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“Acho que nasci professor”

Marcelo Cunha Bueno, pai do Enrique e dono da escola Estilo de Aprender, em SP, conta por que nosso modelo de escola só piora

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Ele nos recebeu em sua sala, que tem a luz  calma e baixa como a sua voz. Desse jeito manso que Marcelo recebe todo mundo. É a sua estratégia para desarmar os visitantes – pais que sobem as escadas em direção à diretoria para fazer suas reclamações, broncas, dúvidas…  Para ele,  pais dos alunos pequenos tem todo o direito de questionar a escola, por insegurança ou convicção, não tem diferença. A bronca é livre e legítima e ele está ali também para isso. Quase nada o tira do sério.

Marcelo Cunha Bueno começou sua carreira de professor  cedíssimo, aos 15 anos.  Com  19 além de lecionar numa das melhores escolas de São Paulo – a Escola Viva –  dava cursos para professores de escolas públicas . Aos 25, abriu a própria escola. Hoje, com 35 anos,  sua rotina de vida ainda não é exatamente como gostaria. Em vez de ficar na sala de aula com as crianças, passa muito do seu dia resolvendo pepinos com  pais e com a estrutura da escola, apresentando as dependências para novas famílias e se escondendo do filho, Enrique, nos corredores . É que seu filho também é seu aluno, e isso é uma outra história, que a gente vai tratar aqui.

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Uma certeza: a sala do diretor não é assustadora como a gente imaginava na época da escola. A deste pelo menos, não mesmo.

Quando você decidiu se tornar professor?

Eu acho que nasci professor. Minha mãe é professora há 35 anos, já se aposentou, e eu cresci dentro da escola. Ia para a minha escola de manhã e à tarde ia para a que ela trabalhava. A primeira lembrança que eu tenho, de quando tinha uns 5 anos, é de ver umas 30, 40 crianças me ouvindo contar uma história. Acho que foi um caminho natural. E era mais do que querer ser reconhecido no trabalho, era minha vontade de vida mesmo.

De querer fazer o bem…

Querer mudar. Querer fazer diferente na vida de uma criança, não como uma pessoa inesquecível simplesmente. É fazer diferença porque tem coisas que ela viveu ao longo do crescimento que tem uma marca, foi você quem apresentou, pode ser um repertório cultural, uma brincadeira… E o engraçado é que eu tive uma experiência de sala de aula que foi muito curta, acho que não completei 10 anos. Abri a escola quando eu tinha 25 anos.

Você começou a dar aula com quantos anos?

Comecei cedo, com 15. Eu era estagiário. Com 19 anos comecei a trabalhar com formação de professor. Nunca me esqueço de chegar na primeira pública e aquelas professoras já perto de se aposentar ouvindo um moleque falar! Acho que elas se encantavam com o frescor. Foi uma experiência muito boa. Eu fazia faculdade de psicologia, aí entrei na pedagogia e conheci uma pessoa – a Marcele, que é minha sócia. Ela era administradora de empresas e estava a fim de abrir uma escola. Nos conhecemos e ela me convidou para abrir a Estilo.

Você nunca tinha pensado nisso?

Nunca. Era muito claro que eu ia viver toda a minha vida, como a minha mãe, em sala de aula. Hoje, ao longo do meu dia, eu apresento a escola para famílias novas, me reúno com famílias antigas para falar do desenvolvimento das crianças, falo com o pedreiro que estourou o cano, escuto a família reclamar que o estacionamento está cheio… Então eu desempenho vários papeis, mas até eu me acostumar com tudo isso…

Não era exatamente o que você queria…

Não. Mas foi importante não saber onde eu estava entrando porque isso me deu coragem para inventar um projeto. Quando eu abri a escola, falei assim: preciso fazer uma coisa diferente. Um projeto autoral, com formação de professores, com formação de famílias, com laços afetivos e formativos com todo mundo que tenha aqui. Não é possível que a gente não consiga se descolar das tendências teóricas da pedagogia que existem há 30 anos e são as mesmas.

As escolas são todas parecidas.

