Família

Cada vez mais juntinho

O vínculo paterno já foi subestimado, mas o momento é de valorizar a paternidade

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Nada supera o vínculo entre mãe e filho. Afinal, ela passa nove meses gerando o novo membro da família. Ela é quem sente as dores do parto, quem alimenta e acalma o recém chegado. Mãe e bebê estão unidos por um laço tão apertado que demora para perceberem que, na verdade, são indivíduos distintos.

Mas ali, logo atrás, está ele, o pai, cada vez mais disposto a suar a camisa para estreitar a relação com a cria. Porque se o laço entre mãe e filho é visceral, o vínculo paterno depende de participação e comprometimento. Se seu filho ainda está no útero, talvez você já tenha ouvido conselhos para conversar com a barriga. Pode parecer ridículo, mas lembre-se de que lá de dentro dá pra ouvir tudo o que se passa do lado de cá. É a chance para habituá-lo à voz e à presença paternas.

Felipe Lorente, pai de Martim, adorava conversar com o bebê na barriga. “Fazia carinho tentando descobrir onde estavam os pés. Falava sobre o quanto as coisas estavam ficando prontas, à sua espera. Sobre quanto ele já era amado por todos, mesmo antes de nascer”, lembra, entusiasmado.
Vale cantar, tocar, apresentar suas músicas favoritas. Use a criatividade e aproveite a gravidez pra já ganhar intimidade com o seu rebento.

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Gabriel Muller, pai de Liz, lembra que ele e a esposa iam criando apelidos a cada passo da evolução: “Primeiro ela era nossa pequena azeitona, conforme ela crescia novos apelidos surgiam… hoje ela é nossa dinossaura!”.

Mas engana-se quem acredita que a criação do vínculo paterno dependa exclusivamente de fatores externos. O cérebro do homem também sofre uma verdadeira enxurrada química.

“Pesquisas da National Academy of Science comprovam que os recém-pais estão banhados com mais prolactina (mais amor, menos libido) e menos testosterona (menos apetite sexual e menos atitudes agressivas)”, explica o Dr. Marcus Renato de Carvalho, pediatra, editor do site Aleitamento.com e pai de Clara e Sophie. Em outras palavras: no pós-parto nós também ficamos meio mulherzinhas.
“Por incrível que pareça, chegou a transformar meu cheiro, que sempre se caracterizou por ser forte e acre. Na primeira semana, fiquei com o mesmo cheiro do nenê”, acredita André de Toledo Sader, pai do Francisco. Para ele, a conexão com seu filho não tem nada de artificial: “Talvez por ter sentindo o momento exato da concepção, o elo surgiu forte e espontâneo, desde o começo. Já na maternidade senti que ali estava minha cria, uma sensação arrebatadora…”.

Na retaguarda

O pós-parto costuma ser um período difícil para o pai encontrar o seu lugar. “Realmente este é um período em que o pai fica mais no banco de reserva do que dentro de campo. O homem pode até sofrer depressão pós-parto, porque se sente excluído, sente que perdeu o seio materno, a mulher…”, alerta o Dr. Marcus Renato.

O conselho é um só: relaxe.  Como a gravidez e o parto despertam certo grau de estresse, fundamentalmente para a mulher, seu papel é oferecer todo apoio possível, dando sustentação emocional à família.

“Não acho que nosso papel se resuma à ajuda, mas, apoio, nessa hora, é tudo o que eles precisam. Eu fazia comida todos os dias (uma dieta reforçada), lavava roupa, enfim, deixava a mãe tranquila para que ela pudesse cuidar do bebê e se recuperar da cesariana”, conta Felipe, que tirou férias quando o filho nasceu. “Percebo que nosso vínculo fica mais forte a cada dia. Nos momentos de estresse do bebê e da mãe, quando ambos parecem que vão explodir, eu trago o Martim para o meu colo, falo com ele, abraço bem calmamente e faço ele sorrir ou dormir”, complementa.

