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Projeto faz pais deficientes visuais “verem” o feto

Iniciativa reproduz feto de resina em 3D gratuitamente

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

 

Você já parou para pensar como é a gestação de uma deficiente visual? Sem dúvida, as características e sintomas são os mesmos, mas é na forma de sentir o bebê que está a diferença. Por ter os outros sentidos mais aguçados, elas são capazes de perceber detalhes que para mulheres sem a deficiência é um pouco mais difícil de identificar. Nada comprovado, mas elas dizem que, pelo costume de prestar mais atenção a movimentos e sons, conseguem perceber posições que são confirmadas mais tarde no ultrassom, por exemplo.

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“Como não tenho a visão, acabo prestando mais atenção nos detalhes, como a posição do meu filho e o que ele está fazendo. Se me chuta, não sei se foi com o pé ou com joelho, mas sei que foi com o lado esquerdo. E quando o médico descreve a posição em que ele está sempre é do mesmo jeito que eu imaginava”, contou Ana Paula Silveira, fisioterapeuta, filho de Maria Izabel e José, deficiente visual desde os 7 anos de idade e que está grávida de 8 meses.

O ginecologista e obstetra especialista em medicina fetal, Heron Werner, pai do Enzo, diz que “a pessoa que tem a deficiência visual de longa data desenvolve outras compensações. Elas prestam mais atenção e naturalmente focam mais do que as outras. Então elas têm mais percepção de movimento”, diz.

O pré-natal é igual, os exames e as consultas seguem da mesma maneira. O que muda é que, durante o ultrassom, o médico se torna também um narrador. Justamente por não enxergarem o bebê que está se formando, a única forma de conhecer o máximo de detalhes do filho é se alguém disser tudo o que está vendo, nos mínimos detalhes. Tem quem leve amigas e até contadores de histórias para ajudar o médico nessa hora.

Bebê impresso

Além de imaginar e sentir o bebê dentro da barriga, os deficientes visuais podem tocar as formas do feto. Um projeto com apoio do Instituto Tecnológico do Rio de Janeiro reproduz fetos em 3D gratuitamente para cegos. “Nunca me preocupei pelo fato de ser deficiente visual, mas, como engravidei sem planejar, na hora do choque passa esse tipo de pensamento pela cabeça. E eu sempre imaginei como seria o ultrassom”, contou Ana Paula, que desde o início da gestação teve acesso ao feto 3D.

O ginecologista Heron Werner é um dos idealizadores do projeto e diz que, desde o início, em 2011, já acompanhou sete mulheres na mesma situação. Ele conta que continua narrando o ultrassom, porque, depois, com a reprodução em mãos, as mães revivem o processo e confirmam os detalhes que ouviram, além de acrescentar mais alguns.

“Do mesmo modo que uma mãe se emociona ao ver as imagens na tela do ultrassom, eu sinto a emoção de pegar no meu filho. Por mais que os médicos tenham a preocupação de descrever todo o exame, a sensação de sentir o bebê nas minhas mãos não se compara”, contou Ana Paula, que está fazendo todo o pré-natal pelo SUS e define o trabalho como de caráter inclusivo e de acessibilidade.

As fases

A reprodução é feita em resina e realizada três vezes durante a gestação, uma por trimestre. Elas são baseadas nos exames de ultrassonografia e ressonância magnética, e até 2011 eram destinadas apenas a estudos, mas, como deu muito certo, os especialistas pensaram também nos deficientes visuais.

“A qualquer idade da gestação é possível fazer a impressão do feto em 3D, desde que os exames sejam de boa qualidade”, diz o médico. Por exemplo, no final da gestação, já quase sem espaço, o bebê fica espremido, e a imagem pode ficar deformada. Mas este vai ser o mesmo problema que a mulher sem a deficiência vai ter ao realizar o exame.

A primeira impressão do bebê em 3D é feita por vota de 12 semanas de gestação, quando só com o ultrassom é possível ter a reprodução do corpo inteiro. Nesta fase ainda não é possível sentir os detalhes da face ou qualquer outro apenas com o toque. Alvaro Zermiani, marido de Ana Paula, jornalista, e também deficiente visual, conta que nesta fase só conseguiu perceber as formas do corpo do bebê. E Ana lembra: “O médico me disse que o bebê estava cobrindo o sexo com a mão, e quando, chegou a reprodução, era exatamente isso que ele estava fazendo”.

A segunda reprodução pode ser feita entre a 20ª e a 22ª semana, mas desta vez, é apenas o rosto do bebê que vai ser impresso. “Com o ultrassom só conseguimos fazer uma reprodução do corpo inteiro até 16 semanas de gestação. Depois, só é possível reproduzir por partes”, explica o médico.

Alvaro contou que, quando recebeu a segunda reprodução, apenas do rosto, foi fácil saber com quem o filho se parece mais. “Ela percebeu que era parecido comigo pelo formato do nariz, da boca. E eu também senti que as características são minhas”, disse.

A terceira impressão 3D do bebê é feita através da ressonância magnética, que capta informações do corpo todo em uma imagem só. Apesar de o bebê estar espremido no útero, é uma das reproduções que mais deixam os pais ansiosos. “Ter a possibilidade, sem enxergar, de conhecer o nosso filho, é uma dádiva”, disse Alvaro.

 

Consultoria:

Heron Werner, pai do Enzo, especialista em medicina fetal e ginecologista obstetra do laboratótio Alta Excelência Diagnóstica. feto3d.com