Família

Carinho de irmão

Vínculo entre crianças e o novo bebê da casa exige cuidados dos pais. E a atenção tem de ser redobrada quando um deles é especial

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

O exame deu positivo: o novo bebê é especial. Os pais se informam, preparam-se e aí é a hora de falar com os irmãos. Momento difícil? Sim, mas que pode ser o início de uma parceria baseada em franqueza e amor. Os irmãos podem se tornar grandes aliados nessa jornada de aprendizado para todas as partes. “Os adultos devem estar prontos para orientar um irmão mais velho sem a síndrome de Down, por exemplo, sobre a vinda do novo membro da família e sempre contar a verdade sobre a situação”, explica a psicóloga do Serviço de Estimulação e Habilitação do APAE (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais) de São Paulo, Vera Lúcia de Alencar Monteiro, mãe de Camila e Brunna.

A psicóloga orienta aos pais e que não é saudável esconder a realidade dos filhos, independentemente de sua idade. “Muita gente acha que a criança não entende. Ela pode até não saber o que está acontecendo, mas ela sente o clima, vê a tristeza que pode vir dos pais ou dos parentes mais próximos quando recebem o diagnóstico”, conta. Além disso, Vera diz que, quando os pais não conversam com a criança sobre as condições do bebê, muitas acabam desenvolvendo um sentimento de culpa. “É interessante falar que o bebê precisará de alguns cuidados especiais, que ele vai demorar mais tempo do que outras crianças para andar, falar e que, às vezes, vai ter de ir a alguns médicos”, orienta Vera. Com o tempo, virão as perguntas específicas que a criança terá. Ela pode querer saber se também exigiu esses cuidados, se os pais faziam isso quando ela era bebê… Não estenda o assunto, mas responda a todos os questionamentos da criança, ela precisa disso. Além do diálogo, é importante os pais cultivarem momentos especiais com os filhos não-portadores. Ter um tempo só com eles, levá-los para suas atividades cotidianas.

A psicóloga Vera Lúcia lembra que todos esses cuidados devem ser tomados em caso contrário. Conversar com o irmão mais velho portador de síndrome sobre a chegada de um novo bebê. Com o tempo, os pais verão como esse processo é natural. As crianças percebem isso, aprendem a lidar. Essa solidariedade natural é muito notada, por exemplo, entre coleguinhas na escola, que se prontificam a ajudar em atividades mais complexas.

Anúncio

FECHAR

 

Vínculos

O diálogo é muito importante e pode ser o primeiro passo para a criação de vínculos fortes entre pais, irmãos e bebê. Especialmente quando as idades são próximas, a troca de experiência entre as crianças é bastante rica, principalmente através das brincadeiras.

Na APAE de São Paulo, os profissionais recebem as crianças sem síndrome que têm irmãos portadores para brincar e entender um pouco mais do universo da instituição. “É claro que os filhos sem síndrome podem colaborar, mas não podem se sentir responsáveis, devem ter suas atividades normais conforme a idade”, lembra a psicóloga Vera Lúcia.

Uma coisa é certa: família unida é família que sofre menos. “A gente trabalha a questão do fortalecimento do vínculo, que pode ser abalado, porque não é o filho esperado. A estrutura dinâmica e psicológica da família pode mudar. A questão afetiva não muda, mas o resto tem de ser trabalhado. E não há dúvidas: quando a família extensa (avós, tios, primos) é bastante participativa, a relação é mais fortalecida.”

Diagnóstico positivo: surpresa em dobro

Maria Paz de Souza é mãe de Caroline, 23 anos, Bárbara, 20, e Fernando, 4. Ela tinha 45 anos quando começou a sentir dores na região do útero e decidiu ir ao médico, também atendendo a pedidos das filhas adolescentes, muito preocupadas. Maria começou a suspeitar de câncer, mas quando ouviu o diagnóstico do médico teve uma grande surpresa: ele pediu um ultrassom simples, pois já suspeitava da gravidez. “Eu só pensava na vergonha! Como eu poderia ser mãe naquela idade? Minhas filhas já estavam grandes”, conta Maria. Depois do exame, o médico confirmou a suspeita. Ela estava grávida de 4 meses.

Mas, não foi só isso. O médico levantou a hipótese de o menino ser especial. “Na hora que ele me falou, eu lembro que perguntei ‘especial como?’. Ele me explicou, fui pra casa atordoada. Chegando lá, sentei com minhas filhas e contei tudo. Elas olharam uma pra outra, me abraçaram muito e disseram coisas maravilhosas. Disseram que eu não estava sozinha, que elas me ajudariam sempre”, lembra.

Com a grande diferença de idade, as filhas de Maria auxiliam muito no dia a dia, especialmente Bárbara, que está na faculdade de Pedagogia. “Ela brinca muito com ele, passa atividades de estimulação, exercícios. Graças a Deus as duas são maravilhosas.”

Situação semelhante viveu Valdilene de Souza Negreiro, mãe de Vítor (17), Taís (14) e Arthur (3). Ela descobriu que estava grávida de um filho especial durante um exame de ultrassom no qual o filho mais velho estava presente. Naquele dia, ela reuniu a família e lembrou que, juntos, deveriam proteger aquela criança, especialmente do preconceito. “O Vítor e a Taís são bastante ligados ao Arthur. A Taís é mais calma, o Vítor se impõe mais. Mas os dois dão muito amor, têm muito cuidado. O Vítor quer estudar, fazer uma boa faculdade para cuidar do irmão futuramente. Ele pensa nisso já agora!”, emociona-se a mãe.

Mesmo quando as crianças são mais novas, a preocupação, a responsabilidade e o cuidado são normais. Mas, de acordo com a psicóloga Vera Lúcia, o limite para não sobrecarregar os irmãos é importante, e lembra que deve acontecer não só dentro de casa, mas também na escola. “Há casos em que os irmãos estão na mesma creche, escola… E quando o portador de síndrome tem algum problema, começa a chorar, logo chama o irmão. Mas isso não pode acontecer. Irmão é irmão, pais são pais”, finaliza Vera Lúcia.

Consultoria: Psicóloga do Serviço de Estimulação e Habilitação do APAE de São Paulo, Vera Lúcia de Alencar Monteiro, mãe de Camila e Brunna, avó de Beatriz, Vinícius e Alicia.