É, não tem como reinventar. Uma marca do sócio-construtivismo é a roda, essa roda de conversa. Não tem como reinventar a roda, literalmente. Mas você tem como potencializar o que se vive numa roda de outras formas.

Mas a sua escola segue a mesma roda?

Segue a mesma roda, claro. A estrutura da rotina é praticamente a mesma. O que muda é a relação, porque o que a gente fez aqui foi apostar numa formação de um outro repertório do professor, que tem a ver com a filosofia. A gente pratica, experimenta as palavras de alguns filósofos.

Como?

Por exemplo, a relação que estabelecemos com nosso currículo é rizomática. O rizoma é aquela planta superficial, como se fosse a grama, ela cresce em qualquer lugar. Ela consegue subir numa trepadeira, descer, se conectar a um muro, a uma árvore, você não sabe onde é o começo e onde é o fim dela… Qual é a raiz originária? Não existe. Essa é a essência. A gente pode fazer uma analogia… Se um é a raiz superficial, o outro é a árvore com a raiz profunda. Então todas as pedagogias fundantes, as pedagogias que tem uma grande teoria a ser seguida, por exemplo, o sócio-construtivismo, tem as bases teóricas muito definidas. O rizoma não se prende nessas bases teóricas, ele caminha em diferentes superfícies. Por exemplo: “vamos estudar quais eram os movimentos de resistência na época da ditadura militar na arte para esse ser o caminho que explica o que teoricamente é histórico?”

Mas funciona o sistema de notas, como nas outras escolas?

Não. A gente criou um material próprio. Cada um dos anos do Fundamental tem um material que foi criado pelos professores. Ele segue o nosso currículo, que é por objetivo. No terceiro ano, é importante que as crianças aprendam, por exemplo, substantivos, pronomes, regras ortográficas, em matemática vão aprender equação… Esse material organiza a sequência que esses objetivos vão acontecer. Todos fazem o caderno de atividades e, quando o professor senta para corrigir, percebe, por exemplo, que o Marcelo tem uma questão na gramática. Ele não consegue entender o que é o substantivo simples e o composto. Já a Mariana tem uma questão com ortografia, ela não conseguiu entender o S e o SS. Então a partir dessa avaliação que acontece todos os dias, é produzido um material individual. Em um determinado momento do dia, todos fazem as mesmas atividades e num outro momento cada um faz as atividades que são desafiadoras. Se acontece todos os dias, não tem porque eu fazer uma prova para ver se eles aprenderam. A aprendizagem se dá de uma forma muito mais rápida.

Você deu alguns exemplos de Ensino Fundamental. Mas para o Ensino Infantil como se aplica essa teoria?

Educação é relação. Por exemplo, a criança entra chorando na escola. Por quê? Peraí… Por que eu preciso saber o motivo? O que você tem de acolher é o choro. Faz toda a diferença quando você recebe uma criança de um ano, e ela está chorando, e você diz “eu consigo entender que esse choro deve representar algum incômodo. Deixa eu te pegar no colo?” Não é assim: “por que você está chorando?” A criança está chorando, é a forma que ela tem para se expressar naquele momento. Se ela tivesse outro jeito, ao invés de chorar, ela falaria. É simples. Quando eles entram na escola, a gente trabalha as questões do corpo na capoeira, na expressão corporal, na dança e no próprio caminhar pela escola, subindo nos brinquedos, num desafio da sala de aula, se pendurando, indo num percurso, etc. Trabalhamos a expressão musical, que tem a ver com se comunicar pelos sons e silêncios, o repertório, os instrumentos, a produção sonora do meio-ambiente. Trabalhamos a oralidade e a comunicação oral, que é conversar muito, aprender a fazer perguntas… A escola teoricamente ensina a criança a responder e a responder certo. Não ensina a fazer pergunta. E esse é o grande segredo da educação. Você precisa ensinar o cara a perguntar, isso é ser crítico. Voltando, trabalhamos também as expressões plásticas, principalmente relacionadas à arte, desenho, pintura, recorte, marcenaria, construção…

Com quantos anos as crianças entram aqui?

