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Projeto &: Tudo novo de novo

Quando descobriu a gravidez da segunda filha, Luciana teve a sensação de estar traindo a primeira. Será possível amar o outro com tanta intensidade?

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

“A  primeira coisa que acontece com a gente, após a constatação do fato, é aquela sensação de encantamento. Só que mais forte, mais intensa, porque afinal, desta vez, sabemos o tamanho do que está por vir. Encantamento por esse milagre que a gente ainda não conseguiu explicar mesmo depois de ter descoberto galáxias e inventado a internet. Esse mistério que é a criação de uma nova vida, sobre a qual o sexo, a cara, a personalidade e o time de futebol não temos nenhum controle. Aquela coisa mágica que acontece quando junta o pedacinho da mamãe com o pedacinho do papai, mistura bem e sai uma surpresinha. Sim, é uma loucura tudo de novo, demora pra cair a ficha, mil coisas vêm na cabeça. E o trabalho, e o irmão, cabe na casa? Dura uns dias. Semanas, talvez.

Mas aí, num passe de mágica, a gente fica prática. Decide que vai reduzir o ritmo de trabalho pra cuidar do bebê, que pra isso vai precisar terceirizar outras coisas, ajeita o quarto pra receber o novo membro da família, compra o que ainda não tem. Cada uma, dentro das suas necessidades, vira um trator pra resolver todas as questões práticas enquanto cuida do filho número 1 – que já dá trabalho suficiente – e vai tocando a vida. De vez em quando vem um pânico, claro. A gente começa a pensar no trabalho que um filho já dá, pensa naqueles momentos de desespero de ter que falar de trabalho no telefone enquanto o filho chama ininterruptamente, e você atrasada para aquele compromisso, e o jantar por fazer, tudo ao mesmo tempo agora, socorro, meu Deus, como vou dar conta de mais um? Mas aí, no meio desses pensamentos, o primogênito efetivamente chega da escola clamando por você, pelo jantar, para brincar, e aí vem o banho, e aí escova os dentes (só a gente entende por que essa tarefa simples demora aproximadamente meia hora), põe pra dormir, e no que você estava pensando mesmo?

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Desde a barriga o segundo filho já divide atenção, tempo, pensamento. Não há opção. Mas quando a gente deita na cama, à noite, num daqueles raros momentos de calma e tranquilidade, lembra que ali dentro está o filho que um dia a gente vai olhar e ter a sensação de nunca ter vivido sem, igualzinho ao primeiro. Sabe que vai amá-lo loucamente, que vai querer protegê-lo de todos os males do universo, que vai sentir aquele amor arrebatador, dolorido, maior do que nós mesmos. E ele já está ali, na barriga, e mesmo sabendo que vai em breve sentir tudo isso, você não sente ainda. Não sente porque, claro, haja poder de abstração. Você não viu a carinha dele. Não deu de mamar. Não ganhou um sorriso banguela de presente em troca de uma noite não dormida. Não sentiu o cheiro (ah, o cheiro)… Segundo filho ganha um amor mais eficiente. Sabemos que vamos amá-lo, e só podemos esperar que aconteça. Então preparamos o coração: suavizamos as arestas, afofamos as almofadas.

Tem também o medo de dividir o amor do mais velho. A sensação de traição. Lembro de ter sentido, quando descobri que teria outra menina, de que seria traição dupla. Mas, no fundo, a gente sabe que a atenção vai ter que ser dividida, mas o amor vai se multiplicar. A gente imagina aquelas manhãs felizes na cama com duas, e não uma, pulando em cima. Vislumbra os momentos de orgulho arrebatador do aprendizado de duas. Dá até pra ser capaz de sentir aquela explosão no coração de ter o filhote agarrado a você, dormindo profundamente no colo… vezes duas. Aí a gente percebe que vai amar tudo de novo, sim. Pensando bem, a dúvida é se a gente vai aguentar tanto amor.”

Luciana Loew, mãe de Teresa e grávida de Alice, é publicitária e tem uma produtora de conteúdo, a Echo Assuntos Digitais