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Um dia de cada vez

Camila, mãe de Davi conta como convive com a depressão pós-parto

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Meu nome é Camila, tenho 30 anos sou casada e meu filho, Davi tem 01 ano e 01 mês. Bem, falar sobre Depressão pós-parto para mim, é algo natural, assunto que eu falo no trabalho, roda de amigos, almoço de família. Talvez eu sinta  a necessidade de falar, não apenas porque convivo com isto mas, também, pelo preconceito com qual é tratada e mistificada pelas pessoas.

Meu filho não foi planejado, já queria sim, ser mãe, e tinha muita vontade de realizar esse desejo mas, imaginaria que demoraria um pouco, pensei que iria precisar fazer tratamentos pela vida corrida que levava, pelos exames que venciam e eu não tinha tempo de levar para médica  mas, contudo, aos 28 anos engravidei do Davi. Eu e meu marido namorávamos há 06 meses, casamos logo em seguida e curtimos muito a gravidez, momentos lindos vendo a barriga crescer, montando o quartinho, o enxoval, cada minuto, cada segundo ele perfeito ter meu bebê na barriga, nem pensava nas dificuldades que surgiriam ao seu nascimento, imaginei mesmo um mundo cor-de-rosa, amamentando, sem cansaço, meu marido o mesmo, imaginava junto comigo a perfeição da maternidade e, ninguém nunca chegou para nos falar o contrário e abordar as dificuldades.

Minha gravidez foi de 39 semanas completas, me submeti a uma cesariana por opção,meu bebê nasceu super saudável e, logo 1:00 h após o parto já fui para o quarto amamentá-lo, uma tranquilidade. Nada era mais sublime do que tudo aquilo que estava vivenciando. Após a alta hospitalar tudo mudou, ao sair do Hospital e entrar no carro minha cabeça deu uma volta de 360° graus, só pensava: E AGORA? Eram meio dia de uma quinta-feira, um sol de rachar na recepção da maternidade, via pela janela o trânsito infernal, as buzinas barulhentas…. As lágrimas começaram a cair, discretamente sem que as pessoas pudessem ver e um nó na garganta tomou conta de mim!

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Durante todo o caminho as lágrimas caíam e o nó na garganta aumentava, vários pensamentos me consumiam: "sou louca, um mundo desses e eu ainda coloco esse filho de Deus aqui" ; " Cadê minha barriga? Que saudade dela!" , " Que vontade de voltar para o quarto do Hospital e ficar lá pra sempre protegida e protegendo meu filho" . Todos esses pensamentos me acompanharam durante dias, as visitas, as expectativas que cada um tinha, o quanto eu me sentia pesada com aquilo tudo, só queria pegar meu filho e voltar pro hospital. Engolia seco, uma dor imensa dentro de mim e todos ao meu redor fazendo festa. Minha mãe me perguntava sempre: Você está feliz? Eu me sentia na obrigação de dizer que sim, e ela respondia: Mas seu olhar tá triste. Eu achava que era pelo cansaço dos cuidados com o bebê, talvez das dores ainda da cirurgia enfim. Não imaginava o quanto iria custar tudo aquilo!

No 10° dia após o nascimento do meu filho, minha mãe que ficou comigo para me ajudar voltou para casa, meu marido trabalhando o dia todo, operada, com os pontos doloridos, tinha de dar banho no bebê, alimentá-lo, me alimentar, colocá-lo para dormir…Enfim, sem descanso algum… Meu filho no 11° dia passou a sentir os efeitos da tamanha solidão que me rodeava, meu leite começou a secar, cheguei a ficar com ele 2,3,4 hs no peito, sentada no sofá da sala, sozinha, sem ter como me levantar para beber um copo dágua, os lábios colavam de secos, as lágrimas caiam de dor e no coração uma tristeza profunda!

Pelo fato de ter tido leite até os dias anteriores ninguém cogitou que meu leite estava secando " mas vc tem leite" E meu filho chorando compulsoriamente, meus seios feridos das tantas horas que ele sugava e eu, sentia ao fundo que não tinha mais demanda suficiente para ele mas, não era ouvida… " É choro de manha" ou " cólica", " Ah,ele quer mesmo é fazer seu peito de chupeta! Meu Deus, isso é ser mãe? Pare esse mundo que eu quero descer!!!
 
