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“O fenômeno do envelhecimento vai transformar a sociedade”

Entrevistamos a jornalista Marcia Neder, que lança o livro “A Revolução das 7 Mulheres” para falar sobre o que é ser mulher depois dos 50 anos

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

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A embaixadora da Pais&Filhos e jornalista  Marcia Neder lançou recentemente o livro “A Revolução das 7 Mulheres”, obra que é resultado de mais de um ano e meio de pesquisas e estudos. Nele, Marcia conta  a história de sete mulheres que representam a geração que está reinventando a maturidade: são pessoas que fizeram a revolução feminina, são bem sucedidas profissionalmente e são consumidoras ativas, que movimentam mais de R$ 1 trilhão por ano no Brasil. São sete perfis que estão aí para provar que envelhecer hoje em dia é muito diferente do que foi para nossas mães e nossas avós.

A pesquisa sobre as “baby boomers” foi coordenada por Marcia por meio de sua empresa Todas as Mulheres. Entrevistamos nossa embaixadora, com mais de três décadas de experiência em revistas femininas e especialista em comportamento, para falar mais sobre essa nova geração e esse novo fenômeno demográfico que acontece no Brasil. Conversamos ainda sobre maturidade, sobre o que é ser mulher depois dos 50 anos, sobre o papel da avó na criação das crianças e, principalmente, sobre o que é envelhecer. Confira a entrevista:

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1) Quem são essas mulheres que hoje fazem 50, 60 anos? Que tipo de mãe elas foram, que tipo de avós elas são?

As mulheres que pesquisei foram mães que trabalhavam em uma época em que isso era quase um crime. Se a gente acha que é difícil hoje, naquela época em que ainda elas tinham que provar que eram tão competentes quanto os homens no trabalho, o nível de compreensão das empresas e dos gestores com a gravidez e a maternidade era zero. Sem falar que, naquela época, os pais eram muito menos envolvidos com a criação dos filhos do que hoje. A carga ficava totalmente com as mulheres.

Hoje, elas ainda são mulheres muito ativas, que nada têm a ver com o papel tradicional da vovó que se recolhia em casa para cuidar de netos na maturidade. Elas amam os netos, mas não vivem para eles. Têm muitos interesses e pouca disponibilidade. Mas são ótimas avós, sem carências e sem essa ideia de que têm que substituir os pais na educação dos netos. Com elas, a relação é uma farra, sem cobranças ou rigidez.

2) Essas mulheres criaram seus filhos para serem pais e mães. Qual a diferença entre as mães que as mulheres que hoje tem 60 foram e as mães de hoje?

No fundo, todas querem ser perfeitas e lutam para controlar um pouco a culpa que sempre têm no coração. Ao mesmo tempo, já aprenderam que perfeição é impossível e que o que é realmente importante é o afeto e a segurança emocional. E isso não se mede em horas passadas com a criança, mas na natureza da relação. Acho que elas deram um bom exemplo para suas filhas e filhos, de que o fato de trabalharem e terem vidas corridas não eram sinais de desamor. Hoje, as mães jovens podem levar seus múltiplos papéis com mais leveza, porque a geração de suas mães abriram muitas portas e amaciaram o caminho.

3) Como você teve a ideia de escrever esses perfis?

Há uma mudança demográfica gigantesca no país. O Brasil passa de um país jovem para um país maduro no espaço de uma geração. Em 2030, ou seja, em apenas 15 anos, teremos mais gente acima de 65 anos do que entre 0 e 14 anos. O fenômeno do envelhecimento acelerado é inédito no país e vai transformar a sociedade. O Brasil mais velho é feminino porque a nossa expectativa de vida já é hoje quase oito anos maior do que a dos homens. E esse número não para de crescer. Ao mesmo tempo, a cultura tradicional encara a maturidade como o começo do fim. Só que a geração que fez a Revolução Feminina em meados do século 20, e mudou a vida das mulheres para sempre, não poderia envelhecer como suas mães e avós. Rompendo mais uma vez o script, estão revolucionando o envelhecimento e criando um novo sentido para a maturidade. Elas são ativas, saudáveis, bem sucedidas, bonitas, vaidosas, atuantes, com dinheiro no bolso, cheias de planos e projetos, inovando, estudando, criando novos negócios e gerando empregos e riqueza para o país. Bem diferentes daquela imagem de fragilidade e dependência que se costuma associar à maturidade, que começa simbolicamente aos 60 anos. Mais uma vez, portanto, essa geração está fazendo uma revolução que vai mudar a vida das mulheres. E mais: vai mudar a sociedade, a economia, a cultura, as políticas públicas e a dinâmica das famílias.

