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Entrevista – Juca Kfouri

Jornalista esportivo, apresentador, escritor, corinthiano roxo, avô apaixonado!

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Bem direto ao assunto: o que mudou na sua vida você ter se tornado avô?
Se você me perguntasse isso há 10 anos, na projeção, eu diria  alguma coisa assim: “ah, o maior barato, gosto muito de criança, de neném em casa e tal…”. Mas a verdade é que ser avô foi uma coisa absolutamente revolucionária e transformadora. Eu mudei depois que a Luiza nasceu.

O que mudou?
Voltei a fazer esporte, parei de fumar, passei a planejar minha vida pra muito mais tempo. E se quero viver mais, tem que ser com qualidade de vida. Dei uma entrevista para o Jô, depois da Copa da Alemanha (em 2006), a Luiza tinha pouco mais de um ano, e ele me perguntou: “Aquele rapaz que também aparece na ESPN, que também é Kfouri, o que é seu?”. Eu disse, “É meu filho”. E ele: “Mas ele é muito bom”, e eu falei: “O grande mérito dele foi ter me dado uma neta”. E tirei a foto da Luiza da carteira. E eu falei, “Entre nós dois aconteceu uma cena que ninguém acredita, não tinha testemunha. Ela tinha duas horas de vida e eu a peguei no colo, e estávamos nós dois no quarto. A Luiza virou pra mim e disse “Vovô, querido, te amo”. Aí, o Jô olhou bem pra mim e disse: “Eu acredito!”.

Que maravilha de história!
Traduzindo a brincadeira: a primeira vez que peguei a Luiza no colo, com duas, três horas de vida, me deu uma coisa, uma sensação de energia, que não sei te explicar. E olha que eu tenho quatro filhos! Ali eu percebi: “Estou tomado”.

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Mas como foi esse início? O que você fazia com ela?
Eu saía daqui para ir vê-la, na casa dela, e ia com o coração disparado, como se estivesse indo para um encontro amoroso, furtivo! E começaram a acontecer várias coisas, do tipo: ela estava com cólica, não conseguia dormir de jeito nenhum. Eu chegava, pegava a Luiza, botava no meu peito. Em segundos, eu a sentia relaxando. E ela dormia duas horas, no meu peito. A mãe, Marina, e o pai, André, diziam: “Por que é assim? Por que você faz isso e a gente não?”. Eu dizia “Não sei. Talvez porque eu não tenho a mesma ansiedade que vocês”. Eu não conseguia fazer meus filhos dormirem assim. Ela eu consigo. Foi uma paixão. Foi assim com a Luiza durante três anos. E aí, nasce a Julia. Tinha uma preocupação por parte da Marina, “Como vai ser?”. E a Julia conquistou o espaço dela rapidamente.

Eu sei que você tem um esquema feito em casa, quase como se fosse de um pai separado. As meninas tem que vir aqui regularmente, elas têm o quarto delas.
É religioso. Todo sábado de manhã saio de casa, pego as duas, trago pra cá e só devolvo no domingo, antes do almoço. Fizemos um quarto novo para o Felipe, pra elas terem o quarto delas. [Juca mora numa cobertura, em Higienópolis, São Paulo. Seu escritório, agora quarto do filho caçula, fica no andar de cima. Embaixo, no antigo quarto do rapaz, o quarto das netas]. Como a Camila [filha] está passando uma temporada aqui conosco, porque o apartamento dela está reformando, elas estão dormindo na minha cama, comigo. E a Ledinha [esposa] dorme em um colchão no chão. Eu devo dormir no meio. Às vezes, mudo de lugar, porque estou muito apertado, e uma das duas acorda e diz: “Vovô, no meio”.

