Família

Devagar e sempre

Cada vez mais pais e mães estão decidindo desacelerar quando o assunto é a criação dos filhos

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Natalie Engler nunca pensou que seria uma dessas mães malucas que deixam os filhos sob pressão constante. Ela é professora de yoga e, por ser profissional liberal, tem uma coisa com que a maioria de nós sonha: horário flexível de trabalho pra poder passar mais tempo com seus dois filhos, de 7 e 9 anos. Ela mora num bairro tranquilo, procura não lotar a agenda dos filhos com muitas atividades e faz questão de pedir a opinião deles antes de matriculá-los em algo novo. Um belo dia, foi apanhada de surpresa com uma queixa da filha. “Ela tinha aula de dança, ginástica e teatro toda semana, e me disse que se sentia sobrecarregada e não queria fazer tanta coisa assim”, conta Natalie. Quando a gente vê, entra na loucura de tentar preencher cada segundo do dia do filho, como se aquele tempo fosse um desperdício, é ou não é? 

Meio atordoada, pensou em pedir pra filha pensar melhor, dizer que ela poderia se arrepender de desistir da ginástica, depois de cinco anos de aulas e horas e horas (e horas) de treino. “Mas a criança sabe o que é melhor pra ela, a gente é que tem de parar e ouvir”, concluiu. “Minha filha sabe de seus limites. Foi um grande aprendizado para mim”. 

A percepção de que menos (atividades, correria, a loucura em que a gente se meteu) pode ser mais (tempo, convivência, tranquilidade pra curtir e conhecer os filhos) parece estar cada vez mais presente entre os pais, educadores e, pelo visto, até entre as crianças. Depois de anos ouvindo que os pais devem colocar Mozart para o bebê ainda na barriga, mostrar cartões com desenhos de objetos e letras para que ele aprenda o alfabeto antes mesmo de entrar na escolinha, ensinar futebol aos 3 anos de idade para desenvolver melhor as habilidades de jogador, ler livros para o filho desde pequenininho para ele se sair melhor no vestibular e, ainda, fazer tudo isso junto para que, no futuro, essa criança tenha alguma chance diante do competitivo mercado de trabalho do mundo real, muitas famílias estão começando a pedir arrego e levantar a bandeira branca. Help, we need somebody, ou, no português simples, Socorro, nós precisamos de alguém!

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“O conceito de ‘superpais’ está em declínio”, diz Carl Honoré, autor de Sob Pressão – Criança Nenhuma Merece Superpais, livro que está ajudando a popularizar a filosofia do “slow parenting”, movimento criado por ele. Sabe aquele lance de slow food em oposição a fast food? É por aí. Saborear a vida com os filhos em vez de transformá-la numa corrida. “Acho que o pêndulo, agora, está indo para o outro lado. Mais e mais famílias estão dando uma freada, voltando atrás e parando de tratar a criança como se ela estivesse numa olimpíada.”

Baixando a bola

Apesar de alguns pais começarem a dar sinais de que estão tirando o pé do acelerador há um tempinho, Carl Honoré acredita que esse movimento se intensificou com a crise econômica. “Todos nós tivemos de repensar tudo, desde nossos atos de consumo até a forma com que criamos nossos filhos”, explica. “Quando o dinheiro falta, inscrever a criança em alguma atividade extracurricular ou comprar aquele brinquedo novo não parece tão importante. Acho que as pessoas estão redescobrindo os simples prazeres da vida. E, para a família, isso significa passar mais tempo junto, sem precisar gastar dinheiro com programas caros, viagens ou tentando construir um currículo perfeito para a criança”. A crise não bateu tão pesado aqui como nos Estados Unidos, mas ninguém deveria precisar perder o emprego para rever o dia a dia com a família. Como a gente sempre fala, a infância passa rápido, e é preciso aproveitá-la muito.

Depois do “fique rico” dos anos 90 e do “passe 24 horas por dia e 7 dias por semana online” do novo milênio, a fase do “desacelere” está emergindo como uma nova tendência mundial. O movimento ainda é mais famoso quando se trata de alimentação, já que cada vez mais famílias estão substituindo os fast foods e as comidas prontas por alimentos orgânicos, preparados em casa, com ingredientes frescos e naturais. 

