você tiver 10% dos pais preocupados e engajados com a melhoria da qualidade da educação, ela vai mudar. Vamos calcular que cada turma tenha 30, 40 alunos. Se em cada turma três pais ou mais se engajarem, você vai, em uma escola, ter de 50 a 100 pais cobrando o diretor. Ninguém aguenta essa pressão, a situação vai melhorar. Obviamente eu gostaria que fosse 100%, que todos estivessem engajados, mas isso não é realista. Se tiver uma minoria numerosa o suficiente, vocal o suficiente e insistente o suficiente, eu não tenho dúvida de que será um grande impacto.

P&F: A qualidade pode ser relativa ao histórico da família? Por exemplo, se o filho voltar da escola com conhecimentos que os pais não tenham, pelo fato do aprendizado existir, a percepção de qualidade está lá.
GI: Não é que aquela educação tenha qualidade. Ele acha que a educação que o filho recebe é boa porque ele não sabe julgar o que seria uma educação melhor. Mas a beleza do Brasil é que a gente tem hoje ferramentas de mensuração da qualidade que não dependem do conhecimento profundo que um pai tenha do sistema educacional. Pega o caso do Ideb. Sou suspeito para falar porque a ideia do índice foi minha. Ele tem uma nota de 0 a 10 que todo mundo consegue entender. Tenho até um projeto de lei para colocar uma placa com o Ideb na frente de todas as escolas, como um termômetro. Porque mesmo uma pessoa que não é alfabetizada conseguiria entender.

O problema é que essa informação não chega nesses pais. Se chegasse, geraria problemas. Há algum tempo, eu tive a oportunidade de perguntar para alguns pais se eles sabiam o Ideb das escolas de seus filhos e eles não tinham ideia. Eu sempre explicava o que era o índice e pedia uma estimativa. Eles chutavam 7, 8, 9. Íamos ver e era de 2 para menos. O pai ficava apavorado! A pessoa entende que o filho dele está sendo lesado. Mas essa é uma tarefa ingrata porque você vai dar uma má notícia para todo mundo que nesse momento está satisfeito. Quem quer fazer isso?

P&F: Os papéis de escola e dos pais estão confusos ou é só uma má impressão?
GI: Acho que os papéis precisam ser definidos. Para mim, a questão é bem clara: escola cuida da parte acadêmica e os pais cuidam de afeto, valores, ética e das outras dimensões. A instituição não pode cobrar os pais que ensinem os seus filhos a tabuada ou que alfabetizem os filhos, assim como a família não pode cobrar a escola para que seus filhos sejam éticos, honestos, bem comportados e pessoas íntegras. Cabe à escola delimitar esse papel: precisa dizer não àqueles pais que esperam atividades que são deles, ao mesmo tempo em que precisa aprender a não transferir para os pais, e ela faz isso toda hora, uma responsabilidade sobre a área acadêmica, como corrigir dever de casa.

“É fundamental que os pais
não encostem a mão no dever
de casa dos filhos.”

P&F: Quanto ao dever de casa, como ficam os pais?
GI: Há muitas pesquisas sobre isso e é o resultado é bem claro: a função dos pais é fazer com que os filhos façam o dever de casa sozinhos. Claro que nos primeiros anos os pais estão junto e podem tirar dúvidas. Se criança não conseguiu ler uma palavra, então tudo bem ajudar. Mas a pesquisa é categórica ao mostrar que quando o pai ajuda a resolver problemas de matemática, a criança aprende menos. Porque dever de casa não é uma coisa que a criança tem que fazer para tirar nota alta. Ele tem duas funções: a primeira é fazer com que a criança fixe o conhecimento e entenda o que ela não sabe; e a segunda é dar um termômetro para o professor entender como a sua turma está.

Então se você tem em determinada aula dez alunos que não aprenderam o conteúdo, mas aqueles dez pais preenchem o dever para os filhos terem nota alta, eles vão ter aprendido menos, já que quebraram menos a cabeça para resolver o problema, e o professor não vai saber que uma parte importante da sua sala tem um problema naquele tema. É fundamental que os pais não encostem a mão no dever de casa dos filhos. O papel dos adultos é de estimular e dar as condições para que a criança faça o seu dever de casa.

P&F: Tem pais que entendem que escola forte é aquela em que os alunos têm que fazer um esforço sobre-humano para conseguir ficar na média. Essas escolas estão ajudando?
GI: Eu acho que tem que ver o resultado disso porque a definição do que é exigir muito é subjetiva e pessoal. O importante é: as crianças estão aprendendo? Se elas estão aprendendo e não há dramas psicológicos, como distúrbios de estresse, eu acho que aquilo está funcionando. Obviamente que o pai pode dizer que não quer uma escola que cobre tanto e cada pai tem a liberdade de escolher onde dará ênfase na vida do filho. Se você acha que está cobrando demais, olhe para o resultado. Para mim o problema é quando isso faz com que o aluno aprenda menos. Uma escola que enlouquece a vida dos estudantes e vai super mal no Enem é sinal de que não está funcionando.

P&F: Quando um aluno tira 6, isso significa que não aprendeu tudo o que ele deveria ter aprendido?
GI: Não, porque toda avaliação tem um componente subjetivo enorme que é o grau que o professor quer colocar na avaliação. Um professor minimamente experiente pode desenhar uma avaliação do mesmo assunto em que todo mundo vai tirar 10 ou uma em que todos vão ficar no 5. Essa é uma questão de orientação pedagógica.

