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Parto sofrido

Redação Pais&Filhos

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Em carta publicada no livro coisas de mãe para filha, a senadora Marina Silva conta que, de um parto traumático, nasceu a paz

Shalom,
minha primeira filha. Você gerou em mim a mãe, tanto quanto eu a gerei filha, justamente num Dia das Mães, 10 de maio de 1981. Eu era uma estudante de História que não tinha salário. Você nasceu num hospital público, onde me registraram na categoria chamada de “indigente”.
Na hora exata em que sua cabeça apontava, lá pelas nove da manhã, tive uma queda de pressão. Aí ouvi o sotaque italiano da irmã Constanza, a única enfermeira formada na equipe, que entrou na sala aos berros: “Esta mulher está morrendo, vamos salvar a criança!”. Abriu-me a fórceps e te retirou dentro de mim, uma menina que deve ter tido uma péssima primeira impressão do mundo.
Ao mesmo tempo me deram uma injeção e a pressão foi subindo. Vi as enfermeiras aflitas fazendo sucção num corpinho do qual eu via uma parte, bem escura. Pensei: “ela puxou à minha família, ao meu avô descendente de escravos”. Enquanto eu era socorrida, fiquei com aquela imagem da minha menina negra, que tinha sido levada para a UTI.
Depois, na enfermaria, todos os bebês chegavam para mamar, menos você. Comecei a ficar nervosa e a perguntar sem parar, mas ninguém trazia você, nem me respondia. Lá pelas duas da tarde, finalmente, você chegou. Mas era branca, e eu comecei a dar escândalo, dizendo que tinham trocado minha filha. Peguei você no colo pela primeira vez e comecei a olhar tudo, à procura de algo que comprovasse que era minha. Aí encontrei, nas costas, o mesmo sinal vermelho, o mesmo desenho que sua avó, dona Raimunda, tem entre os seios. E, na coxa, ainda havia resquícios da cor escura que havia visto antes.
Foi muito difícil o que vivemos juntas: o instante de me constituir como mãe, a experiência mais visceral que existe. E, naquele momento de uma radicalidade tão profunda, ganhei também uma fortaleza que sinto e sempre sentirei como ligada a você. Depois você se transformou numa criança cheia de personalidade, que adorava dançar.
Você cresceu praticamente dentro da Universidade Federal do Acre, acompanhando-me em tudo. Aliás, seu nascimento aconteceu durante uma greve. Na maioria das vezes, eu acabava tendo que levar você para a sala de aula e até para as assembleias e outros eventos da minha militância política. Tanto que uma vez, em casa, quando você tinha uns cinco anos, chegou com uma caixa de fósforos amarrada num barbante, subiu no braço do sofá e começou: “companheiros, mãe, temos de respeitar nossa dieta líquida”. Os gestos, a entonação, eram iguaizinhos aos que eu fazia!
Também recebi sua solidariedade quando você era bem pequena e eu atravessava um período muito difícil. Ao me pegar chorando, sentou-se no meu colo e, acariciando o meu rosto, disse: “Chó não, mamãe, chó não”.
Passou o tempo e aprendi outra lição com você. Eu queria costurar e você em cima, não deixava, tentando por toda maneira chamar minha atenção. Aí apelei para a chantagem emocional: “Shalom, vai pro berço brincar, senão mamãe chó”. Você parou, olhou para mim sem condescendência e foi definitiva: “Pode chó”.
Shalom, seu nome significa Paz em hebraico. E você é uma boa representante da paz: quer entender as pessoas, suas razões, seus sofrimentos, e ajudá-las a encontrar a força interna, o equilíbrio, a tranquilidade. Não sem razão foi pelos caminhos da Psicologia, buscando a paz que começa a se formar dentro de cada indivíduo e se consolida no aprendizado de que acolher o outro não significa se tornar refém do desejo e das circunstâncias de ninguém. 

 

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