4) Há algum tempo existia um movimento de ignorar as mulheres depois dos 40, 50 anos e endeusar as mulheres mais jovens. Você acha que esse movimento está mudando?

Isso ainda existe. A maturidade e a velhice são invisíveis, envoltas em caricaturas e estereótipos. O velho não existe. Nem são enxergadas as numerosas nuances que existem no grande borrão da Terceira Idade, cheio de nichos muitos diferentes entre si e com necessidades específicas. A juventude sempre foi endeusada, na cultura, na publicidade, na mídia em geral. Esse é mais um paradigma que elas estão quebrando. Com esse novo comportamento, elas surpreendem e passam a ser aspiracionais para os mais jovens. Mas essa mudança é lenta e ainda está em andamento.

5) Quem são essas perfiladas? O que nessas mulheres mais te chamou atenção?

São as baby boomers, ou seja, mulheres nascidas no pós-guerra, entre 1946 e 1964, que protagonizaram a Revolução Feminina no século 20 e estão revolucionando a maturidade no século 21. O que mais me chamou a atenção nelas é a força, a resiliência, a capacidade de viver cada etapa, cada dificuldade, resolver os problemas e ir em frente, sem ficar se lamentando ou se fazendo de vítima. Elas olham para frente, são curiosas, dinâmicas, produtivas, otimistas, cheias de novos propósitos e sonhos.

6) O que é envelhecer para as mulheres de hoje? Como a perspectiva de envelhecimento mudou?

Envelhecer para elas não é começo do fim, mas o início de uma nova fase que pode ser muito rica, divertida e prazerosa. E sabem que ainda têm 20, 30 anos pela frente e querem fazer desse tempo uma fase de independência e realização tão fundamental como foi até agora.

7) Como as famílias têm lidado com essa nova mulher de 50, 60 anos?

As famílias estão lidando muito bem. Elas descobrem agora que os filhos ficaram mais fortes por terem mães fortes e independentes, e não têm nenhum problema com isso, como cansaram de ouvir que aconteceria quando deixaram a vida doméstica para vencer no mundo profissional. Descobrem agora que valeu a pena ter enfrentado todos os momentos de dúvida ao verem hoje os filhos autônomos, fortes e equilibrados.

8) O que significa para você e para essas mulheres “reinventar a maturidade”?

É mudar o curso da vida, realizar sonhos, inovar, continuar ativas e saudáveis. É desenvolver novas habilidades e perseguir novos propósitos. É não encarar a maturidade como uma limitação. Se o corpo não é mais o mesmo, e não é, a mente ganha em poder e fertilidade. Somos capazes de realizar muito mais e melhor qualquer coisa que exija experiência e sabedoria.

9) Quais são os novos sonhos das mulheres que hoje têm entre 50 e 60 anos?

São os mais variados. Pode ser sair de uma corporação e abrir um negocio próprio, ou construir a casa dos sonhos. Pode ser implantar uma filial da empresa no exterior ou tirar um ano sabático na Toscana. O que elas não vão fazer de jeito nenhum é ficarem velhinhas no sofá, esperando a morte chegar. Querem estar autônomas e independentes aos 80, 90 anos, criando e aprendendo todos os dias.

10) Essas mulheres são mais independentes ou mais ligadas à família?

Não existe essa oposição. Elas são independentes e profundamente ligadas à família, que é um eixo fundamental. E esperam ter criado filhos independentes que valorizem a família em primeiro lugar. Não são coisas incompatíveis, mas complementares e essenciais. As duas.

11) Para a Pais&Filhos, família é tudo. E para você?

Para mim também! Amo a minha família acima de tudo: minha filha Roberta, que tem 24 anos, e meu marido Roberto, que há 25 anos é um mestre em saber lidar com uma mulher independente.