No caso das particulares, chega a ser uma decisão de negócio. Cabe aos pais decidirem se gostam ou não daquilo. Eu me preocupo muito mais com o caso oposto, com a escola que infla a nota e faz isso para que os pais fiquem satisfeitos. Isso é, sem dúvidas, uma questão muita mais prevalente do que a escola que cobra demais. Elas sabem que se derem notas menores, vai ter pais batendo nas portas reclamando e se der nota alta, os pais acharão que os filhos são gênios e que está tudo bem.

“Quando os alunos não
querem aprender, tem algo
errado com a escola.”

P&F: A criança que está na escola, ela quer aprender ou não quer?
GI: Eu não tenho a menor dúvida de que a esmagadora maioria das crianças quer aprender. Se uma criança não gosta da escola, é porque aquela aula é chata. No Brasil, a qualidade da educação é muito baixa, é muito ruim. E quando você tem isso, a resposta natural de quem está em sala é se desligar, achar aquilo chato e maçante, e de não querer perder tempo ali. Isso alimenta um discurso por parte dos professores de que o problema são os alunos. Não tem nenhuma área do conhecimento humano que não possa se tornar extremamente instigante se ensinada do jeito certo.

Para qualquer assunto que você queira falar, tem vários pesquisadores que passaram a vida inteira devotados àquilo. Tem que ter alguma coisa interessante ali para alguém passar a vida inteira estudando. Tem que ter um jeito de transformar aquele conhecimento de forma que aguce. Quando o professor e a escola acreditam que o problema é o aluno, esse é o caminho para o desastre. Minha recomendação para os pais é de que fujam dessa instituição, porque uma escola tem que estar sempre se questionando. Quando os alunos não querem aprender, tem algo errado com a escola. O que não quer dizer que num grupo de 40 alunos não tenha um que seja problemático, bagunceiro, desinteressado, agressivo… Para mim, a questão fundamental é ver a reação da maioria.

P&F: Qual deveria ser o grande objetivo da educação escolar?
GI: O grande objetivo é aprender a aprender. Desenvolver a faculdade do raciocínio analítico e crítico que permita à criança e ao jovem coletar a informação, filtrar, tomar a decisão correta, descobrir áreas sobre as quais ela não aprendeu. Que ela tenha a ferramenta intelectual para aprender porque tem uma base cognitiva sólida. A velocidade da mudança, da evolução do conhecimento hoje em dia, é vertiginosa.

Não tem nenhuma educação, não há nenhuma escola que possa ter a pretensão de dar todo o conhecimento que uma pessoa vai precisar até o fim da sua vida. Então o mais importante é desenvolver o ferramental, o intelectual para que essa criança, esse jovem possa navegar pela vida sabendo aprender aquilo que é importante, transformar fatos e dados em conhecimento para que eles tomem as decisões corretas tanto na sua vida pessoal como profissional.

“A criança que está bem
psicologicamente e emocionalmente
está mais propensa a aprender.”

P&F: Você foca muito no conteúdo e o emocional fica subentendido. Emocional é algo que tem que ser tratado na primeira infância e depois migrar para o conteúdo formal?
GI: Acho que os dois estão juntos. Existe um corpo de pesquisa sólido que mostra que se você não tem a prontidão psicológica e emocional para aprender, você não vai aprender. Você pode ter o melhor professor de física, mas se você tiver desesperado com o divórcio dos seus pais, com a violência da sua casa, você não vai entender a matéria.

Cada vez mais estamos notando que um sistema educacional virtuoso aquele a que consegue lidar com emocional e intelectual o tempo todo. Acho que o bom professor tem que ser especialista na matéria, no conteúdo, mas tem que saber diagnosticar quando uma criança está com algum problema. Mas, a partir daí, tem que passar essa bola para quem é de direito. Talvez em alguns casos seja a família e em outros casos sejam psicólogos, orientadores de escolas. Não deveria ter um antagonismo entre o conteúdo e as questões emocionais. A criança que está bem psicologicamente e emocionalmente está mais propensa a aprender. Uma criança que está aprendendo e que tem sucesso no aprendizado tende a ser uma criança que vai colher frutos para o seu bem-estar psicológico.

P&F: O ciclo integral traz benefícios reais?
GI: Depende do que é feito. Se você usa o ciclo integral para transmitir conhecimento, para efetivamente dar educação, tem alguma evidência de que ele é positivo. Se você faz com atividades esportivas e culturais no contra turno da educação, pode ter uma série de benefícios nas dimensões não acadêmicas, e não vou discutir isso porque não tenho nenhuma ferramenta para medir isso na minha área, mas no aprendizado não faz diferença nenhuma. Então, se você quer que o ensino integral faça com que a criança tenha melhores resultados acadêmicos, você tem que ter essa preocupação. Não é fazendo com que a criança faça taekwondo, e até meu filho faz esse esporte, que vai fazer com que a criança aprenda mais português, gramática ou ciências.

P&F: A educação escolar ser responsabilidade do Estado é bom?
GI: Eu não sei se é bom, mas para uma série de questões que a economia já mediu muito bem, é inevitável. Por questões de capacidade de financiamento, legislação, não é viável nem crível um sistema em que não seja o Estado o grande responsável pela educação das crianças, principalmente nos níveis mais básicos. Nos níveis de ensino que são compulsórios, obrigatórios, se é uma lei, o Estado tem que prover.

P&F: Para a Pais&Filhos, família é tudo! E para você?
GI: Família não é tudo. Sem dúvida é um esteio importantíssimo para qualquer pessoa, mas acho que a família não provê tudo o que uma criança precisa. A escola, no caso da educação, é muito importante. O círculo de amizades, o convívio social, atividades esportivas, musicais. A família é um elemento importantíssimo da vida de qualquer pessoa. Acho isso indiscutível. Mas não é tudo.