Um ano. Tem um grupo dessa idade que está fazendo um trabalho sobre as poesias do Manoel de Barros. Por exemplo: “grilo faz a noite menor para ele caber” ou “caramujos ajudam as árvores a crescer”. Eles pegam essas poesias e as transformam ou numa brincadeira, ou transformam num brinquedo. Fizeram um brinquedo do caramujo, da árvore. Você sai de uma linguagem escrita, vai para uma linguagem oral, de forma lúdica transforma numa brincadeira, num brinquedo, para poder se relacionar brincando. Na verdade, eles não falam a poesia, mas eles brincam de poesia. 

Você já teve problemas com pais de alunos?

Tenho todo dia, os mais variados problemas. Mas a primeira coisa é agir com a família de forma não ressentida. São pais e mães. Eu consegui aprender e amadurecer isso depois que tive filho. Quando meu filho entrou na escola, eu tive que me refazer como educador, porque fiquei muito inseguro, muito ansioso, fiquei cheio de dúvidas. O pai e a mãe não sabem e nem tem porque querer saber como a escola pensa, como age. É função da escola contar isso para eles. O que a gente precisa fazer é dar tempo para as famílias. Num primeiro momento acolher, dar colo, escutar, entender, tentar direcionar. Abrir a escola para a família para que ela entre, converse com o professor, olhe no olho, veja as coisas que acontecem e aí entenda que a escola não é espaço de perfeição, não é o templo do saber. Se as famílias ficassem aqui todos os dias o tempo todo, iam ficar de cabelo em pé com as coisas que acontecem, porque a escola é um lugar da intensidade relacional e social. As crianças a todo instante se provocam, se colocam em risco. É o espaço que elas vão aprender transgredindo.

Tem alguma história pra contar?

Muitas! Eu tenho muito professor homem (metade da equipe é de homens) e uma história clássica é de um menino que ficou doente e ficou umas duas semanas sem vir à escola. Quando ele voltou, o pai o levou até a sala de aula. O professor, quando viu a criança, a encheu de beijo e abraço. O pai saiu de lá, subiu na minha sala e falou que era um absurdo, que ele achava que a construção da sexualidade da criança tinha a ver com o quanto o homem se comporta como homem, esses absurdos. Eu falei “o que você está querendo dizer exatamente que eu  não estou entendendo?” E ele disse “acho que o professor passou do ponto. Eu acho que é quase um abuso”. Eu falei “ah ta. Então nós vamos na delegacia agora. E você vai fazer uma denúncia. Mas eu vou com você. Você está acusando meu professor de quê? De pedófilo?” Eu falei assim “enquanto seu filho estiver nessa escola ele vai ser tratado com muito carinho e esse carinho em excesso, porque as pessoas são assim. Ele estava com saudades, deu beijo, deu abraço”. Depois, lógico, a gente perguntou para as outras pessoas que estavam em volta e elas falaram “imagina, o professor foi super carinhoso, pegou no colo”. Mas é que o pai se incomodou de ver um homem fazendo isso, é o fim da picada.

É que a gente ouve tanta história…

Passa pela cabeça, como essa outra história. O pai de uma aluna de 4 anos veio fazer um pedido para mim que ele não queria que o professor dela fosse ao banheiro junto e limpasse. Ele veio me dizer que leu que 90% dos casos de pedofilia acontecem quando a gente mais confia na pessoa. Aí de novo eu falei “então não tem jeito de você ficar aqui, porque se eu estiver passando, algum homem estiver passando e sua filha estiver no banheiro e precisar de ajuda, a gente vai limpar”. É porque eu confio na pessoa. São casos clássicos de preconceito com homem.

Você já sofreu?

Nunca. Mas tem horas que a gente consegue entender a ansiedade, a angústia… A criança volta pra casa chorando, a mãe entra aqui desesperada, falando “o que está acontecendo? Deve ter uma criança judiando dele… Deve estar sofrendo bullying…” Essa palavra horrorosa, esse conceito terrível.

Por que?