Você nunca teve problema com  o seu filho e a sua nora?
Eu me preocupei muito com isso, de haver algum tipo de invasão, de ciúmes. Quando a Luiza tinha um pouco mais de um ano, sugeri que a gente fosse pra Casa do Lago – um hotel no interior de São Paulo. Fomos todos, o André e a Marina junto. Nós ficávamos em chalés e o André e a Marina dentro da casa, porque o quarto era mais próximo da cozinha, com mais esquema pra esquentar mamadeira etc. Eu acordava às seis horas da manhã. A Luiza também. Uma bela manhã, fui para o lado de fora, na janela deles, esperar a Luiza acordar. Assim que ela acordasse, eu ouviria e ia falar “Dá ela pra mim, que eu cuido”. Na melhor das intenções. Estou sentado ali, embaixo da janela, esperando e ouço a voz da Luiza: “Cadê o vovô?”. No que eu rio, alto, todo feliz, me denuncio e abre-se a janela. É a Marina. Eu saí correndo! E ainda ouço ela falar: “É o seu pai”. A Ledinha morre de vergonha desta história. Eu não tenho a menor vergonha, estava ali pra ajudar!

Mas você não acha que os filhos têm que dar graças a Deus de terem avós e avôs assim, que ajudam e participam?
Mônica, os filhos dão graças a Deus por um lado e, por outro, às vezes, sentem um certo incômodo. Estou de acordo contigo porque sempre tive essa relação com o meu pai e com a minha mãe, que foram superavós. Se você perguntar pra Camila qual é a figura mais importante da vida dela, ela vai dizer que é a avó, que também se chamava Luiza.

Fale um pouco da sua mãe para nós, Juca.
A famosa Tia Luiza criou uma geração de paulistas, apaixonados por ela. Até hoje, o melhor reconhecimento que me fazem na rua não é o “Você é o Juca Kfouri”, e, sim, “Você não é o filho da Tia Luiza?”. Aí, eu paro pra conversar.

Você acredita que o amor vem da convivência?
Sim! Não são poucas as vezes que no sábado, quando estou pondo a Luiza pra dormir, um pouco depois da Julia, ela diz pra mim “Puxa, vovô, este sábado passou tão rápido, passou voando”.

Como é o seu sábado? Você tem vida social sua ou é só com elas? Se eu te convidar pra jantar, você vai?
Não há hipótese. Não vou, não faço palestra, não faço nada. O mundo do futebol ri. “Eu sei que é sábado, o dia das netas. Mas você não poderia trazê-las?”. Eles dizem, mas não vou. Até porque a Luiza acha chato. A gente vai pro Parque da Água Branca, vai pro Zoo Safári. Fomos ao Teatro Folha ver a Volta ao Mundo em 80 Dias. E somos nós três. Eu levo pra o ensaio de balé, pra exibição de natação…

Tudo com você!
Às vezes, eu me preocupo. Tem coisas que acontecem que são naturais, mas não sei se o pai e a mãe entendem como natural. Por exemplo, estamos os três, eu e os pais, esperando no ensaio de balé. Ela sai e vem direto comigo. Às vezes, fico meio sem jeito. Mas é assim. Eu adorava quando meus filhos faziam isso com os meus pais.

Eu não tinha ciúme nenhum da minha mãe, mas o ciúme rola. Tem ainda o fato de os pais não quererem interferência… Os avós são cada vez mais importantes na vida da criança, não deveria haver competição, né?
Escrevi sobre isso na coluna da Pais & Filhos: a qualidade dos avós mudou. Até porque os avós trabalham. Mudou para melhor. A importância hoje vai além do “Vovô, me conta uma história”. É também a mão na roda. É o “ajuda nisso”, é o, eventualmente, “me pague”. O que eu te digo é que, pra mim, é uma diferença brutal.

Diferença em como você é com suas netas e como foi com seus filhos?
Os 13 anos que existem entre a Camila e o Felipe são uma diferença grande. A infância do Felipe eu vivi já fazendo carreira solo. Pude dar a ele um tempo que não dei para os outros. Embora eu não possa dizer nunca que não vi meus filhos crescerem. Trabalhei como um louco, mas fazia questão de estar perto. Eu tinha dois fechamentos por semana na revista Placar. Às quintas-feiras, fechava de madrugada e no domingo. A revista era semanal. O que eu fazia às quintas era o seguinte: lá pelas sete horas, pintava aquela situação, em que o diretor da revista tem um espaço. Todo mundo escrevendo, eu tinha umas duas horas, sabia que não ia baixar nenhuma matéria. Então, pegava meu carro, ia pra casa deles, dava banho, jantar, via lição, punha pra dormir e voltava pra redação. Fazia isso sistematicamente, toda quinta. E, aos domingos, pegava os três, já tinha a Camila, levava comigo pra Placar. Eles comiam aquele lanche horroroso, mas adoravam aquilo e estavam ali.

