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Veja a entrevista de Olivia e Francis Hime

O casal fala sobre casamento, família e a paixão pelas netas

Redação Pais&Filhos

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Pais de Luiza, Joana e Maria, e avós de três netas, o casal de músicos está junto e feliz há 46 anos, coisa rara de se ver hoje em dia, ainda mais no “mundo dos artistas”. Embora casados há tanto tempo, eles lançaram um CD em parceria pela primeira vez só este ano, Almamúsica, que é bem isso que diz o nome. “Há uma música” (ou as seis faixas do CD) que representa tudo o que eles mais gostam no universo musical. Aqui, Francis e Olívia falam de família, de como é ficar tanto tempo casado, de como criaram as filhas e da paixão pelas netas. “Meu amor pelas minhas netas é de chegar a doer de saudade”.

Por Paula Montefusco, filha de Regina e Antonio

Fala-se tanto da nova família que está na hora de a gente falar também da “velha família” Ver um casal feliz, há tanto tempo… É quase transgressor!

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Olivia: A Fernanda Montenegro fala isso: “que ficar tanto tempo junto é transgressor”.

Francis: Transgressor ou subversivo.

Olivia: E o Lenine, que está casado também há muito tempo com a Ana, diz uma coisa muito engraçada, que as pessoas falam que é quase uma tara sexual ficar casado com a mesma mulher (risos). Mas eu não chamaria nosso casamento de tradicional… Ele é um casamento longevo. Muitos dos nossos amigos, da mesma geração, se separaram mas tiveram, durante o período que estavam juntos, muitas vezes, casamentos felicíssimos! E estruturaram suas famílias com muita alegria. Como a gente está falando da família, o determinante não é só o casamento para fazer os filhos crescerem com afeto. Mas, sim, a forma com que você organiza a afetividade em volta destas crianças. Preservando a imagem paterna, por exemplo… O que eu observo é que as crianças sentem falta da família espraiada: é a família não só de “papai e mamãe”, mas a família vovô, tio-avô, madrinha, tia, tio, primo. Estes grandes núcleos é que dão muita segurança à criança e ao adolescente.

Bem pensado, o grupo familiar todo, não é?

Olivia: A família mudou muito nestes últimos 40, 50, 60 anos. As famílias eram mais dilatadas. Você tinha muito mais convívio com primos, tios. Hoje em dia, as crianças correm para as aulas, os pais correm para os trabalhos… Sei lá! Este núcleo familiar de madrinha, padrinho, vovô, vovó, titio, tio do tio, é que eu acho que, se a gente puder preservar, é mais importante do que o tradicional casamento mamãe e papai. A criança precisa de família para crescer com mais experiências. Onde é que a gente se exercita mais? Onde é que nós, quando crianças, nos exercitamos na agressividade, na não-agressividade, na generosidade, na competição, na malcriação, no mau humor, na possibilidade de estar só, na não-possibilidade de estar só? É no núcleo familiar. Porque depois o mundo vai te cobrar, o mundo não vai ser bonzinho.

Francis: Antes de entrar na vida mesmo, para valer, você tem toda aquela cobertura da família. Meus pais são separados. Eu não tinha muito esta tendência de agregar, de me aproximar da minha família.

Vocês são casados e trabalham juntos Como conciliar?

Francis: Bom, a gente varia muito. Tem dias que você chega em casa e não quer falar de trabalho. Tem dias que a gente chega e continua a falar de trabalho.

Olivia: Estamos o tempo todo trocando figurinha, dando opinião no trabalho do outro. Não acho que haja desgaste porque a própria matéria, que é a música, dissolve o desgaste.

Como vocês se conheceram?

Olivia: Conheci o Francis antes dele me conhecer. Eu tinha 11 anos e ele 15, como era precoce já estava de olho nos rapazes (risos). Francis morava na Suíça e durante umas férias veio ao Brasil . Vi ele de longe, no clube, e achei que ele era um gatinho.  Depois, lá por volta dos 19 anos, reencontrei Francis já num ambiente musical. Nossos amigos eram mais ou menos os mesmos. Nossas festinhas movidas a violão, tinha o Dori (Caymmi), o Edu  (Lobo), o Rui Guerra, o Ronaldo Bôscoli,  o Oscar Castro Neves… E numa destas, na minha casa, Francis veio.

Falando sobre a criação das suas filhas, vocês as criaram mais soltas, com mais liberdade?

Francis: Eu era mais severo.

Olivia: Não diria mais severo, era mais metódico, o que é muito bom, eu era mais solta. No todo, elas foram criadas muito soltinhas porque morávamos em uma casa onde elas viviam de calcinha com as amiguinhas da rua. Fim de semana era em Itaipava, também de calcinha correndo pela grama, não havia muito essa ideia de enfiar a criança em tudo quanto é atividade… A televisão era muito pouco atraente, a não ser o Vila Sésamo, que era uma beleza. Então, a geração delas tinha muito mais essa coisa do brincar, elas faziam balé, faziam ora piano, ora violão, eu diria que era uma criação muito típica dos anos 70.  

Você tem certeza que você fez o máximo que pôde por amor, apesar de muitas vezes perder a paciência. A Luiza diz: “Mãe, você já teve vontade de esganar a gente?” e eu digo: “Provavelmente todo dia”. Faz parte do convívio. Imagina três criancinhas, uma atrás da outra, quando queriam me enlouquecer… Eu perdia a paciência às vezes.

