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Ops, dei uma bronca

Ops nada! Bronca é fundamental, quando vem na hora certa e do jeito certo

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

A gente tem a tendência de dizer muito “sim” para nossos filhos. Isso significa realizar todos os seus desejos e vê-los satisfeitos. Significa nunca vê-los chorar frustrados. E significa também criar filhos despreparados para a vida. Claro, não dá! Por isso estabelecemos limites e dizemos “nãos”. E, quando eles não respeitam as regras, damos bronca. Às vezes a gente se pega dando mais broncas do que imaginávamos ser possível. E bate uma culpa básica… Pode parar com isso! É papel das crianças descobrirem o mundo, testarem e retestarem os limites à exaustão. O nosso papel é ser firme nos limites.

Será que estou exagerando?

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Cansa, é trabalhoso, mas dar bronca faz parte do processo de educação. Por favor, vá com calma. Afinal, bronca não pode ser uma expressão de raiva ou agressividade e, sim, um reforço dos limites que você estabeleceu. Tranquilidade e firmeza são sempre bem-vindos, enquanto os gritos e explosões só atrapalham, garantem os psicólogos e pais experientes.

Barbara Pelacio, mãe de Joana, de 2 anos, percebeu na prática que falar alto com a filha simplesmente não funciona. “Com ela, o resultado é melhor se falo devagar e olhando no olho. E já vi que os filhos são uma reprodução do que fazemos. Nunca grito porque não quero que ela se torne uma criança que sai gritando por qualquer coisa”, conta.

Ainda assim, a mãe acha que exagera no número de broncas de vez em quando. “É difícil medir a ‘dose certa’, encontrar o equilíbrio. Sempre fico me perguntando se as broncas são mesmo necessárias, mas ela está numa fase em que faz tudo para nos testar. Se falo que não é para subir em algum lugar, ainda assim ela vai lá tentar várias vezes, ver se o ‘não’ é pra valer”, diz Barbara.

É fase
Entre os 2 e 5 anos, de fato, é bem comum esse tipo de insistência: é a famosa birra. Os “eu quero” ou “não quero” se repetem aparentemente ao infinito. Haja paciência para não se irritar e persistência para não ceder. “Quando já falei algumas vezes e vejo que estou ficando nervosa, tento ignorar os pedidos”, afirma Barbara. Na casa dela, bater, beliscar, chacoalhar ou qualquer outra forma de agressão estão fora de questão. Ainda bem!

Ignorar pode ser mesmo uma boa fórmula para não se render nem aos apelos do filho nem à própria irritação, mais ainda quando a birra se torna um escândalo em local público.
A psicóloga comportamental Paula Pessoa Carvalho, mãe de Heitor, explica que o ideal é, antes de sair de casa, ou no caminho, explicar para onde estão indo, o que vai acontecer, e qual o comportamento esperado. “Depois não tem discussão; você pode repetir o que foi combinado e ficar por perto até a criança se acalmar”, recomenda.

A criança, mesmo pequena, percebe se o pai ficar constrangido em público e acabar cedendo, e passará a usar essa estratégia para conseguir o que quer. Ok, não é fácil ficar exposto ao julgamento alheio com um filho se jogando no chão e gritando no meio de um corredor de shopping, mas o jeito é ignorar também as reações ao redor. Vai ter sempre alguém achando que você está fazendo demais ou de menos.
“Se o pai cede, logo a criança vai dominar a casa”, diz Paula. Além de não perder o controle, essa atitude coerente passa a sensação de segurança para os filhos. “Ela vai confiar em você, saber que sua palavra tem valor”, garante a psicóloga.

Desde cedo
A conversa vale como bronca e também como forma de “prevenção” a broncas desde que os filhos são bebês. “Não é porque um bebê ainda não sabe falar que ele não entende. Mas junto com a explicação, que deve ser simples, os pais precisam falar com expressão séria, sem brincar, para que a intenção deles fique bem clara”, diz. Ou seja, se você falar para um bebê que está engatinhando “sai daí que é perigoso”, mas ao mesmo tempo for pegá-lo e fizer cócegas, ele vai ficar confuso.

Na teoria parece mesmo simples: você explica antes, mostra como ele deve se comportar e, caso o filho desafie, você repete mais uma vez o limite de forma firme, mas sempre mantendo a calma. Claro que na vida real nem tudo sai assim tão bonitinho… Às vezes a gente perde o controle e acaba exagerando ou dando broncas injustas. Ainda assim, não adianta se culpar. O que vale mesmo é se desculpar.

“A culpa só atrapalha e os pais não conseguem educar. Por mais que a gente tente, sempre vai errar. Mas se deu bronca de forma errada, peça desculpas, diga que perdeu a cabeça. Assim você ensina seu filho a também pedir desculpas e aceitar seus próprios erros. É bom para dar um modelo; a gente educa pela ação, não pelo sermão”, afirma a psicóloga e pedagoga Elizabeth Monteiro, mãe de Gabriela, Samuel, Tarsila e Francisco, autora do livro “A Culpa é da Mãe” e colunista da revista Pais & Filhos.

Quando pedir desculpas
O que é dar uma “bronca errada”? Ficar fazendo comparações com outras crianças, colocar em dúvida o amor que sente pelo filho ou atribuir um papel negativo a ele, ao dizer coisas como “você é um chato” ou “um preguiçoso” na hora da raiva.

Dar bronca antes mesmo de ouvir o que o filho tem a dizer também pode levar à necessidade de pedir desculpas. “Os filhos têm o direito de se explicar, mostrar o ponto de vista deles. Os pais devem ouvir e respeitar, ainda que não concordem”, diz Betty.

Elly Chagas conta que várias vezes já se viu pedindo desculpas ao filho, Caetano, de 5 anos. “Tem momentos em que a gente está preocupada com tantas outras coisas que acaba não ouvindo, ou exagerando. Outro dia, na hora de sair para ir para a escola, ele ficou enrolando. Já no carro, passei o caminho todo dizendo sobre a importância de a gente sair na hora porque tenho horário para entrar no trabalho. Quando me dei conta, cheguei no trabalho até antes do normal. Na hora de buscá-lo, pedi desculpas”, conta.

Para Elly, não há nenhum constrangimento ou perda de autoridade ao reconhecer que errou. Segundo ela, no momento em que pede desculpas, o filho para, ouve e aceita e, dessa forma, aquela tensão que tinha entre vocês parece simplesmente se desfazer. “O Caetano se explica, e muito, e às vezes acontece de eu ver que ele tinha razão em fazer o que fez”, afirma.

Na prática, é preciso dar broncas para conseguir educar os filhos. Quem não dá, deixa a criança sem limites, cria uma sensação de abandono, como se não ligasse para ela, não a amasse, defende Betty Monteiro. “Uma das consequências disso é que a criança pode se tornar uma pessoa com dificuldade de relacionamento, que não conhece seus limites, nem seu lugar e importância na família.” Com coerência e tranquilidade, as broncas são um sinal de amor.