Porque hoje em dia qualquer coisa é bullying. É o que eu falei, se você frequentar a escola todos os dias você vai ver que o que a mídia (e a população) chama de bullying é briguinha, é discussão, é desavença. Hoje em dia, uma criança tirar a caneta do outro, ou uma criança falar “eu não gostei do seu desenho” é bullying. Isso não é bullying! Isso não é humilhação. Isso não é expor o outro, ameaçar o outro a uma situação de risco na integridade física e moral. É muito diferente.

E essa história de déficit de atenção… Você acredita que existe, de fato, ou é só um exagero?

Toda vez que a gente pensa em déficit de atenção a gente pensa numa criança que não é capaz de entender o que se explica na sala de aula. Nunca a escola pensa em como está ensinando. Tem crianças que não aprendem sentadas numa mesa e numa cadeira. E aí? Falam que o problema é da criança. Não, o problema é da escola. Déficit de atenção também é responsabilidade da escola, e esse déficit é uma patologia criada pela dinâmica que a escola impõe para a criança. Se eu sou capaz de modular minha voz, de criar dinâmicas diferentes a cada tempo, de trazer elementos diferentes, repertórios diferentes, a gente continua atento. A gente se prende. Fica muito mais fácil você dar um  remédio do que mudar a rotina. Na minha escola, eu nunca tive uma criança com déficit de atenção, porque eu nunca produzi déficit de atenção nos outros. Nunca, em 10 anos.

E o debate hoje sobre o que é papel da escola e o que é papel dos pais?

É uma coisa complexa, mas a gente precisa fazer uma análise histórica, cultural e social. A escola, na medida em que as famílias se remodelaram e a mulher deixou de ficar em casa, passou a ser um lugar que dava conta de cuidar da criança, já que existia um outro papel social para a família. A escola passa grande parte do dia com a criança. Como deixou de ser um lugar que só trabalha conteúdos para trabalhar atitudes também, assumiu coisas que teoricamente seriam do âmbito de fora, então cuidados com a higiene, com o comportamento, com civismo…

Até os valores a escola ensina? Certo e errado…

Sim, na verdade o certo e o errado a escola sempre ensinou, mas por meio da religiosidade. Já escutei várias vezes, casos em que a criança foi numa festa de aniversário no sábado, fora da escola, eu não tinha nada a ver com isso. Apronta lá e, quando chega a segunda-feira, a família vem aqui e fala que a gente não está ensinando nada para ele.

Que absurdo!

Mas é compreensível, porque de certa forma a escola vende para a família que vai criar um cidadão melhor. Que saiba fazer suas coisas sozinho, que respeite o meio, que seja crítico. A gente promete isso, está nos referenciais curriculares de educação infantil. A gente está se comprometendo com a formação moral da criança também. Então, agora escute o que a família tem pra dizer.

Mas você não acha que os pais terceirizam?

Eu falo para a família quando estou apresentando a escola. “Na Estilo não é assim ‘você ensina a comer de boca fechada e eu ensino a tabuada’. A gente vai fazer junto, entendeu?” Então do mesmo jeito que ele me cobra para escovar os dentes, eu vou cobrá-lo para fazer lição de casa. Porque a escola, do outro lado, também é muito chata com a família. A gente exige que a família traga ingrediente para fazer culinária, venha às festas, venha às reuniões, participe, traga livro, traga referência, pague o passeio…  Não é da alçada da família, teoricamente. Mas eu preciso deles e eles precisam de mim.

Você acaba sendo professor em casa, com seu filho?

Eu me policio. Ultimamente, como eu tenho estudado muito o cérebro, tenho me comportado muito mais com o meu filho como um estudante do que como um professor.

Quantos anos ele tem?

2 anos e meio. Mas fico tenso também, porque sei que as pessoas olham para ele como filho do Marcelo.

Os pais?

Todo mundo. Tem aquela coisa: em casa de ferreiro, o espeto é de pau. Outro dia eu estava lá no meio do pátio, a gente se encontrou, se beijou, abraçou… E de repente pum, ele me deu um tapa na cara. E riu… Porque, pô, é contato, a impressão que dava era que ele queria me apertar, mas me deu um tapa. Nossa, sabe quando a banda para de tocar? Todo mundo olhou. Aí respirei fundo, dei uma bronca nele e ensinei “você queria fazer carinho…” Não deixei de agir como pai, mas totalmente pressionado por ser diretor. Mas faz parte. É o preço que se paga. Talvez por isso que a minha mãe não tenha me colocado na mesma escola.

