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“Amar é deixar o outro ir”

O brunch deste mês reuniu mães e diretor pedagógico da Estilo de Aprender para discutir a hora de colocar (ou não) os filhos na escola

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

O dia estava ensolarado e quente. As mães, animadas, começaram o burburinho cedo, se conhecendo e conversando com Marcelo Cunha Bueno, pai de Enrique, diretor pedagógico da Escola Estilo de Aprender, especialista convidado da 13ª edição do brunch “Culpa não”. O ambiente estava descontraído e sereno, apesar do tema ser algo que enche mães de dúvida – e culpa. Marcelo é educador, filho de educadora. Cresceu vendo a mãe trabalhar com carinho, sendo uma professora querida por todos. “Eu via como ela se dedicava. Deu aula por 35 anos na Escola Viva, onde comecei minha carreira. Sigo muito a linha de pensamento dela, acredito em educação, sempre acreditei. E quando falo em educação é algo grandioso, muito mais do que essa educação formal que a gente ouve falar”, começou ele, dando o tom da conversa. “Eu não concordo com essa ideia de que a escola decide a hora que a criança tem que entrar, quando começa. Acredito que a família é quem sabe o melhor momento. Mas, acredito que quanto mais cedo, melhor”, disse ele.

As mães estavam divididas. Muitas sentiram culpa, outras, nem tanto, outras, ainda, não pretendem colocar os filhos tão cedo na escola. “Minha filha foi para o berçário um pouco antes de fazer 6 meses por causa do meu trabalho. Minha licença maternidade acabou, e tive de colocá-la. Sou nutricionista infantil. Eu me lembro como se fosse hoje. Uma terça-feira, a pior da minha vida. Eu chorei a madrugada toda… Me sentia culpada, frustrada, fuzilada”, desabafou Paola Preusse, mãe da Maria Clara.

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Mariana Machado, mãe da Carolina, é baiana “arretada”. Com os olhos atentos na conversa, lançou um tema que foi central após sua colocação. Como ser mãe, dona de casa e empregada ao mesmo tempo? “Eu não senti de colocar minha filha na escola. O que senti foi culpa, culpa no trabalho, em me tornar uma gerente pior. Eu pensava que todos da empresa começariam a duvidar de mim, a achar que eu não trabalharia com a mesma intensidade”.

E é difícil. A mulher hoje ainda tem dificuldades em conciliar as responsabilidades da casa e do trabalho, por sentir-se culpada, por não ser fácil encontrar empresas com trabalhos flexíveis ou, mesmo, homeoffice. A mulher está ocupando altos cargos e começa a se impor, a exigir uma administração diferente. Mas, o caminho ainda é longo. “Eu sempre quis vir ao brunch, mas nunca tive coragem. Meu chefe não tem família, não tem esse sentimento. Ele é super dedicado, eu sentia medo. Até um dia, depois de 6 meses, percebi que a culpa era minha, só minha. Então, eu vi este tema do brunch, cheguei para ele e disse que viria e que pagaria as horas em que chegasse atrasada no dia seguinte, que não se preocupasse. Me impus”, contou Mariana.

Culpa, não! Escola, sim.

Para aquelas que não sentiram culpa, a hora de colocar o filho foi, principalmente, de acordo com a necessidade, como o fim da licença maternidade, ou, simplesmente, defendem a ideia de colocar o filho cedo na escola. Cristina Tângari, mãe da Maitê e da Nina, é professora e sua primogênita foi para a escola com 11 meses. “E acho que já foi tarde. A minha segunda vai ainda mais cedo. Não me sinto culpada”. E ela foi forte, pois passou por uma situação que mudou o rumo de sua vida. Dava aula na mesma escola onde matriculou a filha no berçário. Um dia, passou pela porta da sala onde estava a filha e viu que estava espumando pela boca. Olhou ao redor e não viu nenhuma professora por perto. Entrou e descobriu que a pequena estava com resto de comida na boca e engasgara. “Eu fui falar com a diretora na mesma hora. Mais do que professora, sou mãe, e pensei que deveríamos conversar sobre isso, como poderia ter acontecido? A única coisa que ela me disse é que eu não falaria nada, que isso acontece. Fiquei indignada! Como assim? Pedi demissão na hora e, claro, matriculei minha filha em outra escola”, contou.

As histórias se diferenciam, cada família pensa de um jeito. Mas, para Marcelo, dúvidas e inseguranças podem ser comuns. Ele também sentiu dificuldade ao colocar o filho na (sua!) escola. “Foi difícil, mas, com certeza, me abriu horizontes. Na época, eu me senti arrogante. Pensei em como pude escrever tanta coisa para explicar para um pai e uma mãe o que eles deveriam fazer. Não existe isso, é difícil para todo mundo”, contou ele. Mas, o especialista defendeu que o espaço da escola é especial, um lugar onde as crianças encontram propostas dirigidas, onde não têm confortos na linguagem e sociabilidade. “‘Dada’, em casa, pode ser água. Na escola não. Água é água, ‘dada’ é ‘dada’. Acho justo que ofereçamos este espaço à criança. É uma oportunidade única na vida de viver um potencial de descobertas, vivências. Sabe aquela frase a frase ‘amar é deixar o outro ir? Acho que é isso. É bem isso”.