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Não é preguiça, é cansaço

Cuidar de filho cansa. E é por isso que, às vezes, é preciso delegar algumas funções sem querer morrer de culpa

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Ele chora às 11 da noite, depois às 2 da manhã, lá pelas 4 dá o ar da graça e, quando você embala o sono dos justos, o despertador toca. Hora de preparar o café da manhã, de sair para o trabalho ou de fazer a primeira troca do dia. Ter filho é muito bom, mas que cansa, cansa!

E se sentir exausta por causa dessa rotina sem fim é normal. Para as coisas ficarem mais fáceis, é preciso ser menos controladora, delegar mais e se culpar menos. “A mãe se cobra de sempre estar em estado de alerta, em ter disposição para os filhos e, quando não consegue, ela carrega uma culpa por um papel esperado – principalmente por ela mesma – de ser uma boa mãe”, explica Cecília Russo Troiano, psicóloga, nossa colunista e mãe de Beatriz e Gabriel.

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O pior é que a gente tende a chamar o cansaço de preguiça, como se não fosse legítimo. “Ah, tô com preguiça de fazer o jantar…” Se você passou o dia inteiro correndo de um lado pro outro – foi trabalhar, buscar as crianças na escola, levar no pediatra, fazer supermercado, arrumou a casa etc. – atenção: isso não é preguiça, é cansaço!  “Temos um trabalho longe de casa e duas horas de trânsito. Nenhuma mãe prepara um boa papinha ou conta uma linda história depois de um dia exaustivo de trabalho e um engarrafamento”, completa Cecília.

Betty Milan, mãe de Mathias, psicanalista e nossa entrevistada do mês, concorda que se sentir cansada e ter preguiça do dia a dia materno é normal e diz que é preciso compartilhar funções. “Nada impede que avó, pai ou babá compartilhem os cuidados. É até melhor, porque a criança terá mais de uma identificação possível e a mãe ficará mais feliz de estar com a criança, mais tranquila”, explica Betty.

O pai é uma figura importante nessa hora. Existem momentos exclusivos da mulher, sim, mas algumas tarefas ele pode e deve fazer. Cuidar de tudo sozinha também causa falta de paciência. Todo mundo já se irritou com o filho por puro cansaço e, aí, lá vem a culpa de novo.

A tal da boa mãe

A psicóloga Cecília explica que esse modelo de “boa mãe” surgiu no século XIX e poucas são as que conseguiram se livrar dele. “Estamos tentando moldar um conceito de mãe equilibrista, que é a mãe contemporânea. Aquela que trabalha, vai à academia, cuida da casa, do marido e dos filhos. Mas ainda existe uma referência amarrada, lá atrás, no significado imaginário do que é ser uma boa mãe. E isso gera uma angústia”, diz.

Para ser uma boa mãe não é necessário seguir esse modelo antigo. O importante é observar e escutar o filho, aprender com ele o que fazer. “Isso significa educar em função da realidade do filho e não do que a mãe deseja para ele”, diz Cecília.

Ninguém vai pôr em xeque o amor de uma mãe pelo filho só porque ela deixou a criança umas horinhas na casa dos avós para poder curtir um jantar romântico com o marido. A companhia dos avós, inclusive, é o que mais deixa as crianças felizes, depois dos pais, segundo pesquisa da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Não estamos dizendo para você abrir mão das suas obrigações de mãe por pura preguiça de fazêlas! Apenas que, em alguns momentos, é preciso descansar o corpo e a mente, tirar férias dos filhos, e sem se sentir mal por isso.

Um pouco de autonomia

Estar no convívio de outras pessoas, desde que sejam familiares ou alguém do círculo de amizade dos pais e da criança, serve de estímulo e de crescimento. “É nessa hora que ela começa a entender o sentido da perda, por exemplo. Mas também do retorno. De saber que os pais se ausentaram por alguns instantes, mas que voltarão. É aprender a lidar com a frustração”, diz Saul Cypel, pai de Marcela, Irina, Eleonora e Bruna, nosso colunista e neuropediatra.

Deixar o filho de lado, por um instante que seja, é muito mais um problema para nós, mães, do que para os filhos. “É preciso ensiná-los, logo que nascem, que ficar junto não é estar fisicamente junto o tempo todo. A mãe pode brincar um pouquinho e depois estimular a criança a pegar um brinquedo, construir algo, para que ela possa ler um livro ou responder um email, por exemplo”, diz dr. Saul.