Você cogitou colocar ele em outra escola?

Não, porque o que eu mais quero é que ele viva o sonho que eu construí. Ele não me vê na escola, eu me escondo. Só na hora de buscar.

Mas ele entende que você trabalha aqui?

Eu trago ele na minha sala, ele vem, olha, mas não sei se ele sabe que o pai dele trabalha aqui e o pai do amigo trabalha em outro lugar. Para ele é assim. Mas eu não apareço porque esse é o lugar dele.

 

Teve adaptação no início?

 Teve, mas foram as avós que fizeram. Também porque com a minha presença ou da Gabi na sala de aula acho que o professor ia ficar com vergonha. Se sentem pressionados.

Você alfabetiza aqui com quantos anos?

Eles estão produzindo texto ao final dos 6 anos. Agora, a criança fazer uso, entender isso, refletir a respeito da sua utilidade social é o mais difícil e isso se faz desde um ano de idade. Quando você lê, traz repertório escrito para mostrar para eles. Eles estão se alfabetizando, ou se letrando. Eu tenho feito um trabalho numa escola e pego o pessoal do Ensino Médio para conversar. Você pede para eles escreverem um texto, tem a letra linda, mas são incapazes de produzir um texto que tenha começo, meio e fim. Isso é falta de repertório literário. Isso que a gente faz desde cedo. Mostrar para as crianças o portador escrito, que vem pelo livro, pela poesia, que tem no jornal, que tem no computador, aqui e ali.

Quando os pais vão escolher uma escola o que é mais importante deles observarem?

Eu acho que o que mais fiz ao longo desses 10 anos foi apresentar a escola para famílias. Elas procuram uma escola ou pela tradição – o resultado que perceberam -, ou pela marca – aí tem uma questão de onde vai te posicionar na sociedade – ou escolhem por indicação, o que tem mais a ver com presente do que com o passado que foi construído e com a marca, que é uma coisa de projeção. O que eu acho mais importante observar é como a escola cuida da formação dos professores. Não é pagando curso fora… Como se responsabiliza por formar os docentes que tem aqui, que já são formados em pedagogia? Como você vai estender, como vai fazer a formação continuada dos caras? O que você pensa sobre a prática, quais são os repertórios teóricos, quantas vezes vocês fazem reunião, existem grupos de estudos, tem produção acadêmica?

As famílias perguntam essas coisas?

Sim, pode perguntar. Depois, qual é a relação com a família? Eu posso entrar na escola? É importante, sim. A escola que não deixa a família entrar é a escola que está querendo esconder coisa. É importante também valorizar o espaço, precisa ser um espaço harmonioso, no sentido filosófico, de harmonia entre as pessoas, mas também no sentido estético, e nesse sentido não é a beleza, mas a reprodução cultural livre de estereótipos de infância. Portanto não é espaço da Xuxa, não é espaço do Patati Patatá, não é espaço dessa banalização da infância, é espaço de afirmação cultural. O espaço revela a forma como a escola pensa relações, então se é um espaço aberto, desafiador, é porque a gente acredita na criança, valoriza o brincar. Se é um espaço que valoriza a estética, valoriza a arte. Se é aberto e amplo, é um espaço de reverberação sonora, portanto a gente valoriza a música. Aí você tem alimentação.

É papel da escola alimentar?

É uma coisa que a escola acabou assumindo, mas precisa alimentar de verdade. Eu não gosto de cantina, a não ser que seja uma cantina bacana, sem fritura, sem refrigerante. Acho importante ela produzir o próprio alimento, oferecer o lanche, porque comida é afeto. Talvez também saber como a escola lida com disciplina. Isso é uma coisa que as famílias costumam perguntar muito para mim. Como você lida quando a criança fez uma coisa errada? Coloca de castigo?