Muitas mulheres, nesse período, se comportam como verdadeiras leoas na proteção de sua cria, impedindo a atuação dos homens e, por consequência, atrapalhando o processo de formação dos vínculos.
”Muitas vezes, esta atuação é inconsciente: ‘ele não sabe pegar o bebê no colo’; ‘ele não troca a fralda direito’; ‘ele é desajeitado’…

Nunca os homens irão atuar da mesma forma que as mulheres, é mesmo um outro jeito, que não deve ser desqualificado”, comenta o Dr. Marcus. E o que elas podem fazer para ajudar na formação desse vínculo? Convocar o homem para dar colo, levar ao pediatra, às vacinas. E se a fralda que ele trocou ficou meio torta, não faz mal, elogie!

Por uma nova paternidade

À medida que o bebê cresce, lá para o sétimo ou oitavo mês de vida, a figura paterna se torna o apresentador de todo um mundo novo. E o vínculo de pai e filho se torna ainda mais forte.
“Nessa hora o pai é aquele que altera a díade mãe e filho e traz mudanças significativas. O colo, aconchego e proteção exercidos pela mãe vão dando lugar à aventura de enfrentar o mundo do perigo, das ações arriscadas e da curiosidade…”, afirma Vivien Bonafer Ponzoni, Psicoterapeuta de Família e Casal.
É a fase em que a criança não quer mais ficar no colo, mas conhecer seu espaço e as coisas que fazem parte dele. O pai passa a ser o incentivador de que o filho jogue bola, brinque de luta (independente do sexo da criança) e tantas outras atividades que o distanciam da proteção materna. É quando, finalmente, cortam o cordão umbilical. “A criança aprende que há amor. Um amor manifestado de forma diferente daquele experimentado por ela e sua mãe”, diz Vivien.

Apesar de tal importância, o vínculo paterno continua subestimado por nossa legislação. O período de “folga” da licença paternidade é de apenas 5 dias úteis. Legalmente, ao homem só é dado o direito de cumprir as tarefas burocráticas e tomar as providências domiciliares mais emergentes. Mas nada de tempo para criar um vínculo com o recém-nascido.

Gabriel acha que os pais deveriam ter o mesmo tempo de licença que as mães. Já Felipe considera 3 meses um tempo razoável. André é mais radical: “na plena utopia, diria que um ano para o pai e dois anos para a mãe, até o menino estar falando e e pronto para ir para a escolinha.”

Este é o chamado “novo pai” – hoje, já nem tão novo assim: aquele que não mais se conforma com o papel de provedor financeiro. Até porque o modelo econômico mais adotado pelas famílias é o de dividir as despesas. O homem está revendo os conceitos da paternidade, fazendo questão de estar cada vez mais presente na criação e educação dos filhos. Reparem: nunca foi tão comum cruzar na rua com um pai brincando com seu filho, sozinhos, como se fossem dois moleques.

Para o grávido

É na barriga que o link começa.Participe da escolha da equipe de saúde. Eles é que vão cuidar de sua mulher e de seu filho, neste momento tão importante. Não fuja dizendo: “confio na escolha dela”. Eles vão, inclusive, determinar se você vai participar do parto e como.
Acompanhe sua mulher em todas as consultas e exames. Não perca a oportunidade de ouvir o coração de seu filho ou de vê-lo na ultrassonografia.

Matricule-se num curso de preparação para casais grávidos. Você vai encontrar um monte de outros homens com as mesmas questões.

Desenvolva sua vida sexual. É comum que ocorra uma diminuição do seu apetite sexual ou dela, mas não se afastem tanto assim. Amor e sexo na gravidez fazem bem ao casal e ao feto.

Tenha muita paciência. Com o aumento da sensibilidade dela, você terá que enfrentar seus acessos de choro sem causa e sua grande necessidade de proteção. Capriche nas demonstrações de carinho.

Faça contato. Ele ouve e reconhece sua voz a partir do 5º mês de gravidez, portanto: comunique-se.

Dê palpites no enxoval. Não se limite a pagar. Participe da escolha do berço, do carrinho, do enxoval, da decoração do quarto…

Faça a mala. Prepare sua bagagem com um mês de antecedência e coloque nela tudo que precisar para poder permanecer, com eles, na maternidade, o tempo que for necessário.

Consultoria
Marcus Renato de Carvalho, pai de Clara e Sophie, é pediatra, editor do site aleitamento.com.
Vivien Bonafer Ponzoni, é psicoterapeuta de família e casal e Coordenadora do Núcleo de Família e Casal da Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama.