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Quatro décadas, quatro pais

Desde que a Pais e Filhos foi lançada, em 1968, os homens vêm ganhando mais e mais espaço na criação dos filhos

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Os escritores Pedro Bandeira e Marcelo Pires e os músicos Kledir e Toquinho, que se tornaram pais em décadas diferentes, contam pra gente que diferença o tempo faz.

Década de 70

Para Pedro Bandeira, ligação com os filhos vai além de trocar fraldas, coisa que ele admite nunca ter feito.

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O que terá mudado nestes anos? É certo que o mundo mudou, que os costumes passaram por transformações assombrosas e que as conquistas tecnológicas ocorridas nos últimos tempos são de desestruturar a nós, os pobre velhinhos…

Mas tais reviravoltas terão também provocado alterações nas relações entre pais e filhos? Será que o amor do senhor Zug-zug por seu filho Zig-zig ou por sua peluda filhinha Zag-zag, na distante Idade da Pedra, terá mudado só porque esse papai das cavernas descobriu a maneira de controlar o fogo ou de utilizar a pedra lascada? Será que podemos dividir a ligação entre pais e filhos como se dividem as eras históricas?

Os historiadores dizem que sim. Afirmam que o próprio amor materno e paterno tem estreita ligação com o modo de organizar-se a sociedade. Que haveria um tipo de amor na Idade Antiga, outro no período medieval e outro bem diferente após a organização da família moderna, como hoje a entendemos. Por outro lado, um querido amigo meu, o professor Franco Lajolo, da Universidade de São Paulo, defende que o amor de uma mãe e de um pai por seu filho tem uma base química, uma ligação sólida que nenhuma mudança de costumes pode abalar.

Mas o que penso eu, aqui dentro do meu ser? Será que costumes ou tecnologias alteraram o que minha mãe sentia por mim (meu pai acabara de falecer quando eu nasci) na minha infância dos anos 40 na pacata cidade que era Santos, onde surgi para o mundo?

Será que o que senti por meu filho, já em São Paulo na década de 70, era diferente daquele sentimento? Será que minhas preocupações, meus sonhos com o seu futuro, minhas ansiedades quando sua gargantinha se inflamava eram diferentes da ansiedade que assaltava minha mãe quando eu tinha crises de bronquite? E hoje, será que o surgimento do computador, da Internet e do celular alteraram o que me vai no coração quando fico sabendo que uma netinha minha está tendo dificuldades em matemática na escola?

Creio que não. Sinto que não. Sei que não. Na verdade, eu não trocava fraldinhas de nenê. Isso ficava a cargo da minha mulher. Também nunca troquei fraldas das minhas quatro netas  nem do meu único neto, que só tem meio ano de idade. Mas minha ligação com esse pessoalzinho todo em nada se alterou nem com o passar do tempo nem com as modernidades e nada que está por vir conseguirá alterar. Minha ligação com essa gente, que para sempre reproduzirá meu DNA, é química como afirma meu amigo Franco Lajolo, mas é também física, é biológica, é histórica, é geográfica, é literária. É eterna e ponto final.

 

Década de 80

Toquinho construiu um relacionamento franco e  direto com os filhos, longe da rigidez que marcava a paternidade em outros tempos

 A estrutura familiar de hoje permite que tarefas vistas antigamente como sendo tipicamente femininas se tornem parte do cotidiano dos pais. A individualidade da mulher exigiu do homem uma flexibilidade maior. Com isso, o homem foi assumindo com mais consciência a necessidade de sua participação na vida dos filhos.

Com o passar dos anos, os filhos tornaram-se mais livres e confiantes para propor suas idéias e para contestar o que contraria seus objetivos. As escolas contribuíram para isso com a adoção de métodos que proporcionaram aos alunos agir em grupo e interativamente, visando a conscientização sobre a cidadania. Esses métodos contaram com um reforço decisivo: a opção dos pais de preservarem seus filhos da rigidez com que foram tratados em sua infância, estimulando com isso, os filhos, a uma independência muitas vezes  perigosa.

Com a paternidade vem a compreensão de que a missão de um pai vai muito além de ser um simples protetor e provedor dos filhos. Muitas vezes é necessário deixar-se conduzir por eles para conhecer seus estímulos e tentar coordenar seus impulsos.Por outro lado, jamais deixará de haver o beijo carinhoso, o abraço sem frestas, aquele “boa noite” na cama, o café levado no quarto. A espera ansiosa adentrando a madrugada, a vibração pelo primeiro lugar na escola ou no esporte. A ternura das lágrimas, o aconchego dos sorrisos e a doce esperança, por parte dos pais, de seus filhos conseguirem viver uma vida independente, tanto pessoal quanto profissionalmente.

 Meu primeiro filho nasceu em 1984, um menino, hoje com 23 anos. A menina nasceu em 1993, nove anos após.

Cresceram em épocas diferentes, temperamentos extremos, comportamentos opostos. É claro que a infância deles foi totalmente diferente da minha. Mas essa é uma tendência impossível de se ajustar aos filhos por causa das transformações sociais aliadas à evolução tecnológica. Os espaços tranqüilos foram roubados pelo concreto e pela insegurança; as ruas, substituídas pelos frios corredores dos shoppings; o videogame tomou o lugar do futebol real; a ingenuidade, transfigurada pela Internet, oferecendo aos filhos uma precoce sexualidade.

Não sou de viver antecipadamente o que o futuro me reserva. Fui me ajustando aos ímpetos dos meus filhos, procurando sempre facilitar nossa relação, jamais deixando submetida minha individualidade como homem à condição de apenas pai. 

