Família

Pai no parto

A presença dele é essencial, e o importante mesmo é segurar firme a mão da mãe

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

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Historicamente, parto sempre foi assunto de mulheres: a mãe, óbvio, a parteira, a avó, irmãs… Elas podiam ajudar com água fervendo, lençóis limpos e experiência no tema, que não era conversa para homem. No século 19, o parto passou a ser feito nos hospitais e virou assunto de homem, sim, só que do médico. O pai ficava na sala de espera, torcendo para a mulher e o filho saírem vivos. Com o avanço da medicina e a queda da mortalidade, ele continuava lá fora, agora aguardando a hora de distribuir os charutos.

Foi lá pelos anos 70 que o pai foi chamado a participar. Não por nenhum movimento paterno, não, (porque talvez até alguns homens se sentissem mais seguros na sala ao lado), mas por grupos feministas. Sim, as mulheres é que chamaram o pai a comparecer. A onda se espalhou até que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou livre acesso de um membro da família ao parto, nascimento e período puerperal (primeiros dias após o nascimento). E esse membro da família seria ele, claro, o pai.

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De lá para cá, acompanhar a mãe virou, mais do que um direito, uma obrigação. E é aí que a gente discorda. Defendemos, sim, que o pai possa estar lá do lado da mãe, vendo o filho nascer. Se essa também for a vontade dele. E, por favor, do lado de cá do lençol. Porque aquela mulher pode ter acabado de virar mãe, mas precisa continuar sendo mulher para ele.

O designer gráfico e poeta Manoel Gonçalves viu o parto das duas filhas, Bianca e Sofia, e recomenda a experiência. Depois de horas esperando a dilatação ideal, uma surpresa: seria cesárea. “Quando fui beijá-la e desejar boa sorte, minha mulher agarrou meu braço e implorou pra entrar com ela. Nunca gostei de hospital, não entraria. Mas vê-la naquele desespero todo me fez esquecer do medo e só pensar em dar uma força”.

Entrar na sala é bacana por isso mesmo: dá segurança emocional aos dois. Fora que o homem se sente incluído. “Naquele momento, não foi só minha filha que nasceu. Eu renasci. O cara que ainda aprendia a ser marido agora era pai”, diz Manoel.

Mas não é porque o marido está lá para dar apoio emocional à mulher que deve ser confundido com um super-homem. Não tem jeito: ele vai ficar nervoso, evidente. Para diminuir a ansiedade, leia livros, participe de grupos de discussão, desabafe com os amigos. Quando chegar a hora H, não precisa bancar a parteira nem o psicólogo. O principal é dar a mão e dizer: “Te amo, vai dar tudo certo”. Aquele básico que funciona. Se quiser fazer massagem, seja bem-vindo: no intervalo das contrações, passe a mão fechada na lombar, a base da coluna, do centro para fora.

No parto da primeira filha, os médicos disseram a Manoel que, se ele passasse mal, ia ficar caído no chão, pois não era ele a prioridade. Na maioria das vezes, não é a presença do pai que atrapalha, mas a equipe médica é que não está preparada para ela. Os obstetras têm de encarar o parto como um momento especial para o casal, mãe e pai, não como uma simples operação médica. E, se impedirem a entrada do pai no centro obstétrico, exija seus direitos. A lei de 7 de abril de 2005 dá às grávidas o direito de escolher quem vai acompanhá-la no parto – pode ser qualquer um.

A escolha do acompanhante tem de ser feita pelo casal: nada de obrigar o marido a fazer o que ele não está a fim. Antes da lei, as maternidades particulares costumavam cobrar a “taxa do pai”, e as públicas tinham um leque de desculpas, desde a superlotação até manifestações de preconceito contra pais de baixa renda. Então, já sabe: andar de um lado para o outro na sala de espera, só se ele quiser.

Consultoria: Maria Luiza de Carvalho, mãe de Bernardo, é doutora em psicossociologia e psicoterapeuta corporal. Tel.: (21) 3087-7475  Ana Cristina Duarte, mãe de Julia e Henrique, é doula e educadora perinatal. Tel.: (11) 3727-1735  Manoel Gonçalves, pai de Bianca e Sofia, é designer gráfico e poeta. www.coisasdemanogon.blogspot.com