Aqui o que você faz?

A gente procura lidar com a construção da regra quando eles são pequenos, e depois com a relação de direitos e deveres, causa e efeito. Não tem muito o que fazer. Se você não consegue ficar na brincadeira sem empurrar o seu amigo, vem aqui fora observar como os outros fazem. Isso é o mais importante. A disciplina não está no ato de fazer o outro tomar consciência, não está na execução da bronca ou do castigo. Eu não sou a favor do castigo, sou a favor de limite. “Não, você não vai fazer isso.” Sou a favor de ficar de fora e olhar o que aconteceu.

 

Para ver o jeito certo de agir…

Isso, fazer ele refletir a respeito daquilo e depois dar o voto de confiança. A regra não é incorporada pela criança se você não der a outra chance para ela fazer. É a mesma coisa que prova. Quando a gente faz a prova, a professora caneta, “tá errado!” A pessoa não tem chance de acertar mais naquele lugar. É geralmente isso que acontece. Por que você não tem chance? O aprendizado vale só por um segundo? Não. Então a disciplina só é incorporada se você retomar. Dá bronca, faz refletir, retoma. Eu vou te dar mais um voto de confiança. Será que eu posso confiar em você? A criança assume um compromisso.

Você acha que a escola mudou desde que você começou a carreira?

 Mudou. Acho que a escola emburreceu. Superficializou relação. Acho principalmente que a escola não acompanha a geração que a gente vê hoje. Se você vê os jovens que estão se formando nas escolas, são grandes empreendedores de pequenas coisas. São criativos. A gente está vivendo duas semanas de manifestação feita por uma geração que é capaz de se articular socialmente e politicamente pelo Facebook, pela Internet – você pode ter milhares de críticas do ponto de vista da nossa geração, que viveu outras manifestações – mas os caras se articularam, foram para a rua, conseguiram resultado, cada um com uma causa, e aí falam “pô, não tem foco?” Lógico que tem foco, cada um luta por uma causa e todo mundo faz a diferença. Porque a internet é assim, você abre várias janelas para falar sobre o mesmo tema. E acho que a escola não consegue dar conta disso. Então quando a escola fala “precisamos trabalhar mais com tecnologia” faz uma lousa digital. Não é disso que se trata. Escuta o que o cara tem pra dizer… Hoje em dia você não tem como proibir o celular na sala de aula. Use o celular como uma extensão do conhecimento. Um cara de 15 anos de idade não quer saber de aula expositiva porque ele vai para um computador e está escutando uma música, e com o ouvido aqui, conversando no chat, fazendo não sei o que… O cara está fazendo milhares de coisas ao mesmo tempo. E a gente fica num mesmo modelo pré-histórico de educação. É por isso que a psiquiatria está tão dentro da escola. Porque a escola, ao não acompanhar os jovens, se desesperou e ficou mais rígida ainda.

 

 

PERGUNTAS PAIS & FILHOS

 

Família é tudo?

Eu acho que família é tudo. Família para mim são os amigos, família para mim é quem mora na minha casa, é minha esposa, meu filho, minha mãe… A família estendida é no trabalho. Família para mim são todas as pessoas que tenham importância na vida. Acho que por isso é importante a gente cultivar as relações, cultivar os relacionamentos, com generosidade, com afeto, com carinho, com cuidado.

 

A infância passa rápido, como fazer para aproveitar melhor?

Eu continuo me sentindo um pouco na infância. A infância é essa sensação poética diante das coisas, diante da vida. A infância, a princípio, historicamente, pode ser uma situação, uma vivência específica, um momento da nossa vida – o momento inicial – mas para mim a infância é a relação com o mundo, a relação do ineditismo, da surpresa, a relação de transformar aquilo que é rotineiro em algo sempre novo, sempre inédito, na surpresa. Então acho que a infância é um compromisso com o acontecimento da vida, compromisso com a vida de todos os dias, um compromisso com o cotidiano. Nesse sentido a vida se torna mais leve, mais poética, mais verdadeira e mais intensa, nas questões que são ruins e nas questões que são boas. A infância se perpetua dessa forma.