 

Década de 90

“Fala, moleque!”: longe de desrespeito, o cumprimento de filho para pai é sinal da intimidade que Kledir tem com a cria

Fiz questão de assistir ao parto de meus dois filhos. Foi um momento sagrado, eu não perderia por nada. Participei, sim, de tarefas como dar banho, trocar fraldas, botar pra dormir… Com certeza muito mais do que meu pai. Claro, minha geração já teve uma série de facilidades práticas, como fraldas descartáveis. No tempo em que eu era bebê, os homens quase não se envolviam em atividades domésticas. Nesse sentido, tivemos um avanço.

Imagino que a dificuldade de criar filho seja, em essência, sempre a mesma, independentemente da época, seja nos anos 90 ou nos 2000. Eu procuro passar para meus filhos o que de melhor meu pai me deixou: princípios éticos e valores morais sólidos. O conteúdo segue o mesmo, o que mudou foi a forma de relação. Os tempos são outros. Por exemplo, meu filho me cumprimenta gritando: “Fala, moleque!”, o que sob a ótica dos mais velhos seria uma falta de respeito. Para mim, esse tipo de tratamento revela um enorme grau de intimidade. O importante é que, com esse nosso jeito descontraído, criamos uma relação familiar saudável, com muito amor, amizade, confiança e respeito.

O aspecto mais difícil da paternidade foi descobrir a invisibilidade que adquirimos quando os filhos são adolescentes. É como digo no livro: “Você fala e eles não escutam. Passam por você e nem olham. Se olham, não vêem. Eles esquecem que você existe, ou pior, só lembram de você quando precisam de dinheiro ou de carona”. Em vez de sofrer com isso e ficar me lamentando, aprendi a usar o  humor e tirar partido da situação. Invisibilidade não é ausência, posso estar sempre por perto e cumprir minha função de pai: tomar conta e passar segurança. Acho que é isso que eles esperam de nós. Além do dinheiro e da carona, é claro.

Nós, os adultos, estamos sempre tentados a idealizar a infância e é algo que me parece natural. É uma época fascinante, quando se vive sem maiores preocupações e responsabilidades. Ao comparar o tempo em que eu era criança com os dias atuais, é inevitável lembrar que “má companhia” – aquele mau elemento de quem os pais não gostavam – era apenas um garoto que quebrava vidraças com estilingue. Hoje em dia, as coisas não são mais tão ingênuas.

Não diria que a tecnologia é a principal vilã da história, por exemplo. A tecnologia só atrapalha no sentido de aumentar ainda mais o isolamento do filho – com iPod, Internet –, mas não pode ser culpada pela dificuldade de relação. Ficar isolado é uma tendência natural na adolescência. Eles buscam um mundo próprio, diferente do ambiente familiar, para poder formar sua personalidade. O grupo de amigos ajuda nessa função. É ali que o adolescente encontra gente com roupas, idéias e comportamento iguais ao dele. A partir disso, ele vai criar uma identidade própria. 

 

Século 21

Hoje os filhos nascem e vão para o colo do pai, antes de chegar aos braços da mãe. Mas Marcelo Pires confessa que deixa as fraldas de cocô para a mulher

Credito que hoje é mais fácil ser pai: existem menos estereótipos, menos papéis definidos e menos padrões a serem cumpridos. Os homens podem até ter dúvidas entre priorizar a carreira ou a vida familiar, mas são as mulheres que, muitas vezes, sustentam a família e os casais convivem muito bem com enteados e filhos legítimos. A estrutura familiar mudou e bastante coisa evoluiu. Tanto que tive meu primeiro filho com 39 anos, bem mais velho do que o meu pai, que teve sua primeira filha, minha irmã Kátia, com 25. O Tobias, meu segundo filho, tive com 45. Isso, antigamente, era idade de avô.

A minha geração é mais “dona de casa”, sim, isso é um fato. Hoje em dia, os filhos, quando nascem, vêm primeiro para os braços do pai, não para os braços da mãe. Hoje a criança nasce, o obstetra passa o bebê para a pediatra que acompanha o parto. Depois, o pediatra a entrega para o pai, que leva o bebê até os braços da mãe. Isso revela muita coisa: as crianças estão parando de chorar nos braços dos pais, não nos das mães. Sei lá no que vai dar isso. Mas é uma mudança. Apesar de todas as mudanças, confesso: troco fralda de xixi; de cocô eu chamo a minha mulher.

Agora, uma coisa nunca vai mudar: a nossa única obrigação como pais (se obrigação isso for) é amar os filhos, o resto se ajeita. Os pais de antigamente não precisavam concorrer com o PlayStation e a vida talvez fosse mais simples. Por outro lado, os pais de hoje em dia contam com o apoio da babá eletrônica e a vida talvez seja mais simples.

Em um de meus livros, O Menino Que Queria Ser Celular, conto a história de um menino que gostaria de ser um telefone celular. É que, dessa maneira, ele passaria mais tempo na companhia de seus pais. Esse menino percebe que os pais, além de falarem muito ao celular, são mais falantes, mais barulhentos e mais risonhos durante as ligações. Os pais modernos vivem uma vida corrida e nem sempre têm muito tempo para o filho. Aí, na adolescência, o filho se tranca no quarto e os pais fazem de tudo para ter “diálogo” com ele. Quando os filhos querem brincar, os pais estão cansados; quando os filhos crescem e querem ficar quietos, os pais não se cansam de ser solícitos. Gente esquisita.