Francis: Agora essa coisa de dar limite é realmente muito difícil. Eu tive mais dificuldades em dar limites para a primeira filha, Maria. Porque o primeiro filho é um laboratório. Dar limite não é restringir a liberdade.

Olivia: O grande perigo é a pessoa confundir dar limite com balizar. “Até aqui você pode, passando daqui, você não deve”. Limite são as referências que você tem que dar. Se uma criança pega esse celular e joga no chão, geralmente ela te olha para dizer: “Eu posso fazer isso?” Você não precisa chegar e dar um tabefe nela. Você pode dizer: “Não pode fazer isso”. Ela vai ficar muito mais feliz do que se ninguém disser nada, porque ela não sabe até onde ela pode ir. Acho que é melhor dizer "dar referência" do que “dar limite”. Porque na verdade a gente não devia dar limite, né? A criança deve poder saber que ela é múltipla, ilimitada… Não confundir limite com repressão.

Francis: Talvez porque a educação de antigamente fosse muito ligada à repressão, dar limite era dar um tapa.

Falando dos valores que vocês passaram para as meninas, teve alguma tecla que vocês batiam mais?

Olivia: A melhor forma de passar  valores para as crianças é dando o exemplo. Não adianta dizer “Seja educado com a sua irmã” e mandar seu marido à merda na frente delas. Minhas filhas dizem: “nunca vimos você e o papai brigando”. Nós brigamos muitas vezes na vida, mas a gente procurava nunca brigar na frente delas, por exemplo.

Francis: A verdade é um valor.

Olivia: Mas verdade é um valor mais para adultos, a criança pequena precisa mentir. Mario Quintana diz “A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. Para as crianças isso é muito importante.

Todo mundo fala que ser avô ou avó é como ter filho, só que é melhor, porque você só pega a parte boa. É isso mesmo?

Francis: Realmente você não tem aquela angústia, a aflição, a ansiedade que muitas vezes você tem sobre tudo com o primeiro filho, porque você já passou por todas aquelas experiências. Você fica mais à vontade.

Olivia: Não te diria que é melhor porque você inaugura esse sentimento da descendência com o seu filho. Eu diria que é uma continuidade desse sentimento. Você inaugura isso com a maternidade, que é o sentimento mais forte que a gente tem na vida, para a mulher, pelo menos… É um sentimento muito profundo e de um horizonte que não tem fim. Meu amor pelas minhas netas é de chegar a doer de saudade. Com as filhas eu não podia sentir isso, porque elas estavam todos os dias comigo.

O que você acha que é fundamental para ter um casamento duradouro?

Olivia: Amor. Eu acho que você não pode viver com uma pessoa com quem você não tenha admiração como ser humano, como pessoa, como profissional, com o que for desde que você admire. Tem  que ser alguém que você fale “Poxa, que pessoa interessante.” Uma coisa que para mim é muito interessante é a capacidade de você sempre se surpreender com o outro, que o outro nunca seja uma pessoa que você ache que chegou no limite do conhecimento. Você saber que aquela pessoa se renova sempre, que ela sempre pode ser  um pouco diferente no dia seguinte… Porque todos nós podemos nos transformar, ter uma visão diferente, uma informação diferente. Basicamente admiração, generosidade, e amor, que envolve tudo isso e  gera essa possibilidade de ver o outro como o outro e não como você mesmo. Isso é o que dá uma elasticidade no convívio. E humor, não é? Saber rir de si próprio e do outro.

E quais são as músicas que mais marcaram a vida de vocês?  

Olivia: No nosso casamento tocou a “Minha”, que é de Francis e Rui Guerra. “Saudade de Amar” foi do nosso início de namoro. Mas tem músicas que ouvimos juntos, me lembro de vermos a abertura de Tristão e Isolda em Nova York e no fim da ópera nós dois chorávamos copiosamente pela beleza da música. Tem um pouco a ver com o título desse disco novo, “Almamúsica”. É o que a alma da música representa para nós.”

E agora, criar o quê?

Olivia: Cada dia é uma criação, você se reinventa, reinventa seu cotidiano. Acho que a depressão hoje está muito ligada a alguns períodos em que a gente não consegue se reinventar, quando caimos numa rotina sem examinar cada gesto. Quando acordo, gosto de tomar um tempo no quarto, penduro minhas roupas, passo meus creminhos, leio o jornal, faço meus exercícios de voz antes de descer, tem todo um processo de pensar no meu dia, como é que vai ser, o que eu tenho que fazer, o que vai ser difícil pra mim, como contornar aquilo e também o que tem de prazeroso… Acho que temos que criar a cada dia, porque se você fizer tudo no automático a vida começa a ficar difícil e chega à noite, você deita na cama e pensa “caramba, meu dia foi igual aos 365 dias”. Eu acho que cada dia a gente tem que criar uma historinha especial.

Perguntas Pais & Filhos
(Respostas de Olivia Hime)

Você acha que família é tudo?
Acho que o amor é tudo.

Como os pais fazem para aproveitar a infância dos filhos, que passa tão rápido?
Quando amadurecemos, aproveitamos mais, mas não é só a infância que passa tão rápido…

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