Até quando se trata de transporte a filosofia do “menos é mais” está ganhando adeptos. Com o crescente número de pessoas que preferem a bicicleta ao carro, por exemplo, várias cidades estão tendo de se adaptar à onda e construir ciclovias nas principais avenidas. Segundo Carl, até o mercado de trabalho está dando sinais de que o melhor é pôr o pé no freio: grandes empresas já começaram a aconselhar seus funcionários a não permitir que o computador e o celular ditem suas vidas. Ah, e muita gente está optando por passar as férias em hotéis fazendas, por exemplo, pra ficar em contato com a natureza. 

Pegar leve na criação dos filhos é outra manifestação da mesma filosofia. Apesar de não haver ainda estatísticas que provem essa prevalência, vários indicadores mostram que os pais querem abraçar um estilo de vida em família menos frenético. Pesquisa feita nos EUA pela revista Parents, em parceria com a empresa Synovate Inc., concluiu que metade das mães considerava a opção “ter um tempo de qualidade com os filhos” como principal prioridade. E mais de dois terços dos entrevistados concordaram que as crianças de hoje estão sobrecarregadas e que eles gostariam de incentivá-las a “parar por um momento e sentir o aroma de uma rosa”. Ou pra catar jabuticaba no pé, traduzindo para a realidade brasileira. 

Revendo os hábitos

“Os pais estão buscando maneiras de relaxar e passar mais tempo com os filhos”, afirma Bernadette Noll, mãe de quatro crianças e que, junto com Carrie Contey, fundou a “Slow Family Living” (vida em família em ritmo lento, em tradução livre), grupo educacional que fica na cidade americana de Austin. A organização registrou uma avalanche de inscrições em seus últimos seminários e vai até começar a oferecer programas em outras partes do país.

Lá fora, a freada na economia foi um dos grandes motivos pelos quais tanta gente começou a priorizar aspectos imateriais da vida. Mas há outros fatores também: vários especialistas dizem que, depois da era da mãe superprotetora e dos filhos com agenda de executivo, os pais estão optando, conscientemente, por dar uma diminuída no ritmo. Lenora Skenazy, autora de Free-Range Kids: Giving Our Children the Freedom We Had Without Going Nuts With You (crianças livres: como dar a nossos filhos a liberdade que tivemos sem enlouquecer), acredita que se trata de uma reação ao fato de que todos nós exageramos ao tentar proteger nossos filhos dos trancos e barrancos do dia a dia.

Desnecessário 

“É como se as crianças estivessem crescendo numa prisão de segurança máxima”, diz. “Há joelheira para bebês, capacete pra criança que está aprendendo a andar, sistema de GPS que cabe na bolsa de seu filho…”, afirma. 

Lenora defende que a segurança da criança tem de ser prioridade, mas o grau de precaução dos pais é desproporcional ao risco de acidentes a que o filho está realmente sujeito. 

“Temos de relaxar um pouquinho antes que a próxima geração de crianças cresça sem nunca ter brincado de carrinho sem a supervisão de um adulto”, explica. 

Outros pontos também precipitam esse ritmo insano na vida de uma criança. A epidemia de obesidade, por exemplo, pode ser atribuída, em parte, ao fato de elas passarem muito tempo em cursos e aulas e pouco se interessarem por atividades físicas. Além disso, essa busca excessiva por desenvolver as habilidades da criança tem um custo alto. Segundo artigo publicado pela Alliance for Childhood, instituição americana de pesquisa sem fins lucrativos, provas e tarefas não são suficientes pra dizer se uma criança terá sucesso no futuro nem melhoram seu aproveitamento na escola. E o pior: tanta tarefa acaba tirando da criança aquilo que ela realmente precisa pra se desenvolver: a brincadeira. “Brincar não é algo fútil. É a necessidade básica de uma criança”, diz um dos autores do artigo. Como dizia a educadora italiana Maria Montessori (1870-1952), brincar é o trabalho da criança. 

Finalmente, vários especialistas acreditam que os jovens pais de hoje começaram a ver alguns defeitos na forma com que foram criados. “Com tantos produtos para bebês gênios, a gente acreditava que nosso filho também seria um gênio. Mas isso não está acontecendo e não vai acontecer. Não é assim que funciona o desenvolvimento de um bebê”, explica Lawrence Cohen, autora de Playful Parenting (algo como parentalidade divertida).

