Pais

No começo era o hormônio na geladeira

Em depoimento, pai conta sua visão sobre o processo de fecundação assistida

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Faixa branca com faixa vermelha não se misturava aos outros itens da geladeira. Entre frutas, legumes e o pote de requeijão, ela guardava um conjunto de seringas e a esperança. Iniciamos o tratamento no final de novembro e em janeiro já estávamos grávidos. Como assim? Foi rápido demais. Tanto tempo sem conseguir e, passado pouco mais de um mês da primeira injeção, recebemos com alegria o resultado do teste de gravidez. Embora não tenha sido um procedimento natural, foi o que viabilizou a chegada de nosso pequenino. Incrível, arrebatador. No entanto, a fertilização in vitro demandou uma série de cuidados que não constavam entre as receitas dos médicos.

Desde julho daquele ano percorremos um longo caminho de elaboração interna. Tivemos conversas inesperadas, rompantes emocionais, troca de expectativas, lembranças e receios. Repensando o percurso, posso afirmar que a gestação começou quando engravidamos de palavras e gestos.

“Vamos ter um filho?” Muito longe das  experiências de nossos pais e avós, a reprodução assistida poderia ser entendida como algo de outro mundo, assim como o hormônio acondicionado em nossa geladeira. Pesquisar e visitar médicos e clínicas, conhecer laboratórios de embriologia, planejar o pagamento de uma quantia considerável, além de contabilizar os riscos do tratamento. Tudo nos trouxe questões muito novas. Antes a resposta era simples: “Sim”. Mas, após a ideia de buscar uma clínica, a pergunta não era mais a mesma: “Vale a pena correr os riscos? Vale a pena o investimento? E se não der certo da primeira vez, vamos tentar de novo? Até quando?”

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FECHAR

Entramos num mundo à parte de nossa realidade. Incrível e maravilhoso, ainda que asséptico, misterioso e frio. Apesar dos sorrisos e cumprimentos das secretárias e enfermeiras, era um pouco como o interior de nossa geladeira. A caixa branca “venda sob prescrição médica” continuava a nos provocar. Falamos, para amenizar, das nossas histórias: nossas gestações nas barrigas das avós de Miguel. Enjoo? Sangramento? Repouso? Construímos um sentido para o desconhecido, como as cláusulas do contrato: o que fazer com os embriões excedentes? Congelar, doar a outro casal, ceder para pesquisas científicas?

Dentre os gestos, fotografar foi o primeiro que me ocorreu. Apertar o botão da máquina era algo simples, direto: armazenagem do hormônio, preparo do pó e do líquido, a seringa e o ventre à espera. Uma picada, um beijo, uma foto. Quantas vezes ao dia? Não me lembro.

Acompanhei minha esposa em todas as conversas médicas, consultas e procedimentos; lidamos juntos com o pagamento, injeções e notícias, além dos termos técnicos. Resposta inadequada hormonal e/ou ovariana; indução e coleta de óvulos; transferência embrionária; preparo de endométrio; aspiração de folículos; fertilização e evolução dos embriões. Sem tempero, todo um palavreado, meio indigesto, que demandou uma camada generosa de recheio, mais bate-papo olho no olho, mais sal curado.

Profissionais com mais e menos tato e prudência também cruzaram nosso passo a passo. Por exemplo, fomos mal-informados, no primeiro ultrassom, de que a gravidez tinha sido um resultado falso. Tratamos de nossas feridas, eu e a futura mamãe, um do outro, até repetir o exame em outro laboratório, dias mais tarde. Nos momentos mais delicados, vale lembrar, contamos com a experiência e o apoio da família, amigos e terapeutas; nossa gratidão, sorrisos bochechudos. A cada elaboração, o processo se tornou mais íntimo, humano, in vivo. E hoje é o Miguel.”