E para quem acha que deixar a criança se virar sozinha é motivo de preguiça ou falta de cuidados, saiba: é nessas horas que elas aprendem a resolver seus próprios problemas e entram em contato com a independência. “Se você der uma colher a uma criança de 1 ano, ela vai pegar o alimento e tentar colocar na boca. E daí que faça uma sujeira? Isso fica para depois. Já o processo de independência não dá pra esperar, essa criança precisa ser estimulada desde sempre”, explica Cypel.

Você não pode e nem deve dedicar todo o seu tempo às crianças. Vivemos dizendo aqui na Pais & Filhos: se você não estiver feliz (namorando, curtindo as amigas, trabalhando e se sentindo bonita), não será uma boa mãe. Por isso, aceite o cansaço quando ele bater e delegue algumas tarefas para poder descansar.

mãe, tô com fome!

Convenhamos, nem chefe de cozinha cria um jantar diferente a cada dia. E, após pegar os filhos na escola, chegar em casa do trabalho, aquela luta para colocar no chuveiro e você ainda tem que preparar um banquete em meia hora? Impossível! Desde que os alimentos sejam de procedência conhecida e corretamente armazenados, é possível congelar sopas, feijão e já deixar alguns pratos prontos para irem diretamente ao forno.

“O importante é evitar os  alimentos do tipo fast food, biscoitos e bolachas, aqueles petiscos que enganam a fome da criança e fazem mal à saúde”, explica o dr. Saul. E isso não quer dizer que você não pode simplesmente comprar alimentos prontos. O importante, segundo o médico, é verificar a forma de preparo. Veja se não tem conservantes e consulte o valor nutricional nos rótulos. É importante manter a variedade de alimentos e nutrientes e ficar atento à oferta de uma alimentação saudável. Mesmo as crianças maiores de um ano não devem comer a mesma alimentação da família, caso esta não seja equilibrada, variada e rica na oferta de nutrientes.

O ponto-chave é tentar preservar o momento, o contato da família na hora da refeição. “Mais importante do que o que oferecer à criança é a forma como comem juntos. O ritual do almoço ou jantar deve ser preservado. É nessa hora que conversas surgem, que vocês trocam experiências e que a criança se sente acolhida”, diz o pediatra. Então, se o pavio tá curto, seja prática e não crie monstros. Você pode usar as papinhas prontas ou ainda descongelar uma comidinha, aproveitando melhor o tempo longe do fogão, mas perto da cria.

Estratégias para descansar um pouco

Mãe também é gente e, às vezes, é preciso dar um tempo (de tudo e todos) e olhar para o próprio umbigo.

Estimule a autonomia

Treine a independência da criança na hora da refeição e reserve um canto da casa no qual a bagunça possa ser feita sem dó. Deixe a criança pegar alimentos e colocá-los na boca, usar os talheres e beber sozinho.Brinque um pouco junto, depois afaste-se, e deixe ela fazendo alguma atividade sozinha. Enquanto isso, faça algo para você, mesmo estando por perto.

Vá e volte

Dê preferência às atividades do dia a dia da criança, ou seja, àquelas que são essenciais, como alimentação, banho ou sono. E delegue um pouco.Se precisar recorrer a cuidados de outras pessoas, como babás ou familiares, faça isso gradativamente. Saia por um período curto numa semana, aumente um poucona outra, mas não faça disso uma rotina até que a criança esteja acostumada. 

Converse

Não esconda o cansaço da criança. Compare o seu dia com aquela semana de provas ou o dia que ela tem inglês, balé ou natação – às vezes os três no mesmo dia, após a escola, por exemplo. Mostre que, assim como ela, você faz um monte de coisas, mas fica cansada.Mesmo se seu filho ainda for um bebê, lembre-se: você sofre mais que ele com essas pequenas separações, então relaxe.

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Existem alguns espaços que oferecem aulas, cursos, e várias atividades voltadas para a educação infantil, sem cara de escola e sala de aula.

Casa do Brincar (São Paulo): casadobrincar.com.br

Piks (São Paulo): piks.com.br

Start Espaço do Pensamento Criativo (São Paulo): startarte.com.br

Malubambu Atividades Infantis (Bahia): malubambu.com.br

Engenhoca Atividades Infantis (Bahia): engenhoca-salvador.blogspot.com

Zastras (Bahia): zastrassalvador.blogspot.com.br

Boobambu (Brasília): boobambu.com.br

Kindyroo (Brasília): kindyroo.com.br