Chega de loucura

Não existe fórmula mágica para transformar a rotina maluca em outra descontraída, mais relaxada. Mas defensores da filosofia do “slow parenting” têm várias sugestões pra que a gente dê uma maneirada. “Os pais precisam dar aos filhos tempo e espaço para explorarem o mundo do jeito que eles quiserem”, diz Carl Honoré. “Mantenha o nível de atividade da família sob controle e garanta que todo mundo tenha um tempo para descansar, refletir e ficar junto. Querer dar o melhor de tudo que existe para o seu filho pode não ser a melhor política”, explica. No site do grupo criado por Bernadette e Carrie (slowfamilyliving.com), sobre o qual falamos acima, há outras sugestões. 

Bernadette cita um exemplo: programar um dia por semana totalmente light: sem celulares, computadores, televisão ou video-games. “Um dia como esse faz uma diferença enorme, assim como dar uma volta ao ar livre, vendo a natureza e curtindo o momento em família”, defende. Segundo ela,  é importante que os pais deixem a criança em paz quando ela volta da escola ou da creche, e não preencha o resto do dia com ainda mais atividades.

Ou, então, siga o conselho de Sara Scott, mãe de Sebastian. Ela decidiu não colocar o filho de 3 anos tão cedo na escolinha. Em vez disso, estimulou-o a aprender no dia a dia: ouvindo uma música, brincando e lendo os livros que ele mesmo escolhe. Depois de uma visita ao zoológico, ela lembra como o filho ficou feliz só de brincar de subir e descer escadas e fingir que era mais alto que seus amigos. “A gente nem precisou ver todos os animais para aproveitar ao máximo aquela visita”, conta. “Simplesmente ficamos brincando por ali, cantando e curtindo aquele momento maravilhoso”. É isso: a vida acontece agora. Se a gente não tiver tempo pra ela já, quando é que vai ter? 

Pé no acelerador X Pé no freio

Pista de skate X Passeio de bicicleta

Vídeo-game X Jogos de tabuleiro

Televisão X Tempo livre

Fast food X Comida feita em casa 

Aulas extras X Ouvir uma história na cama 

Férias no resort X Acampar no quintal

Mãe superprotetora X Mãe relax 

Passeio com guia turístico X Passeio com a avó 

Fim de semana corrido X Fim de semana preguiçoso 

iPod X Cantarolar por aí

Para saber mais:

Livros sobre a situação da infância e sobre como tirar o pé do acelerador

Sob Pressão – Criança Nenhuma Merece Superpais, de Carl Honoré. As crianças de hoje estão sob constante pressão dos pais, da escola e de si mesmas. Um livro fundamental para finalmente cair a ficha de que as crianças precisam de tempo para ser crianças. 

Coisa de Louco, de John O´Farrel.Nesta divertida ficção, Alice e David são os típicos superpais, que fazem de tudo para seus filhos terem todas as chances na vida. Tudo mesmo. A mãe chega a se disfarçar de aluna para fazer um exame escolar no lugar da filha.

A Infância, de Peter Stearns.O autor analisa a infância em vários momentos históricos e várias sociedades. Fala de trabalho infantil, globalização cultural e a expansão do consumismo centrado na criança.

O Desaparecimento da Infância, de Neil Postman. Postman escreveu este livro há dez anos, mas foi visionário. Ele previu, com exatidão, o surgimento da criança-adulto e do adulto-criança e que ambos se tornariam idênticos, com diferenças marcantes apenas na primeira infância e na velhice. Medo.

Einstein Teve Tempo para Brincar, de Diane Eyer, Kathy Hirsh-Pasek e Roberta Golinkoff.Como nossos filhos realmente aprendem. No lugar dos mil e um cursos extras, brincar é o que as crianças mais precisam para aprender a lidar com o mundo.

Sem Tempo para ser Criança – A Infância Estressada, de David Elkind. O livro mostra uma nova geração de pais, que pressionam cada vez mais as crianças, e explica por quê isso ocorre, oferecendo um alerta e encorajando o desenvolvimento saudável, enquanto defende o desfrute da infância.