Qual é a maior diferença entre netos e filhos?
Dizem que a vantagem de ter neto é que você não tem que educar. Ou “você tem duas alegrias, quando eles chegam e quando vão embora”. Eu desconheço todos esses chavões. Fico muito triste de ter que levá-las, gostaria que elas ficassem mais tempo. Não acho que o meu papel não seja também de impor limites. O que não significa que não faça certas transgressões, que sei que posso fazer e não serão decisivas na vida delas. O meu papel é explicar com candura algumas coisas que pai e mãe fazem com muito rigor. Não é competir com os pais ou fazer diferente do que os pais queriam. Mas quando transgredir, publicar que está transgredindo. Que os pais saibam. Faço questão.

Como assim?
“Ah, não aguentei não dar um segundo sorvete porque estava muito calor ou era muito gostoso.” Enfim, é isso:  misterioso! Na minha cabeça, a Julia e a Luiza têm uma coisa de continuidade minha, maior que os meus quatro filhos, já que elas vão viver ainda mais. É isso.

Você tem quatro filhos com mães diferentes. Deve ter estabelecido uma democracia bem forte pra manter esta família unida. Aprender a negociar, ceder – porque você conseguiu fazer uma família muito unida, né? Acho isso muito bacana!
Sim, sim. Aos sábados, todos vêm aqui. Meus filhos são muito amigos.

E isso ajuda na lida com as netas?
Ajuda, elas são muito bem-vindas por todos.

Elas são corinthianas?
Nossa!

E como foi essa passagem?
Foi difícil! Também já escrevi em uma das nossas colunas. Os “nonnos” torcem pelo São Paulo. O nonno é doente, são-pauliníssimo! Com a Luiza foi mais difícil. Porque a Julia já pegou a Luiza tão corinthiana, que seguiu. A Luiza vinha pra cá aos sábados e passava o a tarde de domingo na casa dos nonnos. E aí passou um ano inteiro, o ano em que o Corinthians caiu pra segunda divisão, vendo o Corinthians perder e o São Paulo ser campeão. Ela começou a ficar em dúvida. Falava “Sou são-paulina”. E o André , “Fica calmo, isso não vai acontecer”. Mas eu não estava nem um pouco tranquilo! Até que transformamos a segunda divisão do Corinthians em uma limonada, porque todos os jogos da segunda divisão são aos sábados e, evidentemente, o Corinthians ganhou de todo mundo! Ninguém explicava pra ela que era segunda divisão. Ela só via o Corinthians ganhando, ganhando… Era campeão, não sabia que não era igual ao outro campeão. Ela faz o “Aqui tem um bando de louco, louco por ti Corinthians” e você rola no chão de rir.

Você já foi com ela ao estádio?
Não. Infelizmente a violência das torcidas chegou a um extremo. A hostilidade a qual às vezes você é submetido em um campo de futebol impede que você vá com uma criança que não vai entender por que tem alguém te hostilizando. Eu sou contra levar. Eu digo isso pra quem quiser: não leve.
> Você ainda é apaixonado para ir a uma Copa do Mundo, por exemplo?
Não, eu sofro. Preferia não ir. Agora, na última Olimpíada, quando voltei, a primeira coisa que a Julia falou pra mim, de dedo em riste, foi: “Vovô, você nunca mais viaja”. Eu falei: “Tá bom”.

E como você junta as paixões, netas e futebol?
Aí você vê como as coisas são. Certas modernidades que você imagina que serão sempre a seu favor às vezes acabam indo contra. No quinto dia em que eu estava em Londres, enfim, falei com André. “Filho, vamos ligar o Skype e eu vejo as meninas.” Ligamos. E chama a Luiza. A Luiza vem. Eu : “Lulu que saudade!”. E vejo ela olhando pra mim. Os olhos marejados. Olhando. Não falava. E eu: “Luiza, não faz isso com o vovô”. Aí ela começou a chorar pra valer, o André falou: “Para, vamos desligar tudo”. E acabou. Umas duas horas depois, ele falou “Pai, já está tudo bem, nós conversamos e ela foi dormir”. Já a Julia fez todas as palhaçadas no Skype. Abraçou, beijou.

