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Pai da Família Schurmann divide 10 lições sobre educação dos filhos

Vilfredo viajou o mundo dentro do barco e fala o que passou para Pierre, David, Wilhelm e Kat:

Isabela Kalil de Lima

Isabela Kalil de Lima ,Filha de Kátia e Fabio

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Vilfredo e Heloísa Schürmann ficaram famosos por dar volta ao mundo durante 10 anos à bordo de um barco. Entre 1984 e 1994, eles e os filhos Pierre, David e Wilhelm Schürmann partiram de Florianópolis e velejaram pelos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico. Os filhos cresceram embarcados e estudando por correspondência.

Em uma palestra para professores no campus da Universidade Estácio em São Paulo, Vilfredo falou sobre educar crianças e reforçou a importância de planejar as coisas com uma folga de tempo. “Dois anos podem virar três. Uma das coisas mais importantes para nós foi o treinamento que tivemos. Nunca nenhum tripulante nosso caiu no mar.”  Confira, abaixo, dez dicas dos pais.

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1. Planejamento e preparação

“Decidimos dar a volta ao mundo quase 10 anos antes da partida, em 1984. Levamos 10 anos nos preparando e planejando essa viagem de 10 anos, até 1994. Fomos a primeira família a fazer este tipo de viagem e a decisão de levar os filhos, ainda pequenos e em formação, só nos dava uma opção: a educação à distância. Lembro que quando contamos nosso projeto a amigos e familiares, ouvimos isso: ‘Vocês são loucos. Vocês vão criar vagabundos do mar’. Naquela época, pouco se pensava nesse sistema.  Em 1984, nossos filhos tinham 7, 10 e 15 anos. Não tinha outro jeito: Era fazer assim ou fazer assim. Nós sabíamos que eles iam ter que aprender. Para realizar o nosso projeto de passar 10 anos viajando num veleiro, essa era a única opção de lhes garantir a educação formal. Matriculamos os meninos numa escola americana especializada neste sistema, a Cavert School. Recebíamos os materiais e as provas pelo correio, entregues em cais de portos pelo mundo. Mas tínhamos um objetivo traçado. Isso mostra a importância de ter um plano.”

2. Muito amor

“Eu diria que muito amor é uma das três coisas essenciais para educar um filho em alto mar. Depois, muita paciência e muito humor. Uma coisa é conviver com os filhos em casa, em terra firme, as crianças frequentando escola, os pais trabalhando. Outra coisa é passar 24 horas com os filhos em um barco. Além de pais, éramos os professores e os responsáveis pela educação formal de nossos filhos. O principal medo nosso nessa aventura não era o das tempestades, mas a convivência e o relacionamento que teríamos em 45 metros quadrados durante tanto tempo. Só saímos realmente para águas internacionais após viajarmos pela costa brasileira por um ano, como teste. Esse foi o teste para sairmos em alto mar, cruzando os oceanos.”

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3. Disciplina e organização

“Para quem escolhe uma opção de vida em família como nós escolhemos, disciplina e organização são cruciais. Para não perder o foco, tínhamos horário para tudo. As crianças acordavam e 7h30 começavam as aulas. Eu, que tenho formação em economia e era executivo de empresas, dava aula de matemática. Heloísa, que é pedagoga e teve escola, era responsável pelas demais matérias. Seguíamos o material enviado pelo correio. As encomendas eram entregues em portos pelo mundo.

4. Paciência

“Heloísa, que é pedagoga e tinha escola de inglês, sempre teve muito mais didática do que eu. Eu tive que aprender a ser professor dos meus filhos. Uma das lições era ter muita paciência. Mas é claro, lembro que, como todo pai, tinha meus momentos de impaciência. Houve um episódio de decorar tabuada com um dos meus filhos. Eu acabei irritado porque ele não aprendia a decorar. E ele brincou comigo: “isso é matemática, não é ‘mategrítima’ porque acabei gritando para lhe chamar atenção”

5. Dar aos filhos a missão de escrever redações integradas aos momentos vividos

“Foi muito interessante acompanhar como nossos filhos acabaram virando autodidatas. Nós lhes dávamos a seguinte tarefa: Eles tinham que fazer 20 redações por mês, praticamente uma redação a cada dois dias, com tema livre. Eles melhoraram muito na interpretação de textos. A nossa viagem ajudava muito na matéria de geografia. Eles viam vulcões de perto, aprendiam in loco sobre os locais que visitávamos ao redor do mundo.”

6. Ter jogo de cintura

“Para motivar as crianças, Heloísa lia livros de histórias e suspense, e interrompia a leitura em momentos chave para provocar a curiosidade nos meninos. Chegava a hora do tesouro escondido e ela provocava a pausa para fazer o almoço. Era tiro e queda: os meninos iam escondido procurar nos livros o capítulo seguinte. Isso os estimulou a se tornarem grandes leitores.

7. Saber aproveitar o tempo

“Muitas vezes, aproveitávamos os dias nublados e chuvosos para adiantar com os meninos os exercícios, tarefas escolares e a leitura. Eles nunca repetiram de ano e passaram em exames difíceis em universidades americanas e na Nova Zelândia. Numa ocasião, tivemos um acidente depois de uma tempestade, e nossos dois mastros quebraram. Ficamos um ano na Nova Zelândia. Lá, nossos filhos passaram por exames de avaliação. Foi uma felicidade quando recebemos o resultado. Eles estavam à frente, na aprendizagem, do que determinava os anos das suas respectivas idades.”

8. Saber reagir bem às dificuldades

“Me lembro uma vez que atracamos num porto no Caribe e o correio estava em greve. Não pudemos pegar a correspondência da escola com as provas e exercícios dos meninos. Tivemos que remarcar o encontro em outro país, para que uma professora pudesse nos entregar o envelope. Era uma dificuldade, porque não havia internet. Nossa filha Kat, que hoje está no céu (Kat, adotada em 1994, era portadora do vírus da Aids e morreu em 2006), conseguiu aproveitar melhor os recursos da internet para ter aulas de educação à distância.”

9. Dividir tarefas e delegar responsabilidades

“Os pais protegem muito as crianças. Não as incluem na rotina de tarefas. Não se deve fazer isso. É importante distribuir tarefas. Nos lugarejos que parávamos, sempre dávamos desafios aos meninos, como ir à padaria ou ao banco, trocar dinheiro, falar a língua nativa. E mesmo as tarefas do barco. Os nossos filhos se sentiam responsáveis. Nós íamos dormir e os três filhos ficavam com a responsabilidade de tomar conta do barco. Já fugimos de piratas na China. Os piratas estavam se aproximando e nós saímos devagar com o motor desligado. Os meninos sempre estiveram envolvidos nisso. Quando o David quis ficar na Nova Zelândia, nós ficamos com muito receio de deixá-lo. Mas confiamos que ele era um garoto responsável. Ele estudou cinema na Nova Zelândia. Já tivemos momentos complicados de enfrentar tempestades. Nessa hora, você não pode colocar o barco no piloto automático. O limite de tempo para alguém conduzir um barco é de duas horas. Eu e Heloísa nos revezávamos nisso. No dia que nosso barco bateu numa pedra e quebrou dois mastros, ela estava fazendo chocolate quente quando fui chamá-la para me ajudar.”

10. Ter humor

“Bom humor e positividade é essencial para tornar a tarefa de educar os filhos prazerosa e divertida para todos. Nós tínhamos muitas táticas nesse sentido. Muita risada e humor para enfrentar os desafios foram fundamentais para a formação dos meninos.”

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