Criança

Existe vida após o primeiro dia de aula?

Quando um mundo de questionamentos pipocam na mente das mães e pais que só querem o melhor para os filhos, mesmo que isso nos faça sofrer um pouquinho

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Depois de quase três anos (completos em fevereiro de 2014) ela fez brotar em meu coração a tácita necessidade natural de permitir deixar crescer. Minha Maria vai para escola.

Desde antes de engravidar, cultivei e domestiquei a ideia de que não iria terceirizar os primeiros anos de vida da minha segunda filha como fiz com a primeira. E assim o fiz. Mais um item da lista do meu encontro com minha própria sombra cumprido gloriosamente. Mas confesso que não está sendo fácil lidar com tudo que permeia essa ruptura, todo preparo psicológico e emocional necessário para tal feito me confundem e me deixam insegura. Somente a ambivalência dos fatos me leva a, hora sim, hora não, ter confiança em seguir em frente com essa decisão. Como é difícil cortar o visceral cordão umbilical.

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A criação com apego e seus efeitos colaterais nas mães deixam resquícios ilusórios de que os filhos são nossos. Mas não o são. E aceitar isso, para algumas, é desolador. Mesmo já conhecendo o caminho que passei com minha primeira filha, percebo que essa questão revela-se presciente a cada minuto. E às vezes o receio não é por ela, mas sim, por mim. Por querer ser mãe de uma forma que não consegui ser na primeira maternagem, e me cobrar muitas vezes por isso. Alguma forma de redenção dos meus pecadilhos faz parte deste pacote da culpa. Mas também temo pela falta que ela fará aos meus dias e a mudança na zona de conforto da nossa rotina, pelo controle demasiado sobre tudo que se refere à proteção dela. Pelo perfeccionismo inerente ao meu ser e simplesmente por querer o melhor pra ela e estar presente.

Eu trabalho em casa, eu não tenho todo tempo do mundo para brincar com ela, nós moramos em apartamento, ela precisa gastar energia, ela quer correr, ela quer ter amigos, ela precisa ir para escola. Se existisse outra solução com certeza ela seria parâmetro. Mas a solução é a escola. E, infelizmente, as escola de hoje em dia estão mais preocupadas em preparar o bebê e a criança para o vestibular e até mesmo as concorridas vagas de empresas multinacionais, deixando de lado o essencial a vida de uma criança: o brincar livre. Isso me preocupa, e digo mais, não só a minha filha, mas o mundo como um todo. E se ela sentir fome? Sono? Sede? Frio? E se for mordida? E se cair? Se espirrar? Se quiser ir pra casa? E se me chamar, eu não estarei, como ela vai lidar com isso?

Tenho certeza que aprenderá facilmente. Mas e eu? Um bloqueio crônico e inconstante que me deixa partida ao meio. E ainda nem escolhi de fato essa escola. Sinto náuseas e uma aflição entorpecida só de pensar no primeiro dia de aula. Existe a escola perfeita? Então conto até três e penso que tudo é cíclico. Tentando deixar de lado o meu egoísmo penso nela, por ela, na necessidade de crescimento dela, de aventurar-se, exprimir-se, conhecer, descobrir, viver do jeito dela. E que direito tenho eu de controlar isso? É de minha natureza ser superprotetora, no entanto, superproteção de mais pode aprisionar, eu sei. E eu não quero ser aquela mãe louca e descontrolada com filhos alienados. Não quero mesmo. Só quero o melhor. E que mãe um dia irá dizer que não existe razão em querer o melhor para nossos filhos? Chegou a hora de regular a marcha e fitar o mundo com outros olhos, recorrer aos poderes inatos da intuição materna e adequar-me, conscientemente, para os próximos ciclos fundamentais para vivência e sobrevivência da nossa família. Eu vou acreditar que é possível.

Eu volto pra contar os próximos capítulos.

Natália Piassentini Mãe da Giulia e da Maria Clara www.roteirokids.com.br