Difícil mesmo!
Ah, Mônica, e quando eu fui pra Copa da África. Doze horas antes de embarcar, me aparece uma herpes horrível, um negócio horroroso que eu nunca tinha tido. Chegando em Joanesburgo, pensaram que eu tinha Aids! O médico falou que se eu não tivesse vindo do Brasil diagnosticado, ele me internava. E isso por quê? Por estar absolutamente descontente em ter que ir. Ter que passar 40 dias longe. Foi um sufoco. Eu tinha passagem de volta em classe executiva, na quinta-feira. Mas já na segunda, me liberei e quis voltar, mas só tinha passagem em classe econômica. Não tive dúvida, fui para o aeroporto e peguei um voo diurno.

Você tá pior que eu! Falo que descobri o que era paixão de mãe quando voltei de Paris em uma sexta-feira.
Sim! Qualquer coisa pra voltar antes! Não faz muito tempo a Luiza me disse: “Vovô, eu queria que você fosse igual ao seu Geraldo, o motorista da perua da escola”. “Mas por quê?” “Porque aí você não trabalharia sábado e domingo.” Aí, eu tive que explicar. Elas ainda não tem essa noção de que a gente trabalha pra ganhar dinheiro. Outro dia, eu disse para a Julia “Isso custa caro” e ela falou “Mas tem que pagar?”. Eu falei, “É claro, tem que pagar como os seus pais pagam a escola de natação, como eu paguei o seu sorvete”. Ela falou: “Beijo não tem, né?”.

Depois de virar avô, a sua relação com seus filhos mudou?
Já houve reclamações. Já ouvi dizer, e deve ser verdade, que um dos meus defeitos é que, quando me jogo de cabeça em uma coisa, é só aquilo. Não acho que seja assim. O André mesmo outro dia falou “Pô, pai, você já se deu conta de que desde que a Luiza nasceu, a gente nunca mais saiu?”. Porque a gente saía às sextas ou dois casais. E eu falei “É verdade”. Mas, na minha cabeça, eu me punha no lugar deles e pensava que eles queriam ficar sozinhos em casa com a Luiza. A gente ia almoçar junto no sábado, mas é claro que um almoço é diferente, porque é todo mundo.

E você ver o seu filho sendo pai…
Putz, é um barataço! Mas acho que ele podia ser um pai menos rigoroso. E acho que meus pais não tiveram essa mesma impressão ao meu respeito. Porque eu sempre fui liberal, talvez, excessivamente liberal.

O que é ser excessivamente liberal?
Sou da seguinte linha: vou tentar convencer a fazer a coisa de um jeito. Chega num limite. Não quer, não quer. Então, está bom.

E está bom mesmo?
Sua alma, sua palma. Já dizia a minha vó. Entendeu? Tem limites.

Perguntas Pais & Filhos

A infância passa muito rápido.Como fazer para aproveitar?
É terrível isso. Essa é uma das vantagens
de ser avô, é que você tem tempo para perceber que o tempo passa depressa e então pode curtir cada minuto, o que normalmente com os filhos é mais difícil.

Família é tudo. Você concorda?
Eu acho que isso acaba virando um chavão. E não tem muito como escapar do chavão… Eu não consigo me conceber sem ela,
é ela que me alimenta, que me faz andar.

“Difícil falar pouco sobre a Luiza. Todo mundo a chamava de Tia Luizinha. Ela teve uma importância muito grande na construção da Escola Lourenço Castanho. Era uma figura central, pela personalidade, pelo carisma, nossa grande mãe. Os pais iam sempre procurá-la. Era sócia da escola e diretora do maternal. Cuidava dos pequenos, mas sempre participava das grandes decisões. Mesmo doente, não queria deixar de estar lá. Ficava na porta da escola, recebia as crianças. “Isso é minha vida”, ela dizia. Depois que ela faleceu, colocamos seu nome em um auditório. Tudo o que a escola publicava passava pela correção dela. Temos um texto que ela corrigiu na véspera da morte – sabemos porque tinha a data. Lembramos dela o dia inteiro. Não dá pra esquecer.”

Sylvia Figueiredo Gouvêa,
sócia-fundadora da Escola Lourenço Castanho