Consegui tirar a cultura do aleitamento exclusivo, até porque Davi já começava a perder peso…O que me matou e me mata até hj, de culpa! Comecei a introduzir fórmula e quando tinha alguma demanda amamentava. Pelo menos ele dormia um pouco e eu podia comer e tomar banho, coisas que não fazia por uns dois dias de tortura. Nesse intervalo, quase 20 dias após o parto chegou uma moça para me ajudar alguns dias da semana mas, o coração continuava a doer, doía pela falta do barrigão, por não conseguir amamentar exclusivamente, pelo meu filho ter perdido peso, por ter sido incompreendida.
 
Tudo isso era um liquidificador na minha cabeça, haviam as idas ao pediatra, as roupas não entravam em mim, as mães amamentando felizes…Porque não sou? Porque me isolo? Porque tenho medo?  Só pensava isso…E penso até hoje! 01 nano depois…A dor por não amamentar exclusivamente, por não conseguir, o medo desse fator acarretar doenças fatais desencadeou um neura de limpeza eterna, de isolamento, de antipatia com as pessoas.
 
Até hoje me sinto invadida por qualquer conselho que me ofereçam, não é porque fracassei com o aleitamento materno que não cuido do meu bebê corretamente, dispenso qualquer invasão. Passei a viver assim, fiquei louca com a balança, dietas malucas para voltar ao corpo de antes, pouco sucesso. Ao passear com meu filho, via as mães gordinhas com seus bebês, sempre felizes…Logo me perguntava: Ela não perdeu o corpo de grávida, mal tem tempo de se cuidar e é feliz…Mas eu, eu não consigo! Me sinto pesada, fadada, com saudade ainda, da minha barriga de grávida!!! Será que estão encenando um comercial de margarina ou eu fiquei doida?
 
E assim passaram-se meses e meses, ao voltar da licença maternidade, 04 meses após o parto fui demitida. Piorou! Uma pessoa com a vida super ativa, já havia esquematizado tudo, as horas que ficaria longe dele, quem iria assistí-lo. Tudo por água a baixo! Em casa, sem autonomia financeira, longe da antiga forma, trocando mil fraldas por dia, limpando, cozinhando. Cadê minha vida? Amo meu filho mas, quero minha vida própria!Me sentia esgotada, impaciente, chorava todos os dias, me culpava por não achar aquilo tudo da maternidade, a 7° maravilha do mundo e, o pior, não era ouvida e altamente rotulada!!!
 
Seis meses após o nascimento de Davi fui à ginecologista, ela já diagnosticou um quadro de Depressão, disse a mesma que não era mais DPP mas, uma depressão cristalizada, recomendou encaminhamento para terapia. Mas, ficou tudo no meio do caminho, faltou apoio, compreensão e fui me arrastando com tudo isso. Consegui no mês seguinte um emprego, graças a um anjo, uma amiga muito querida com quem desabafava, com horas reduzidas de jornada consegui voltar ao mercado para me sentir útil, ter uma rotina e consigo dar assistência ao meu filho sem precisar de babá ou ficar muitas horas sem vê-lo. Hoje, 01 ano depois, algumas coisas mudaram mas, a dor, permanece.
 
É um sentimento muito abstrato, não há motivo e realmente não há,  é aquela irritabilidade profunda, a tristeza, a defesa constante diante das pessoas, achando que as mesmas querem invadir meu espaço. Hoje ocupo muito meu dia, faço academia, corro, cuido do meu filho sem ajuda de doméstica, apenas com minha mãe e meu marido. Lido com outras dores tão difíceis quanto as seguintes do parto, antes não conseguia amamentar meu filho exclusivamente, hoje, vou várias vezes para emergências dos hospitais devido à asma infantil. As preocupações, as dores, as culpas sempre presentes.
 
Não busquei ajuda médica, não aconselho ninguém a fazer o que eu fiz, médico é fundamental…Mas, eu não podia tomar medicações e ter efeitos de sonolência, não havia quem ficasse com meu filho durante o dia para que eu descansasse ou fizesse uma terapia. Até porque, as pessoas acham terapia " banal",dizem que vimos prontas para sermos mães e que é assim mesmo! Estou sempre procurando nas redes grupos de apoio, faço partes comunidades, desabafamos juntas, choramos juntas pela internet, o serviço de Grupos de apoio ainda é muito carente, temos muita necessidade de sermos ouvidas, compreendidas…Como filosofia, adotei 01 dia de cada vez, tem dias que sobrevivo sem chorar,outros me sinto muito feliz sem culpa, depois desmorono, choro, me irrito, me culpo…Mas, assim tem sido, um dia de cada vez.

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